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Date: Monday, 24 Jul 2006 00:46
Perdeu a graça escrever um blog. Não tem mais graça o esquerdismo, não tem mais graça a DENEM, não tem mais graça ser capitalista desde pequeno ,não têm mais graça o Ivan Lessa e o Diogo Mainardi. Não tem mais graça as maravilhas da internet, a biblioteca mofada da minha faculdade nem a medicina baseada em evidências. Ver o Bono Vox falar suas bobagens não tem mais graça. Ler perdeu a graça também. É difícil achar graça no mundo quando ele está na porta da sua casa, armado e apontando contra a sua consciência.
PS: Colocar hyperlinks para tudo que eu digo também perdeu toda a graça.
PS: Colocar hyperlinks para tudo que eu digo também perdeu toda a graça.
Date: Monday, 24 Jul 2006 00:37
Esses dias vi toda a série dos Senhor do Anéis de uma vez só. Nunca tinha visto todos os filmes, comecei de noite e acabei de ver as 11:30 da manhã. Para quem não entendeu a história, a ONU é o Sauron. Quer conseguir o último anel que une todos os povos sob único domínio.
Date: Sunday, 04 Jun 2006 21:17
Não costumo fazer essas sugestões, mas sempre se pode começar. Aí vai o link, da sessão "vídeos incríveis do google".
Date: Tuesday, 17 Jan 2006 15:07
Cheirando a mofo eu venho aqui falar sobre o programinha do Google, o Google Earth. Perco noites inteiras navegando no software que oferece fotos de satélite do mundo todo e tentando entender o que está acontecendo nos outros países. Em Havana, se pode ver a grande avenida beira-mar. Se não me falha a memória, é onde se encontram as prostitutas mais baratas e mais intelectualizadas do mundo. Em Tóquio, perto do Palácio do Imperador, encontrei uma ponte linda, circular, uma verdadeira maravilha da engenharia usada para ligar a cidade a um pedacinho de terra menor que um campo de futebol (se as escalas do programa não estão erradas). Como as conspirações imperam quando o assunto são os Estados Unidos, no Alaska encontrei (graças aos bondosos usuários do programa que podem deixar os seus alfinetes no mapa) uma das zonas proibidas do Google Earth. Se trata de uma território onde ninguém sabe o que tem mas todo mundo tem certeza que coisa boa não é. Arrisco que sejam alguns mísseis apontados para a Coréia do Norte ou União Soviética. Não sei, assim como os outros usuários que enchem o programa de comentários inúties, só especulo.
Date: Tuesday, 17 Jan 2006 14:55
As vezes minha namorada dorme em casa e eu fico sem muito o que fazer. Mesmo assim, descobri que ainda posso ter uma madrugada agradável ao som da voz pigarreada do Ivan Lessa falando sobre seu atual ódio ao mundo de Guttemberg no site da BBC Brasil. Você só precisa ter uma versão nova do Real Player, clicar no título que mais lhe interessar, e esperar um pouquinho. O som correrá pelo seu computador em direção aos seus fones de ouvido com comentários inteligentes sobre Paulo Coelho, Dan Brown, Wikipedia e, de vez enquando, alguns livros que valem a pena ler.
