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Date: Friday, 19 Mar 2010 22:55

Não é todo mundo que faz dois aniversários de uma só vez. Eu, sim. Hoje, além do meu aniversário atual, resolvi comemorar igualmente aquele decênio a mais que completei há um ano. Pois que sou muito lenta, só agora caiu a ficha de como a data foi importante para mim. Simbólicamente, ela anunciou a chegada a uma suposta maturidade que não festejei porque mal percebi! Hoje, portanto, não apenas o champagne, o bolo e o presente virão em dobro, como escreverei seis coisas que aprendi em seis decênios e que, não sendo "prescrições" mas apenas experiências pessoais, talvez outras pessoas possam aproveitar:
1) Não minta (ou omita) a idade. É melhor dizer a verdade e parecer mais novo do que mentir e parecer mais velho e... mentiroso. Alguns anos não fazem a menor diferença e, de qualquer maneira, todo mundo sempre sabe (ou calcula) qual é a sua idade.
2) Se não for por problemas estéticos graves, psicológicos ou de saúde (e se você não for ator, apresentador de televisão ou artista especializado em performances cirúrgicas) não faça nenhuma intervenção ou aplicação artificial de elementos estranhos ao seu corpo. Você conhece sensação mais desagradável do que não reconhecer um amigo? E coisa menos estética e mais repugnante do que um rosto ou um corpo refeitos quando se percebe (e sempre se percebe) que foram alterados? Um rosto com rugas e mesmo um corpo com defeitos podem ser belos, mas um rosto ou um corpo refeito não tem beleza, jamais.
3) Aprenda a se amar: aceite a sua idade, o seu rosto e o seu corpo como eles são e você terá uma das maiores provas de seu amor por sí mesmo. Mesmo que a idéia lhe incomode e você não goste de freqüentar os clubes que lhe aceitem como sócio, o esforço vale a pena. Com ou sem papo, rugas ou barriga, existem pessoas mais amáveis e atraentes do que aquelas que se amam?
4) Seja o mais autônomo possível. Enquanto e quando não precisar, dependa o mínimo que puder de outros. Lembre-se de que uma pessoa assistida é uma pessoa diminuída. Quantos tenho visto infelizes apenas porque são preguiçosos ou não sabem fazer nada sem a ajuda de alguém. Secretária, assistente, ghost writer, professor de computador, personal trainer, coach, governanta, babá, empregada, motorista, psicólogo, manicura, psicanalista, guru, cabeleireiro, cozinheira, vidente, passadeira, engraxate, barbeiro, costureira, etc. – tudo isso pode ser uma grande armadilha. A facilidade paga-se caro. Se não forem absolutamente necessárias, estas "ajudas" podem enfraquecê-lo a ponto de deixá-lo dependente como de uma droga. Experimente ir tirando, uma a uma, todas as muletas e você vai descobrir, com satisfação, quanta coisa é capaz de realizar sozinho! O que, além de ser uma grande economia, fará você se sentir mais forte, valorizado, feliz e orgulhoso. Penso especialmente em Marguerite Yourcenar que simplificou tanto o final da vida dela a ponto de "esperar como uma recompensa" o deleite proporcionado pelo pão feito com as suas próprias mãos.
5) A maior vantagem da autonomia é a descoberta do "fluir" ("flow", segundo Mihaly Csikszentmihalyi) que traz a felicidade. O "fluir" é o exato oposto da preguiça, uma espécie de aumento para a vida, algo difícil de explicar pois trata-se de uma delícia e, como todas as delícias, é preciso prová-la para saber o que é. Porém, é um prazer inteiro muito fácil de encontrar. Não é ficar como uma lagartixa ao sol num iate, ou em frente da televisão ou numa festa de copo na mão. Ele acontece quando a gente se dá uma tarefa justa e bastante difícil que requeira todas as nossas capacidades e toda nossa atenção. Desenvolvemos uma paciência, uma competência, existe um progresso e os desafios são cada vez maiores. É como se estivessemos hipnotizados sem pensar em nada de ruim. Esse é o "bom trabalho" que faz a "vida boa", nada a ver com o moralismo da frase "trabalhar enobrece"... Descubra em suas atividades (autônomas) a que mais o transporta ao mundo da felicidade, fazendo você esquecer os problemas e as preocupações do dia a dia. Eu lhe garanto por minha própria experiência que, ao tirar as "muletas" citadas acima, você certamente descobrirá várias ocupações nas quais esse verdadeiro "fluxo" vai prosperar.
6) Ambicione pouco e sonhe muito. Diz-se que a chave da felicidade é não ambicionar o que não se pode ter e amar o que se tem. Concordo com a segunda parte, porém o melhor seria trocar a ambição pelo sonho que, além de não fazer mal a ninguém, pode ter um efeito mágico sobre aquilo que se deseja. Se você "sonhar" em ter um carro como o do seu vizinho, você não sentirá a inveja e a angústia que a "ambição" de ter aquele carro lhe traria. O sonho é positivo, a ambição é negativa. É possível até mesmo que, de tanto sonhar, um dia você venha a ter o tal do carro... e se não tiver, vai poder dizer sem qualquer mágoa: "foi apenas um sonho".
Até amanhã, que agora é hoje e as próximas "experiências da maturidade" aqui no QOC... só quando eu estiver com 70!
1) Não minta (ou omita) a idade. É melhor dizer a verdade e parecer mais novo do que mentir e parecer mais velho e... mentiroso. Alguns anos não fazem a menor diferença e, de qualquer maneira, todo mundo sempre sabe (ou calcula) qual é a sua idade.
2) Se não for por problemas estéticos graves, psicológicos ou de saúde (e se você não for ator, apresentador de televisão ou artista especializado em performances cirúrgicas) não faça nenhuma intervenção ou aplicação artificial de elementos estranhos ao seu corpo. Você conhece sensação mais desagradável do que não reconhecer um amigo? E coisa menos estética e mais repugnante do que um rosto ou um corpo refeitos quando se percebe (e sempre se percebe) que foram alterados? Um rosto com rugas e mesmo um corpo com defeitos podem ser belos, mas um rosto ou um corpo refeito não tem beleza, jamais.