Date: Friday, 30 Dec 2005 02:16
Tem um livro de condutas e diagnósticos que é muito apreciado na minha faculdade. O livro chama “Medicina Ambulatorial, condutas de atenção primária baseadas em evidências”. É mais ou menos o seguinte, se divide algumas condutas de 1 até 5. 1 é o grau máximo de evidência, o melhor do mundo de todos os tratamentos e métodos médicos. 5 é o menos comprovado, mas, mesmo assim, indicadíssimo. Não dá nem culpa, olha ali, aplica e, se der errado, a culpa é da ciência que não explica o caso. Tudo bem. Tosco como eu sou, nunca tinha entendido como a medicina poderia não ser baseada em evidência. Comprei o livro e fui lendo. Quando eu entendi o método do 1 a 5 achei lá um capítulo, que entre outros autores, contava com o Dr. Armando de Negri, fundador do movimento estudantil na medicina. Estava lá em letras de forma: “A medicina tradicional, alternativa e complementar”. Mmm. Fui ler. A idéia é interar a medicina tradicional à medicina formal e aplicar tudo no Sistema Único de Saúde. Por medicina tradicional os autores consideram os “Curandeiros, que se utilizam de plantas, assim como de produtos animais ou minerais, além de procedimentos mágico-religiosos” (sic). Inclui também as rezadeiras, “que se utilizam de rezas e benzeduras para afastar doenças do corpo ou do espírito, podendo também combinar esses procedimentos com fitoterapia”. Tu vê só. A lista continua e inclui os médiuns espíritas, os pastores pentecostais, os sacerdotes do candomblé e da umbanda e os religiosos católicos. Os autores não disseram o grau, mas a evidência é comprovada por métodos místicos, cósmicos e exotéricos. Milagres? Não. Milagres é com o padre da capela, não com o do S.U.S.
Date: Wednesday, 14 Dec 2005 20:00
Digam o que quiserem, mas o fato é que quando se é pobre, engravidar aos quatorze anos é um bom negócio. Tenho entrado em umas favelas aqui de Porto Alegre e observado como vive esse pessoal. Há uma porção de adolescentes mães por lá. O que todas tem em comum (além de não freqüentarem o grupo de jovens mães do posto de saúde) é o fato de serem bem educadas. Fiquei comparando elas com as jovens que não engravidaram. Todas são o que alguns chamam de promíscua. Hoje não se usa mais muito essa palavra, mas tudo bem. Sempre tem a gurizadinha malandra que coloca essas gurias no pó, nas festinhas, na rua. Se eu pudesse, faria campanha pela gravidez na adolescencia.
Date: Wednesday, 16 Nov 2005 17:37
Estava ouvindo no arquivo de entrevistas da BBC uma entrevista com os cientistas Francis Crick e James Watson (os que ganharam o Prêmio Nobel em 1962 por descobrirem o DNA). Eles levaram, no fim das contas, seis semanas para descobrir o negócio todo, sem serem gênios (sic) e sem ficarem muito tempo trancados no laboratório. “It isn't a thing wich you can do day and day very intensively.” “You must not pay to much attention in all the experimental evidences because some of it may be wrong.” O Proust levou quase quinze anos trancado em um quarto forrado de cortiça, trocando o dia pela noite, para escrever Em Busca do Tempo Perdido. Livro esse que muitos consideram o maior romance de todos os tempos. E isso, sendo gênio. Nunca levei muito a sério esse lance de DNA, segredo da vida e semelhança entre espécies... Com essas afirmações e em seis semanas, só pode ser bobagem.
Date: Saturday, 29 Oct 2005 18:02
Esses dias fiquei na faculdade na hora do almoço, sem meus amigos e sem minha namorada. Resolvi conferir a Biblioteca Central da UFRGS. Um amigo filisteu tinha me contado sobre um acervo histórico. Impressionante. Toda a obra de Thomas de Quincey está lá, o escritor opiômano que influenciou, entre outros, William Burroughs (que preferia o sintético). Todos os poemas de Milton, Keats, Whitman e Dryden estão lá também. Todos em inglês. Entre um espirro e outro, achei os livros de George Eliot (na verdade Mary Ann Evans), Sir Walter Scott (incluindo os poemas), e das irmãs Brontë (em uma edição que inclui estudos biográficos sobre as irmãs Anne, Charlotte e Emily). Sinais de alguma civilização que habitou essa cidadezinha há muitos anos e desapareceu ninguém sabe como. Algumas dessas ilustres criaturas deveriam ler alemão e francês e trouxeram consigo a obra completa de Goethe, Molière e Balzac. Em um país onde o ministro da cultura investe em discos de hip-hop, essa biblioteca é um espetáculo. E o melhor, os alunos não usam. Arrisco dizer que nem sabem que tal coisa existe. Na saída, passei os olhos pelas mesas e vi quatro universitários legítimos. Jornais, revistas, polígrafos encadernados... Nenhum parecia ter idéia de onde estava.