3) Aprenda a se amar: aceite a sua idade, o seu rosto e o seu corpo como eles são e você terá uma das maiores provas de seu amor por sí mesmo. Mesmo que a idéia lhe incomode e você não goste de freqüentar os clubes que lhe aceitem como sócio, o esforço vale a pena. Com ou sem papo, rugas ou barriga, existem pessoas mais amáveis e atraentes do que aquelas que se amam?
4) Seja o mais autônomo possível. Enquanto e quando não precisar, dependa o mínimo que puder de outros. Lembre-se de que uma pessoa assistida é uma pessoa diminuída. Quantos tenho visto infelizes apenas porque são preguiçosos ou não sabem fazer nada sem a ajuda de alguém. Secretária, assistente, ghost writer, professor de computador, personal trainer, coach, governanta, babá, empregada, motorista, psicólogo, manicura, psicanalista, guru, cabeleireiro, cozinheira, vidente, passadeira, engraxate, barbeiro, costureira, etc. – tudo isso pode ser uma grande armadilha. A facilidade paga-se caro. Se não forem absolutamente necessárias, estas "ajudas" podem enfraquecê-lo a ponto de deixá-lo dependente como de uma droga. Experimente ir tirando, uma a uma, todas as muletas e você vai descobrir, com satisfação, quanta coisa é capaz de realizar sozinho! O que, além de ser uma grande economia, fará você se sentir mais forte, valorizado, feliz e orgulhoso. Penso especialmente em Marguerite Yourcenar que simplificou tanto o final da vida dela a ponto de "esperar como uma recompensa" o deleite proporcionado pelo pão feito com as suas próprias mãos.
5) A maior vantagem da autonomia é a descoberta do "fluir" ("flow", segundo Mihaly Csikszentmihalyi) que traz a felicidade. O "fluir" é o exato oposto da preguiça, uma espécie de aumento para a vida, algo difícil de explicar pois trata-se de uma delícia e, como todas as delícias, é preciso prová-la para saber o que é. Porém, é um prazer inteiro muito fácil de encontrar. Não é ficar como uma lagartixa ao sol num iate, ou em frente da televisão ou numa festa de copo na mão. Ele acontece quando a gente se dá uma tarefa justa e bastante difícil que requeira todas as nossas capacidades e toda nossa atenção. Desenvolvemos uma paciência, uma competência, existe um progresso e os desafios são cada vez maiores. É como se estivessemos hipnotizados sem pensar em nada de ruim. Esse é o "bom trabalho" que faz a "vida boa", nada a ver com o moralismo da frase "trabalhar enobrece"... Descubra em suas atividades (autônomas) a que mais o transporta ao mundo da felicidade, fazendo você esquecer os problemas e as preocupações do dia a dia. Eu lhe garanto por minha própria experiência que, ao tirar as "muletas" citadas acima, você certamente descobrirá várias ocupações nas quais esse verdadeiro "fluxo" vai prosperar.
6) Ambicione pouco e sonhe muito. Diz-se que a chave da felicidade é não ambicionar o que não se pode ter e amar o que se tem. Concordo com a segunda parte, porém o melhor seria trocar a ambição pelo sonho que, além de não fazer mal a ninguém, pode ter um efeito mágico sobre aquilo que se deseja. Se você "sonhar" em ter um carro como o do seu vizinho, você não sentirá a inveja e a angústia que a "ambição" de ter aquele carro lhe traria. O sonho é positivo, a ambição é negativa. É possível até mesmo que, de tanto sonhar, um dia você venha a ter o tal do carro... e se não tiver, vai poder dizer sem qualquer mágoa: "foi apenas um sonho".
Até amanhã, que agora é hoje e as próximas "experiências da maturidade" aqui no QOC... só quando eu estiver com 70!
Date: Friday, 23 Oct 2009 16:49

No dia 23 de outubro de 1906, Santos Dumont voou cerca de 60 metros a uma altura de dois a três metros com seu 14 Bis ("Oiseau de proie") no Campo de Bagatelle, em Paris. Na comemoração do centenário, há três anos exatos, conquistei o 1° lugar no concurso de Frase, Hai Kai ou Poesia sobre o tema: Santos Dumont, Centenário do 14 bis, Pai da Aviação, Inventor do Avião. Ganhei um lindo Relógio Dumont (chegado diretamente de Juiz de Fora, MG), "prêmio Banana-Ouro" do saudoso blog Banana&Etc, pilotado pela querida garimpeira Helô. Continuo a usar o meu relógio com orgulho em todas as ocasiões.
Até amanhã, que agora é hoje e... não se fazem mais concursos como antigamente!
Meu pequeno poema vencedor:
O avião de Santos risca o céu
Todos apontam o delicado sagre
Alguns dizem que é troféu
Eu digo que é milagre.
O avião de Santos risca o céu
Todos apontam o delicado sagre
Alguns dizem que é troféu
Eu digo que é milagre.
Até amanhã, que agora é hoje e... não se fazem mais concursos como antigamente!
Date: Sunday, 18 Oct 2009 16:54

Estandarte: Hélio Oiticica, 1968
Pode-se chamar a destruição de um acervo artístico de perda material? Pode haver seguro ou substituição para a morte do elemento vivo da criação?
São dois os níveis de compreensão para este desaparecimento. Um, o econômico e cultural. Outro, o filosófico.
Falar, portanto, sobre o prejuízo que significa o aniquilamento de centenas de obras, para um país que ainda se encontra em tão precária situação cultural, seria o óbvio. Dizer que o ocorrido corresponde ao dano de uma sala histórica destruída em Versalhes, talvez fosse até impróprio. Afirmar que não existem recursos para a substituição ou restituição de um patrimônio artístico desta monta é cair na banalidade de uma evidência.