Date: Sunday, 16 Oct 2005 22:09
O Brasil é um país triste. Ainda temos gente morrendo de gripe...
Date: Wednesday, 12 Oct 2005 20:27
Foi encontrado morto nessa madrugada o médico legista Carlos Delmonte Printes, o que fez a autópsia no corpo de Celso Daniel. Em recente participação no programa Jô Soares, ele afirmou ter sido pressionado pelo deputado Luiz Eduardo Greenhalgh (grande defensor dos direitos humanos no PT) para finalizar o caso. Já somam 7 o número de mortos.
Date: Tuesday, 13 Sep 2005 18:05
Os mais destacados artistas brasileiros saíram em campanha pelo desarmamento. O cantor Lenine foi poético: “Um mundo sem armas é uma utopia bacana. O sonho é aquilo que você almeja. Esse é um primeiro sonho bacana”. Gabriel O Pensador acha que a proibição da venda de armas reduziria a violência no transito e o crime passional, mas não opina sobre o tráfico de drogas nem sobre o roubo de carros. Marcelo Yuka defende o desarmamento porque é uma atitude moderna. Pedro Luís (o da parede) acredita que “arma não rola”, prefere a arma da sabedoria, inclusive em assaltos e estupros. O cantor e DJ BNegão usa a sua popularidade e influência e chama a classe artística para votar pelo “sim” no referendo. Mandarei um email para o meu amigo pintor lembrando da convocação. Entre as mulheres, quem se destaca é a cantora Negra Li, que prefere “armar a tenda da paz, do amor e da compreensão”. Sua próxima aparição será em um congresso da DENEM.
PS: No dia 23 de outubro vote NÃO ao Napster e devolva o emprego desse pessoal.
PS: No dia 23 de outubro vote NÃO ao Napster e devolva o emprego desse pessoal.
Date: Sunday, 11 Sep 2005 19:44
Deve ser característica dos bons políticos discursar contra o governo Bush. O último foi o senhor Severino Cavalcanti em pronunciamento na ONU.
Date: Wednesday, 10 Aug 2005 08:18
O governo do PT capitalizou a única coisa que não deveria, o Congresso Nacional. Se fosse o sistema de saúde, a Petrobrás, o Banco Central, os militantes do PT estariam chiando. Como é só o congresso, tudo bem. Coisa triste o comunismo.
Date: Monday, 01 Aug 2005 01:23
Segundo o economista queniano James Shikwati, o World Food Program das Nações Unidas (tão alardeado no Live-8) só piora a situação dos países africanos. Leva cereais produzidos nos países ricos e entope a economia dos países pobres da África. Os fazendeiros protegidos pelas barreiras agrícolas ficam felizes com o lucro vindo do estado, os fazendeiros africanos jogam tudo fora pois não conseguem competir com os grãos doados pelos estrangeiros. Pelos visto, a boa voz só soa bem na Europa, e a juventude européia vibra com tanta bondade. Será que eles também nunca se sentiram ludibriados?
Date: Monday, 25 Jul 2005 19:39
Eu costumava freqüentar um barzinho aqui perto de casa onde me encontrava com um amigo para tomar uma ou duas cervejas e conversar sobre o que observávamos nos jornais e na TV. Acreditávamos estar diante da decadência da civilização ocidental. As mesas do bar eram de madeira, com toalhas de plástico azul e branco. Um senhor se sentava com duas ou três meninas. As vezes entrava um pai de família e o cumprimentava: “Como vai, seu Castanha?”. Quatro ou cinco trabalhadores do bairro apareciam por um tempo e tomavam sua bebida com tranqüilidade, depois voltavam para empurrar os seus carrinhos com papeis e plásticos. O dono do estabelecimento era eficiente e atencioso, sempre com um sorriso aberto enquanto trocava os cinzeiros das mesas. Todo mundo se conhecia e conversava numa boa, nunca vi uma discussão ou briga, nem quando a máquina de bingo eletrônico trancava a moeda do cliente. Tudo era acompanhado pelo mais profundo respeito, comum aos homens com alguma dignidade. Hoje, na câmara dos deputados, onde os assentos são de couro e o revestimento é de veludo, um canalha aparece para fazer o seu discurso, outro já grita: “terrorista!” A torcida reage: “O Dirceu é meu amigo, mexeu com ele mexeu comigo!”. Um levanta um saco de lixo, outro grita corrupto, começa o tumulto, começa a briga, até mulher se mete no meio. O dono do bar tenta acalmar os ânimos, corta a bebida. Não adianta. A pouca vergonha só acaba quando a polícia chega, a sessão é encerrada e o bar, fechado.