Do ponto de vista ético, no entanto, importa agora só a compreensão filosófica deste acontecimento lastimoso. É o momento em que fatalmente se questiona a fragilidade, não do homem, mas das suas manifestações. Mesmo as que carregam a aura da imperecibilidade, o sentido de sua representação espiritual maior. As que continuam a gerar reverência tanto entre o público comum quanto entre a vanguarda que justamente contesta estas qualidades. Da mesma forma como há a serena aceitação da transitoriedade da vida humana, é extremamente difícil duvidar da perenidade da obra de arte como objeto e como idéia representada. No seu sentido tradicional ou contemporâneo, ela ainda parece representar a perpetuação do homem. Queira o artista ou não, existe a noção de que a obra o ultrapassa no tempo e no espaço.(...)
A conhecida escultura do suíço Jean Tinguely, que se autodestruiu em alguns minutos, talvez tenha sido a primeira de todas as manifestações desmaterializadas da arte. Pois, além de colocar em questão as características convencionais da arte tradicional, apresenta a obra verdadeiramente indestrutível, porque na própria destruição está a idéia da sua perenidade.
Não obstante, como explicar o sentimento de dor que nos invade ao saber da destruição real dos valores por nós tão contestados? As idéias acabam por permanecer soterradas sob o metafísico e irreparável sentimento de perda, que não é mais do que um profundo e irracional sentimento de amor. O mesmo que gera o próprio ato da criação.
Trechos do artigo escrito na manhã de domingo, dia 9 de julho de 1978, na própria redação do jornal O Estado de S. Paulo, enquanto que lágrimas rolavam pelo meu rosto. Eu estava sob o choque da notícia do incêndio no Museu de Arte Moderna (MAM) do Rio de Janeiro, desastre sem precedentes na história das grandes coleções de artes plásticas onde desapareceram duas telas de Picasso, duas de Miró e centenas de obras de artistas brasileiros colecionadas ao longo de 20 anos. De mil obras, restaram 50, e dos dois andares atingidos, cinzas. O sinistro do MAM atingiu dimensões jamais registradas. Além do acervo do museu, queimou-se toda a mostra Arte Agora II onde estavam expostos 205 quadros de pintores latino-americanos, entre eles toda a fase construtivista do uruguaio Joaquín Torres-Garcia, um período de quase duas décadas de criação.
São dois os níveis de compreensão para este desaparecimento. Um, o econômico e cultural. Outro, o filosófico.
Falar, portanto, sobre o prejuízo que significa o aniquilamento de centenas de obras, para um país que ainda se encontra em tão precária situação cultural, seria o óbvio. Dizer que o ocorrido corresponde ao dano de uma sala histórica destruída em Versalhes, talvez fosse até impróprio. Afirmar que não existem recursos para a substituição ou restituição de um patrimônio artístico desta monta é cair na banalidade de uma evidência.
Do ponto de vista ético, no entanto, importa agora só a compreensão filosófica deste acontecimento lastimoso. É o momento em que fatalmente se questiona a fragilidade, não do homem, mas das suas manifestações. Mesmo as que carregam a aura da imperecibilidade, o sentido de sua representação espiritual maior. As que continuam a gerar reverência tanto entre o público comum quanto entre a vanguarda que justamente contesta estas qualidades. Da mesma forma como há a serena aceitação da transitoriedade da vida humana, é extremamente difícil duvidar da perenidade da obra de arte como objeto e como idéia representada. No seu sentido tradicional ou contemporâneo, ela ainda parece representar a perpetuação do homem. Queira o artista ou não, existe a noção de que a obra o ultrapassa no tempo e no espaço.(...)
A conhecida escultura do suíço Jean Tinguely, que se autodestruiu em alguns minutos, talvez tenha sido a primeira de todas as manifestações desmaterializadas da arte. Pois, além de colocar em questão as características convencionais da arte tradicional, apresenta a obra verdadeiramente indestrutível, porque na própria destruição está a idéia da sua perenidade.
Não obstante, como explicar o sentimento de dor que nos invade ao saber da destruição real dos valores por nós tão contestados? As idéias acabam por permanecer soterradas sob o metafísico e irreparável sentimento de perda, que não é mais do que um profundo e irracional sentimento de amor. O mesmo que gera o próprio ato da criação.
Trechos do artigo escrito na manhã de domingo, dia 9 de julho de 1978, na própria redação do jornal O Estado de S. Paulo, enquanto que lágrimas rolavam pelo meu rosto. Eu estava sob o choque da notícia do incêndio no Museu de Arte Moderna (MAM) do Rio de Janeiro, desastre sem precedentes na história das grandes coleções de artes plásticas onde desapareceram duas telas de Picasso, duas de Miró e centenas de obras de artistas brasileiros colecionadas ao longo de 20 anos. De mil obras, restaram 50, e dos dois andares atingidos, cinzas. O sinistro do MAM atingiu dimensões jamais registradas. Além do acervo do museu, queimou-se toda a mostra Arte Agora II onde estavam expostos 205 quadros de pintores latino-americanos, entre eles toda a fase construtivista do uruguaio Joaquín Torres-Garcia, um período de quase duas décadas de criação.
Date: Monday, 20 Jul 2009 10:26

Buzz Aldrin pisando na Lua (Nasa)
Paris. Quando Gica, minha mãe, decidiu ir embora de vez após uma longa estadia de amor infeliz, acabei por ficar. Apenas alguns meses depois da minha chegada, ela devolveu a bela casa alugada ao proprietário e me colocou num pequeno hotel alí mesmo, perto da Cidade Universitária. Deste modo, segundo ela, “eu teria algum tempo para achar um quarto de estudante ou um estúdio para alugar”. Deixou-me umas louças, panelas, o carrinho que na época as pessoas chamavam de “pote de iogurte” e se foi.
Era o segundo trimestre de 1969. Lembro-me até hoje quando eu, com a minha recém-tirada carta brasileira de habilitação, voltava do aeroporto de Orly aonde a tinha levado assim como todas as malas dela. Quase não conseguia enxergar o caminho de tanto que as lágrimas corriam pelo meu rosto. Estava sozinha no mundo pela primeira vez. Lembro também que passei na loja Nicolas e comprei uma enorme garrafa de plástico de vinho ordinário, antes de ir para o meu quarto de hotel. Foi o primeiro e último verdadeiro porre que tomei em minha vida. Acho que nunca me senti tão mal! Hoje, os jovens não querem mais sair da casa dos pais. Para Terence, meu irmão, que veio em seguida estudar em Londres e para mim, isso era uma questão de “honra”. Por isso ficamos independentes tão cedo. Depois do choque inicial do contato com a independência e a solidão, vieram as inevitáveis descobertas e desapontamentos nas relações humanas. Mas tudo correu bem...
Ainda tentava me adaptar à nova situação, quando soube que a minha mãe esquecera de pagar a conta do telefone. O pouco dinheiro que eu recebia e depois também ganhava arrumando o consultório de um médico, não dava para cobrir os telefonemas todos que ela tinha feito ao Brasil. E o proprietário não era qualquer um. Tratava-se do irmão de Bóris Vian, o poeta. Por sorte, Gica, verdadeira "brazilian princess", encontrou uma maneira de me mandar a soma e lá fui eu com o envelope à casa de M. Vian que, pelo visto, também devia ser escritor.
Era 20 de julho, à tarde. Mal imaginava eu em que dia estávamos! Toquei a campainha e M. Vian respondeu mau-humorado: “Agora não posso, volte mais tarde”. Ao ver a minha decepção deve ter ficado penalizado pois mudou de idéia: “Bem, pode entrar. Mas aguarde um pouco, pois estamos muito ocupados”. Do hall eu via a televisão ligada e o sofá onde ele e a mulher sentavam-se. Penso que se sentiram constrangidos em me deixar ali plantada pois logo foram me convidando para sentar também. As imagens eram impressionantes e me deixaram muito emocionada. Foi assim, num gasto sofá de veludo vermelho, entre Monsieur e Madame Vian, com o envelope do pagamento da conta do telefone no colo, que eu vi - "maravilha da vida"! - Neil Armstrong, Michael Collins e Buzz Aldrin pisarem na Lua pela primeira vez.
Mas foi também naquele exato instante, do outro lado do oceano, que Gica, Felícia minha avó, e a querida Madalena, nossa caseira há 40 anos, arregalaram os olhos diante da televisão na biblioteca aquecida da Casa do Telhado Verde, em Campos do Jordão. Pela janela avistava-se o jardim ainda coberto pela geada matinal. Faltava pouco mais de uma semana para que as férias de inverno na montanha terminassem. Madalena fez menção de sair, dizendo que aquilo era invenção.
- Venha aqui, Madalena! chamou a minha mãe. É verdade, sim. Olha aqui eles pisando na Lua! Estão até espetando a bandeira dos Estados Unidos! Está vendo?
- Claro que estou vendo! Vejo, mas não acredito.
Até amanhã, que agora é hoje!
Era o segundo trimestre de 1969. Lembro-me até hoje quando eu, com a minha recém-tirada carta brasileira de habilitação, voltava do aeroporto de Orly aonde a tinha levado assim como todas as malas dela. Quase não conseguia enxergar o caminho de tanto que as lágrimas corriam pelo meu rosto. Estava sozinha no mundo pela primeira vez. Lembro também que passei na loja Nicolas e comprei uma enorme garrafa de plástico de vinho ordinário, antes de ir para o meu quarto de hotel. Foi o primeiro e último verdadeiro porre que tomei em minha vida. Acho que nunca me senti tão mal! Hoje, os jovens não querem mais sair da casa dos pais. Para Terence, meu irmão, que veio em seguida estudar em Londres e para mim, isso era uma questão de “honra”. Por isso ficamos independentes tão cedo. Depois do choque inicial do contato com a independência e a solidão, vieram as inevitáveis descobertas e desapontamentos nas relações humanas. Mas tudo correu bem...
***
Ainda tentava me adaptar à nova situação, quando soube que a minha mãe esquecera de pagar a conta do telefone. O pouco dinheiro que eu recebia e depois também ganhava arrumando o consultório de um médico, não dava para cobrir os telefonemas todos que ela tinha feito ao Brasil. E o proprietário não era qualquer um. Tratava-se do irmão de Bóris Vian, o poeta. Por sorte, Gica, verdadeira "brazilian princess", encontrou uma maneira de me mandar a soma e lá fui eu com o envelope à casa de M. Vian que, pelo visto, também devia ser escritor.
Era 20 de julho, à tarde. Mal imaginava eu em que dia estávamos! Toquei a campainha e M. Vian respondeu mau-humorado: “Agora não posso, volte mais tarde”. Ao ver a minha decepção deve ter ficado penalizado pois mudou de idéia: “Bem, pode entrar. Mas aguarde um pouco, pois estamos muito ocupados”. Do hall eu via a televisão ligada e o sofá onde ele e a mulher sentavam-se. Penso que se sentiram constrangidos em me deixar ali plantada pois logo foram me convidando para sentar também. As imagens eram impressionantes e me deixaram muito emocionada. Foi assim, num gasto sofá de veludo vermelho, entre Monsieur e Madame Vian, com o envelope do pagamento da conta do telefone no colo, que eu vi - "maravilha da vida"! - Neil Armstrong, Michael Collins e Buzz Aldrin pisarem na Lua pela primeira vez.