Date: Monday, 20 Jun 2005 04:24
"O de que o governo mais se ufana, entende, é o modo pelo qual cuidou do crime nestes últimos meses. Recrutando jovens desordeiros e brutais para a polícia. Propondo métodos de condicionamento que debilitam e solapam a vontade. Nós já vimos isso tudo antes, em outros países. A ponta da lança afiada. Antes que se possa perceber a quantas anda, tem-se o aparato completo do totalitarismo"
Trecho da terceira parte do livro de Anthony Burgess, A Laranja Mecânica. No Brasil isso se chama aparelhamento, ajuda aos movimentos sociais, organização de militância. Atitudes muito corretas.
Trecho da terceira parte do livro de Anthony Burgess, A Laranja Mecânica. No Brasil isso se chama aparelhamento, ajuda aos movimentos sociais, organização de militância. Atitudes muito corretas.
Date: Tuesday, 14 Jun 2005 14:42
A DENEM (Direção Executiva Nacional dos Estudantes de Medicina) foi criada em 1986 devido a uma ruptura com a secretaria de Biomédicas da UNE (União Nacional dos Estudantes). Na época, o Brasil passava por uma intensa agitação política com a queda da ditadura. Também foi a época da criação do Sistema Único de Saúde, o SUS. A DENEM surgiu nesse cenário como a representante maior dos estudantes de medicina do país que, se unidos, acreditavam ter uma voz mais forte no novo clima democrático. Acabou se tornando uma instituição com maior poder político do que talvez fosse esperado pelos estudantes dos anos oitenta, com papel importante na implementação do SUS.
O seu slogan é "Movimento em Defesa da Vida". Um dos seus mais importantes projetos, o "Saber em Movimento", custaria R$ 246.100,00, o último orçamento ficou em torno de R$350.000, como me foi informado no último EREM da Sul I. O projeto consiste em mandar para os mais diversos cantos do país (em encontros regionais e nacionais) estudantes engajados na "transformação social" e "formação em saúde". Como é explicado na cartilha do "Saber em Movimento" (que contém um parágrafo dando o objetivo geral do projeto e quatorze páginas explicando como formar militância política) ele consiste em formar "coletivos estudantis, com clareza de objetivos, reconhecendo-se como parte de um movimento orgânico com vistas a mudança no ensino de graduação em saúde e com uma agenda de trabalho estruturada para tanto". Essas mudanças no ensino de graduação em saúde visam, em último plano, a formação de médicos para atuarem no Sistema Único de Saúde. O atual ministério da saúde é grande parceiro da DENEM e, provavelmente, o maior financiador desses projetos. Só para esse, seriam gastos R$ 10.000,00 reais em dois laptops, R$ 375,00 em fotocópias e R$ 41.200,00 em passagens aéreas e terrestres para os militantes, segundo o primeiro orçamento liberado por eles. Todo esse dinheiro gasto em um projeto dito de saúde mas, que em sua cartilha explicativa, não cita nenhum problema da saúde pública no Brasil.
Os membros da DENEM costumam descrever o movimento como "uma coisa mística", "uma criação coletiva", "uma reunião de subjetividades engajadas em um fim comum", “uhuuu!”. Um lugar onde ninguém quer saber de hierarquia, se essa consistir em uma obediência por motivos racionais. As autoridades existem, mas estão dissolvidas e são do tipo carismático, que se obedece justamente porque não se compreende. O único critério é o “sentimento de participação”, que diferencia os integrados na nova onda dos simples pagãos, ainda não tocados pelo espírito da horda. Depois de algum tempo integrados, poucos confrontam as idéias do movimento e, se o fazem, é porque são radicalmente a favor. Tão a favor que brigam com os que são só a favor. No último congresso nacional dos estudantes pude presenciar situações que deixariam os líderes da Igreja Universal com inveja. Fiquei abismado após assistir a um discurso de um dos seus mais influentes líderes, que depois de falar sobre um determinado problema, cheio de movimentos e trejeitos, eu não sabia nem o lado que ele estava tomando na discussão. Mesmo assim, ele conseguiu arrancar aplausos calorosos da platéia servil que o tratava com a mais profunda admiração. Eles conquistam quem puderem conquistar. O sentimento de unidade os fortalece e os problemas pessoais são esquecidos. Quem não concordar com as normas ditadas pela gestão do diretório é visto como um estranho e logo aparecem quatro ou cinco militantes para convencê-lo do contrário. Se mesmo assim o infeliz insistir em se opor, eles começam a aparecer displicentemente no seu alojamento para conversar sobre um determinado assunto e, nas reuniões em que o sujeito participa, passam a aparecer militantes do alto escalão que se sentam displicentemente em algum canto da sala para organizar fotos ou qualquer coisa que não lhes exija muita atenção. Se mesmo assim o sujeito não calar a boca, ele passa a ser observado para que se evite a corrupção de novas mentes.
Esse pessoal andou passando pelo CASL (Centro Acadêmico Sarmento Leite), do qual faço parte hoje. Na época, era comum usar a "técnica do acolhimento" ou o "apadrinhamento". Essa se baseava no seguinte: sempre que um aluno novo fosse pela primeira vez a uma reunião, um "guru" sentava-se ao seu lado para explicar-lhe sobre aquele monte de coisas complicadas da reunião: DENEM, COBREM, ABEM, FODABEM e todas essas siglas que restringem o seu uso aos "entendidos" do assunto. Assim, eles muitas vezes conseguiam plantar nos alunos (muitas vezes bixos, que eram mais desprezados, ou acadêmicos com espírito de rebanho, que representavam eles ontem) a sementinha em "defesa da vida". Ou seja, ser contrário ao projeto de lei do Ato Médico, admirar o modelo de medicina Cubano, ser contra as entidades médicas e assim por diante. Tudo rebuscado por palavras místicas e siglas obscuras. Se o pobre aluno aceitasse isso tudo, o esforço estava justificado: estava formado mais um idiota útil para ser usado nas manobras do movimento. O desfecho de tudo isso foi visto na faculdade. O Centro acadêmico ficou sucateado, odiado por seus próprios acadêmicos (as "subjetividades rebeldes"), sem ação em prol do seu corpo discente, engajado nas oficinas do Fórum Social Mundial (nas quais eles compareceram em peso no último), nos movimentos sociais e nos partidos políticos. Todo o funcionamento do que deveria ser um local de referência acadêmica para os estudantes engajado na formação de militantes políticos.
No estatuto, faz parte da DENEM todo e qualquer estudante de medicina. Ou seja, passe no vestibular e ganhe de brinde a carteirinha de membro do clube. O problema é que quase ninguém sabe disso e, mesmo quem sabe, não tem tempo ou interesse para se meter com um pessoal tão complicado. Eu não me importaria nenhum pouco com eles, não fosse o poder que eles estão ganhando. Não são poucos os ex-membros de gestões da DENEM que hoje estão no Ministério da Saúde pensando em todas as maneiras possíveis para interferir na vida do médico. Uma reformulação completa da profissão está sendo discutida. Vai da implementação de um sistema público de saúde onde todos os médicos deverão trabalhar até a possibilidade de troca do nome "médico" por "agente de saúde", que ofende menos. Sim, amigos, a palavra médico é socialmente ofensiva, e chega dessa visão pequeno burguesa do médico como um profissional liberal. A ordem agora é trabalhar para o governo, que é quem sabe o que é melhor para a nação. Então, caros colegas, abandonem os gastos supérfluos naquela boa churrascaria do sábado e vão logo baixando os seus narizinhos. O nosso futuro, pelo visto, estará imerso em burocracia.