Mas foi também naquele exato instante, do outro lado do oceano, que Gica, Felícia minha avó, e a querida Madalena, nossa caseira há 40 anos, arregalaram os olhos diante da televisão na biblioteca aquecida da Casa do Telhado Verde, em Campos do Jordão. Pela janela avistava-se o jardim ainda coberto pela geada matinal. Faltava pouco mais de uma semana para que as férias de inverno na montanha terminassem. Madalena fez menção de sair, dizendo que aquilo era invenção.
- Venha aqui, Madalena! chamou a minha mãe. É verdade, sim. Olha aqui eles pisando na Lua! Estão até espetando a bandeira dos Estados Unidos! Está vendo?
- Claro que estou vendo! Vejo, mas não acredito.
***
Até amanhã, que agora é hoje!
Date: Thursday, 09 Jul 2009 19:17

Foto © Wilfrid Hoffacker - Exposição de Sophie Calle no Beaubourg, em Paris
Sempre adorei Sophie Calle e, embora eu seja crítica de arte (que nome feio!), nunca fiz grande esforço para saber porque. Mesmo quando conheci a sua obra pela primeira vez, mesmo quando troquei idéias com Baudrillard a seu respeito e quando visitei a impressionante retrospectiva no Beaubourg há quatro anos, nunca quis sair dessa empatia acrítica… Eu teria podido analisar sériamente as razões pelas quais ela tornou-se uma artista tão especial porém só me deixava sentir que tínhamos coisas em comum. Porque? Os Desastres de Sofia da minha infância embalada pelos livros da Condessa de Ségur nada têm a ver com os desastres sociológicos dessa Sofia que é a minha preferida artista francesa. E daí se o pai dela, assim como o meu avô, era colecionador? Mesmo a nossa vida militante em Paris nos anos 60, o maoísmo, as idênticas e inconfessáveis posições políticas… tudo isso não passou de coisa comum à juventude daquela época quando ela estava com 16 anos e eu com 21! Afinal, como ela mesma diz, as pessoas divertidas, aquelas que saiam e tinham alguma vivacidade eram todas militantes! Na verdade, talvez eu nem precise saber porque gosto tanto do trabalho dela…

Hoje, aqui em Veneza, as pessoas que vieram para a "Biennale" perambulam claudicantes pelas ruelas, um pouco sufocadas pelo calor e certamente cansadas de tanto visitar os "Giardini" da grande exposição. Mas, onde estará Sophie? Justo ela que representa a França tendo como curador o artista Daniel Buren (presente na nossa Bienal de 85). Buren foi o feliz escolhido entre as duas centenas de pessoas que responderam ao seu anúncio "procura-se um curador". Muito bom isso… pena que não vi o anúncio…
Estará ela naquela festa do "palazzo" para a qual fomos todos convidados? Buren certamente. Ela, não acredito. Depois de mostrar duas obras pungentes, numa das quais filma a morte da sua mãe, seria estranho vê-la em coquetel de copo na mão recebendo cumprimentos… A minha tendência seria de imaginá-la num vaporetto, ou melhor, numa gôndola, em vias de se fixar não sobre o gondoleiro mas sobre a opinião dele acerca das obras de arte que este carregou em seu barco nos últimos anos de Bienal de Veneza. Assim como ela fez com os cegos quando pediu para que definissem a beleza ou com os guardas de museus pedindo para que estes descrevessem as obras ausentes, roubadas ou emprestadas. Não me admiraria se ela, ao invés de cumprir obrigações sociais e oficiais em meio à intelligentzia francesa, estivesse provocando alguma ocorrência embaraçosa que pudesse racionalizar e à qual pudesse em seguida dar uma dimensão artística, plasticizar. Será verdadeiro aquele mail pessoal de ruptura amorosa que ela recebeu há dois anos e que pediu para 107 mulheres de profissões diferentes interpretarem? Deve ser, pois quando ela teve a idéia de fazer esta obra chamada Tome conta de você (a última frase da mensagem) para a Bienal de Veneza, teve até medo que o namorado mudasse de idéia e estragasse o trabalho… Sophie Calle, onde está você? Eu sei que não foi só vingança, você nunca leva adiante um trabalho que não tenha um potencial de arte. Eu sei que se o projeto não vai mais longe do que o interesse terapêutico dele você o descarta…
Da minha janela vejo o pequeno canal em cujo final fica aquela ponte na qual vislumbrei a morte. Uma morte diferente das outras pois ela só ocorre dentro de pessoas que estão vivas: um amor que acabou. Voilà! É por isso que me identifico com a Sophie! Porque eu também sempre quero transformar o sofrimento em experiência para poder conhecê-lo, dominá-lo e enfrentá-lo melhor. É a nossa maneira, dela e minha, de lidar com a dor: chegar à absoluta certeza de que nada foi em vão. Pena que eu não seja neurótica a ponto de ter seguido um caminho de artista, pois que sensação fantástica deve ser essa de poder transformar experiências em objetos de arte partilhando-os com os outros!
Até amanhã que agora é hoje e acho que vou convidar a Sophie Calle para ir à Calle Vallaresso tomar um Bellini* no Harry’s Bar! Quem sabe a gente encontra os fantasmas de Proust, Byron ou Hemingway por lá?
*Bellini: coquetel de champagne com pêssego.
Estará ela naquela festa do "palazzo" para a qual fomos todos convidados? Buren certamente. Ela, não acredito. Depois de mostrar duas obras pungentes, numa das quais filma a morte da sua mãe, seria estranho vê-la em coquetel de copo na mão recebendo cumprimentos… A minha tendência seria de imaginá-la num vaporetto, ou melhor, numa gôndola, em vias de se fixar não sobre o gondoleiro mas sobre a opinião dele acerca das obras de arte que este carregou em seu barco nos últimos anos de Bienal de Veneza. Assim como ela fez com os cegos quando pediu para que definissem a beleza ou com os guardas de museus pedindo para que estes descrevessem as obras ausentes, roubadas ou emprestadas. Não me admiraria se ela, ao invés de cumprir obrigações sociais e oficiais em meio à intelligentzia francesa, estivesse provocando alguma ocorrência embaraçosa que pudesse racionalizar e à qual pudesse em seguida dar uma dimensão artística, plasticizar. Será verdadeiro aquele mail pessoal de ruptura amorosa que ela recebeu há dois anos e que pediu para 107 mulheres de profissões diferentes interpretarem? Deve ser, pois quando ela teve a idéia de fazer esta obra chamada Tome conta de você (a última frase da mensagem) para a Bienal de Veneza, teve até medo que o namorado mudasse de idéia e estragasse o trabalho… Sophie Calle, onde está você? Eu sei que não foi só vingança, você nunca leva adiante um trabalho que não tenha um potencial de arte. Eu sei que se o projeto não vai mais longe do que o interesse terapêutico dele você o descarta…
Da minha janela vejo o pequeno canal em cujo final fica aquela ponte na qual vislumbrei a morte. Uma morte diferente das outras pois ela só ocorre dentro de pessoas que estão vivas: um amor que acabou. Voilà! É por isso que me identifico com a Sophie! Porque eu também sempre quero transformar o sofrimento em experiência para poder conhecê-lo, dominá-lo e enfrentá-lo melhor. É a nossa maneira, dela e minha, de lidar com a dor: chegar à absoluta certeza de que nada foi em vão. Pena que eu não seja neurótica a ponto de ter seguido um caminho de artista, pois que sensação fantástica deve ser essa de poder transformar experiências em objetos de arte partilhando-os com os outros!
Até amanhã que agora é hoje e acho que vou convidar a Sophie Calle para ir à Calle Vallaresso tomar um Bellini* no Harry’s Bar! Quem sabe a gente encontra os fantasmas de Proust, Byron ou Hemingway por lá?
*Bellini: coquetel de champagne com pêssego.
Date: Thursday, 25 Dec 2008 13:00

"Le Corbeau des mers"
"Quanto mais os anos passam, mais sêniors haverão, pois a cada 50 segundos uma pessoa no mundo atinge 50 anos".
Jacques Seguela, no Senior Trend Magazine.
Até 2050, segundo os estudos disponíveis neste site o número de sêniors no mundo ultrapassará o das crianças, passando de 629 milhões a 2 bilhões.
Uma coisa é certa: hoje, pelo menos na França, a percepção que os homens têm das mulheres de 50 anos ou mais evoluiu. O que permite a marcas importantes, por exemplo, escolher sêniors atraentes como modelo. Se acreditarmos na nova revista Senior Tendance Magazine criada em julho, as "baby boomers" estão de vento em popa. Esta vaga de "novas idosas", que forma agora o "mamy boom" (vovó boom), dita a moda e se mostra nas páginas coloridas com novas carreiras, novos projetos de vida e... com companheiros de 10 a 20 anos mais jovens!
Quando elas são bonitas, elegantes e seguras de si a sua "entre-duas-idades" faz sonhar os franceses de 7 a 77 anos. Segundo a sondagem recente realizada pelo observatório Ipsos-Linéance, 69% dos homens confessam achar as mulheres de mais de 50 "fisicamente atraentes". Mas este sentimento atravessa gerações: concerne logicamente quase todos homens acima de 50 anos (91%), a maioria dos que estão entre 35 e 49 anos (80%) e também os de 25 a 43 anos (50%).
Conclusão de Natal e Ano Novo: até amanhã que agora é hoje e as vovós continuam fazendo sombra aos netinhos...
Attached Media:
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video/mp4 ( 0 ko)Date: Monday, 29 Sep 2008 17:39

Até hoje não sei se as mães lembram dos aniversários dos filhos realmente porque eles fazem anos ou se é porque as datas coincidem sempre com os aniversários dos próprios partos que deram à luz os filhos delas. Coisa que é, diga-se de passagem, igualmente comemorável. Ontem foi o meu aniversário. Não vou contar a minha idade. Para bons entendedores apenas publico a foto* de um carro idêntico ao meu no começo dos anos 70. Ali, no banco traseiro (ou dianteiro, não lembro bem), ficava o "assento de proteção de bebê" do meu filho Paulo...
Mas aproveito também a ocasião especial para apresentar Kika aos meus leitores. Ela é a personagem principal das histórias em quadrinhos que estou criando com um maravilhoso desenhista brasileiro que mora na França.
Aqui está o diálogo muito pertinente (foi inventado ontem mesmo) entre Kika e a amiga Prunela:
Se você quiser conhecer a Kika, clique aqui. A senha para entrar no site é "sigmund" (com "s" minúsculo). Se não quiser brincar de senha clique DIRETO AQUI. Até amanhã que agora é hoje e eu tenho que encontrar urgente um jornal ou uma revista que queira nos publicar!Mas aproveito também a ocasião especial para apresentar Kika aos meus leitores. Ela é a personagem principal das histórias em quadrinhos que estou criando com um maravilhoso desenhista brasileiro que mora na França.
Aqui está o diálogo muito pertinente (foi inventado ontem mesmo) entre Kika e a amiga Prunela:
Kika - Meus 60 anos vão ser um grande marco na minha vida.
Prunela - Porquê?
Kika - Porque a partir dos 60 vou ficar com 59 para a eternidade!
*Meu Karman-Ghia da cor do cavalo branco de Napoleão: foto roubada da página de Luis Nassif
Date: Wednesday, 23 Jul 2008 20:07

No último fim de semana, depois de vários meses de reformas, foi a reabertura do Museu Picasso em Antibes no sul da França. Não é porque defendo o conservador do museu que foi meu marido anterior, mas Pablo Picasso deve ter saltado de alegria em sua tumba ao saber como ficou linda a renovação do Castelo Grimaldi onde viveu.
Ainda bem. Foi uma boa compensação depois de o gênio ter se revirado no túmulo ao descobrir 3D Exploration of Picasso's Guernica da fotógrafa alemã Lena Gieseke que mora em Nova York e foi mulher do Tim Burton.