***
Quando me disseram no EREM que o “Saber em Movimento” custaria R$350.000, perguntei de onde viria o dinheiro. “Vem do Ministério da Saúde”. Procurando na internet, achei o preço de alguns tratamentos para doenças comuns no Brasil. O tratamento de pacientes com problemas de colesterol custa R$70 por mês, com hepatite C, R$153,24. Para a AIDS, a Organização Mundial de Saúde pretende baixar o custo para U$50 por mês. Isso quer dizer que esse dinheiro poderia pagar durante um ano o tratamento de 357 pacientes com problemas de colesterol, 163 pacientes com hepatite C ou 200 com AIDS. Me pergunto se os que ainda acreditam na DENEM nunca se sentiram enganados... Parece que saúde não é mais tão importante, o que é bom negócio é financiar militância de suporte ao governo federal.
PS: Esse texto é uma mistura de dois outros e saiu no jornal "O Bisturi".
O seu slogan é "Movimento em Defesa da Vida". Um dos seus mais importantes projetos, o "Saber em Movimento", custaria R$ 246.100,00, o último orçamento ficou em torno de R$350.000, como me foi informado no último EREM da Sul I. O projeto consiste em mandar para os mais diversos cantos do país (em encontros regionais e nacionais) estudantes engajados na "transformação social" e "formação em saúde". Como é explicado na cartilha do "Saber em Movimento" (que contém um parágrafo dando o objetivo geral do projeto e quatorze páginas explicando como formar militância política) ele consiste em formar "coletivos estudantis, com clareza de objetivos, reconhecendo-se como parte de um movimento orgânico com vistas a mudança no ensino de graduação em saúde e com uma agenda de trabalho estruturada para tanto". Essas mudanças no ensino de graduação em saúde visam, em último plano, a formação de médicos para atuarem no Sistema Único de Saúde. O atual ministério da saúde é grande parceiro da DENEM e, provavelmente, o maior financiador desses projetos. Só para esse, seriam gastos R$ 10.000,00 reais em dois laptops, R$ 375,00 em fotocópias e R$ 41.200,00 em passagens aéreas e terrestres para os militantes, segundo o primeiro orçamento liberado por eles. Todo esse dinheiro gasto em um projeto dito de saúde mas, que em sua cartilha explicativa, não cita nenhum problema da saúde pública no Brasil.
Os membros da DENEM costumam descrever o movimento como "uma coisa mística", "uma criação coletiva", "uma reunião de subjetividades engajadas em um fim comum", “uhuuu!”. Um lugar onde ninguém quer saber de hierarquia, se essa consistir em uma obediência por motivos racionais. As autoridades existem, mas estão dissolvidas e são do tipo carismático, que se obedece justamente porque não se compreende. O único critério é o “sentimento de participação”, que diferencia os integrados na nova onda dos simples pagãos, ainda não tocados pelo espírito da horda. Depois de algum tempo integrados, poucos confrontam as idéias do movimento e, se o fazem, é porque são radicalmente a favor. Tão a favor que brigam com os que são só a favor. No último congresso nacional dos estudantes pude presenciar situações que deixariam os líderes da Igreja Universal com inveja. Fiquei abismado após assistir a um discurso de um dos seus mais influentes líderes, que depois de falar sobre um determinado problema, cheio de movimentos e trejeitos, eu não sabia nem o lado que ele estava tomando na discussão. Mesmo assim, ele conseguiu arrancar aplausos calorosos da platéia servil que o tratava com a mais profunda admiração. Eles conquistam quem puderem conquistar. O sentimento de unidade os fortalece e os problemas pessoais são esquecidos. Quem não concordar com as normas ditadas pela gestão do diretório é visto como um estranho e logo aparecem quatro ou cinco militantes para convencê-lo do contrário. Se mesmo assim o infeliz insistir em se opor, eles começam a aparecer displicentemente no seu alojamento para conversar sobre um determinado assunto e, nas reuniões em que o sujeito participa, passam a aparecer militantes do alto escalão que se sentam displicentemente em algum canto da sala para organizar fotos ou qualquer coisa que não lhes exija muita atenção. Se mesmo assim o sujeito não calar a boca, ele passa a ser observado para que se evite a corrupção de novas mentes.