Tanto quanto Picasso, também "gosto do que evolui". Porém, ver a Guernica - que descobri ainda criança e com emoção na Bienal de São Paulo nos anos 50 - transformada em clipe tridimensional é triste! Pior do que ouvir os "remix" musicais onde os DJ's desrespeitam compositores e intérpretes. O que resta do sentido trágico, paradoxalmente aprofundado pelo achatamento das formas e pelas cores sombrias da obra do gênio ? Onde estão a incisão e a virtualidade violenta do traço e dos volumes que transformam o manifesto em grito surdo? Ao dar volumes reais aos volumes virtuais de Picasso, a moça esvazia totalmente a linguagem do mestre!
No site da fotógrafa ela diz que a sua intenção foi criar uma contemplação profunda e provocadora da obra de Picasso. Como se o quadro precisasse disto!
Até amanhã que agora é hoje e xô virtuoses espertalhões que "kitschizam"* obras-primas transformando-as em assombrosos e gratuitos exercícios técnicos!
**************************************************************************
kitschizar – verbo que inventei a partir da palavra kitsch que, segundo o Aurélio, diz-se de material artístico, literário, etc., considerado como de má qualidade, em geral de cunho sentimentalista, sensacionalista, imediatista, e produzido com o especial propósito de apelar para o gosto popular: "O kitsch é a estética do digestivo, do 'culinário', do agradável-que-não-reclama-raciocínio." (José Guilherme Merquior, Formalismo e Tradição Moderna, pp. 13-14).
Ainda bem. Foi uma boa compensação depois de o gênio ter se revirado no túmulo ao descobrir 3D Exploration of Picasso's Guernica da fotógrafa alemã Lena Gieseke que mora em Nova York e foi mulher do Tim Burton.
Tanto quanto Picasso, também "gosto do que evolui". Porém, ver a Guernica - que descobri ainda criança e com emoção na Bienal de São Paulo nos anos 50 - transformada em clipe tridimensional é triste! Pior do que ouvir os "remix" musicais onde os DJ's desrespeitam compositores e intérpretes. O que resta do sentido trágico, paradoxalmente aprofundado pelo achatamento das formas e pelas cores sombrias da obra do gênio ? Onde estão a incisão e a virtualidade violenta do traço e dos volumes que transformam o manifesto em grito surdo? Ao dar volumes reais aos volumes virtuais de Picasso, a moça esvazia totalmente a linguagem do mestre!
No site da fotógrafa ela diz que a sua intenção foi criar uma contemplação profunda e provocadora da obra de Picasso. Como se o quadro precisasse disto!
Até amanhã que agora é hoje e xô virtuoses espertalhões que "kitschizam"* obras-primas transformando-as em assombrosos e gratuitos exercícios técnicos!
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kitschizar – verbo que inventei a partir da palavra kitsch que, segundo o Aurélio, diz-se de material artístico, literário, etc., considerado como de má qualidade, em geral de cunho sentimentalista, sensacionalista, imediatista, e produzido com o especial propósito de apelar para o gosto popular: "O kitsch é a estética do digestivo, do 'culinário', do agradável-que-não-reclama-raciocínio." (José Guilherme Merquior, Formalismo e Tradição Moderna, pp. 13-14).
Date: Thursday, 12 Jun 2008 21:36

Nasceu!
928 páginas, 1344 gramas e 5 anos de gestação, junto com um parceiro excepcional e colaboradores do primeiro time! Até amanhã, que agora é hoje e vou comemorar, uf!
928 páginas, 1344 gramas e 5 anos de gestação, junto com um parceiro excepcional e colaboradores do primeiro time! Até amanhã, que agora é hoje e vou comemorar, uf!
Date: Sunday, 18 May 2008 10:51
"A terra é insultada e oferece as flores como resposta".
Date: Wednesday, 20 Feb 2008 12:38
"Sobre as asas do tempo, a tristeza vai-se embora".
Date: Friday, 21 Dec 2007 20:54

"Eu fiz uma descoberta estranha. Toda vez que converso com um sábio tenho a certeza de que a felicidade não é possível. Já quando converso com o meu jardineiro, fico convencido do contrário".
Ao leitor querido, paciente e compreensivo, que aturou as minhas ausências e mancadas em 2007 e que me apoiou (mesmo sem saber) durante os longos meses nos quais enfrentei graves problemas com a saúde de meu filho, um Feliz Natal. Até amanhã, que agora é hoje e para todos nós um maravilhoso 2008 à maneira dos jardineiros! Xô sábios!

Bertrand Russell, filósofo, matemático e escritor (1872 – 1970)
Ao leitor querido, paciente e compreensivo, que aturou as minhas ausências e mancadas em 2007 e que me apoiou (mesmo sem saber) durante os longos meses nos quais enfrentei graves problemas com a saúde de meu filho, um Feliz Natal. Até amanhã, que agora é hoje e para todos nós um maravilhoso 2008 à maneira dos jardineiros! Xô sábios!

Date: Monday, 22 Oct 2007 13:44
Até amanhã que agora é hoje e obrigada a todos que participaram ontem (sem saber) passando diante da minha pequena Nikon Coolpix L1!
Date: Tuesday, 16 Oct 2007 21:17
Hoje no final da manhã tocou a campainha. "Não estou esperando ninguém", pensei. O missivista certamente percebeu o meu mau humor pois quase pediu desculpas ao entregar o pacote. Sorte que o nome Bertrand Brasil aparecia bem em cima. Me provocou um tal sorriso que o rapaz foi embora aliviado e contente! Merci! Merci!
Maldita tesoura que nunca está onde a deixo!!! Como é que vou cortar o barbante para extrair aquele livro cuja capa me deixou perplexa? Cadê a banana? Cadê os segredos que até agora também são segredos para mim?