Esse pessoal andou passando pelo CASL (Centro Acadêmico Sarmento Leite), do qual faço parte hoje. Na época, era comum usar a "técnica do acolhimento" ou o "apadrinhamento". Essa se baseava no seguinte: sempre que um aluno novo fosse pela primeira vez a uma reunião, um "guru" sentava-se ao seu lado para explicar-lhe sobre aquele monte de coisas complicadas da reunião: DENEM, COBREM, ABEM, FODABEM e todas essas siglas que restringem o seu uso aos "entendidos" do assunto. Assim, eles muitas vezes conseguiam plantar nos alunos (muitas vezes bixos, que eram mais desprezados, ou acadêmicos com espírito de rebanho, que representavam eles ontem) a sementinha em "defesa da vida". Ou seja, ser contrário ao projeto de lei do Ato Médico, admirar o modelo de medicina Cubano, ser contra as entidades médicas e assim por diante. Tudo rebuscado por palavras místicas e siglas obscuras. Se o pobre aluno aceitasse isso tudo, o esforço estava justificado: estava formado mais um idiota útil para ser usado nas manobras do movimento. O desfecho de tudo isso foi visto na faculdade. O Centro acadêmico ficou sucateado, odiado por seus próprios acadêmicos (as "subjetividades rebeldes"), sem ação em prol do seu corpo discente, engajado nas oficinas do Fórum Social Mundial (nas quais eles compareceram em peso no último), nos movimentos sociais e nos partidos políticos. Todo o funcionamento do que deveria ser um local de referência acadêmica para os estudantes engajado na formação de militantes políticos.
No estatuto, faz parte da DENEM todo e qualquer estudante de medicina. Ou seja, passe no vestibular e ganhe de brinde a carteirinha de membro do clube. O problema é que quase ninguém sabe disso e, mesmo quem sabe, não tem tempo ou interesse para se meter com um pessoal tão complicado. Eu não me importaria nenhum pouco com eles, não fosse o poder que eles estão ganhando. Não são poucos os ex-membros de gestões da DENEM que hoje estão no Ministério da Saúde pensando em todas as maneiras possíveis para interferir na vida do médico. Uma reformulação completa da profissão está sendo discutida. Vai da implementação de um sistema público de saúde onde todos os médicos deverão trabalhar até a possibilidade de troca do nome "médico" por "agente de saúde", que ofende menos. Sim, amigos, a palavra médico é socialmente ofensiva, e chega dessa visão pequeno burguesa do médico como um profissional liberal. A ordem agora é trabalhar para o governo, que é quem sabe o que é melhor para a nação. Então, caros colegas, abandonem os gastos supérfluos naquela boa churrascaria do sábado e vão logo baixando os seus narizinhos. O nosso futuro, pelo visto, estará imerso em burocracia.
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Quando me disseram no EREM que o “Saber em Movimento” custaria R$350.000, perguntei de onde viria o dinheiro. “Vem do Ministério da Saúde”. Procurando na internet, achei o preço de alguns tratamentos para doenças comuns no Brasil. O tratamento de pacientes com problemas de colesterol custa R$70 por mês, com hepatite C, R$153,24. Para a AIDS, a Organização Mundial de Saúde pretende baixar o custo para U$50 por mês. Isso quer dizer que esse dinheiro poderia pagar durante um ano o tratamento de 357 pacientes com problemas de colesterol, 163 pacientes com hepatite C ou 200 com AIDS. Me pergunto se os que ainda acreditam na DENEM nunca se sentiram enganados... Parece que saúde não é mais tão importante, o que é bom negócio é financiar militância de suporte ao governo federal.
PS: Esse texto é uma mistura de dois outros e saiu no jornal "O Bisturi".
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