Xô embalagem finalmente! Ai que objeto gostoso de pegar na mão! Que coisa mais primorosa e acetinada. Que banana mais linda e brilhosa de purpurina sobre um vermelho rubi cheio de figurinhas! E eu que detestei a capa quando vi a foto! Ao vivo é puro Pop e também faz lembrar da Helô. Foi criada pelo talentoso Sérgio Campante mas poderia ter sido de Lichtenstein.
E o recheio, então? Na página 69 (?!) tem até um conselho da Ivana Arruda Leite que nunca imaginei tão revolucionária. O título é "Como transar com o marido da sua melhor amiga sem pôr em risco a amizade entre vocês". Bom saber... depois dessa, jamais vou apresentar o meu marido para ela! Felizmente não consegui devorar tudo. Quero continuar rolando de rir com essa saborosa literatura de "baixo-ajuda" que num dos contos, por exemplo, começa assim: "A primeira coisa que você deve saber sobre cupins é que eles não morrem. Dito isso, vamos aprender como mantê-los sob controle". Delícia de texto! Mas, como diz Machado de Assis no magnífico prefácio psicografado pela Desdêmona que organizou o livro, "os bons conselhos são como roseiras: pegam". Segundo ele, os 35 autores "dizem coisas sem parecer dizê-las, o que é arte para poucos"...
Eu não vou estar, mas se você estiver em São Paulo e quiser me representar no lançamento do 35 segredos para chegar a lugar nenhum – literatura de baixo-ajuda no Barco Virgílio dia 19 às 19h30 ficarei feliz! E se puder me contar como foi, ficarei mais feliz ainda! E se porventura tiver tempo de ler, se esbaldar e me dizer o que achou do livro ficarei triplamente feliz! Quatro vezes feliz já é demais, então paro por aqui.
Até amanhã, que agora é hoje e obrigada Ivana querida!
*********************************************************
35 SEGREDOS PARA CHEGAR A LUGAR NENHUM
Editora: Bertrand Brasil
Ano:2007
Edição:1
Número de páginas: 168
Acabamento: Brochura
Formato: 14cm x 21cm
Organizador: Ivana Arruda Leite
Autores: Adrienne Myrtes, Alexandre Barbosa de Souza, Ana Elisa Ribeiro, Ana Paula Maia, André Laurentino, André Sant’Anna, Andréa del Fuego, Antonia Pellegrino, Antonio Prata, Beatriz Bracher, Cíntia Moscovich, Claudio Daniel, Fernando Bonassi, Índigo, Ivana Arruda Leite, João Filho, Jorge Pieiro, José Luiz Martins, José Roberto Torero, Livia Garcia-Rosa, Lúcia Carvalho, Luiz Paulo Faccioli, Marcelino Freire, Marcelo Carneiro da Cunha, Marcelo Moutinho, Maria José Silveira, Mário Bortolotto, Nelson de Oliveira, Reinaldo Moraes, Rodrigo Lacerda, Rogério Augusto, Santiago Nazarian, Sérgio Fantini, Sheila Leirner e Xico Sá
Maldita tesoura que nunca está onde a deixo!!! Como é que vou cortar o barbante para extrair aquele livro cuja capa me deixou perplexa? Cadê a banana? Cadê os segredos que até agora também são segredos para mim?
Xô embalagem finalmente! Ai que objeto gostoso de pegar na mão! Que coisa mais primorosa e acetinada. Que banana mais linda e brilhosa de purpurina sobre um vermelho rubi cheio de figurinhas! E eu que detestei a capa quando vi a foto! Ao vivo é puro Pop e também faz lembrar da Helô. Foi criada pelo talentoso Sérgio Campante mas poderia ter sido de Lichtenstein.
E o recheio, então? Na página 69 (?!) tem até um conselho da Ivana Arruda Leite que nunca imaginei tão revolucionária. O título é "Como transar com o marido da sua melhor amiga sem pôr em risco a amizade entre vocês". Bom saber... depois dessa, jamais vou apresentar o meu marido para ela! Felizmente não consegui devorar tudo. Quero continuar rolando de rir com essa saborosa literatura de "baixo-ajuda" que num dos contos, por exemplo, começa assim: "A primeira coisa que você deve saber sobre cupins é que eles não morrem. Dito isso, vamos aprender como mantê-los sob controle". Delícia de texto! Mas, como diz Machado de Assis no magnífico prefácio psicografado pela Desdêmona que organizou o livro, "os bons conselhos são como roseiras: pegam". Segundo ele, os 35 autores "dizem coisas sem parecer dizê-las, o que é arte para poucos"...
Eu não vou estar, mas se você estiver em São Paulo e quiser me representar no lançamento do 35 segredos para chegar a lugar nenhum – literatura de baixo-ajuda no Barco Virgílio dia 19 às 19h30 ficarei feliz! E se puder me contar como foi, ficarei mais feliz ainda! E se porventura tiver tempo de ler, se esbaldar e me dizer o que achou do livro ficarei triplamente feliz! Quatro vezes feliz já é demais, então paro por aqui.
Até amanhã, que agora é hoje e obrigada Ivana querida!
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35 SEGREDOS PARA CHEGAR A LUGAR NENHUM
Editora: Bertrand Brasil
Ano:2007
Edição:1
Número de páginas: 168
Acabamento: Brochura
Formato: 14cm x 21cm
Organizador: Ivana Arruda Leite
Autores: Adrienne Myrtes, Alexandre Barbosa de Souza, Ana Elisa Ribeiro, Ana Paula Maia, André Laurentino, André Sant’Anna, Andréa del Fuego, Antonia Pellegrino, Antonio Prata, Beatriz Bracher, Cíntia Moscovich, Claudio Daniel, Fernando Bonassi, Índigo, Ivana Arruda Leite, João Filho, Jorge Pieiro, José Luiz Martins, José Roberto Torero, Livia Garcia-Rosa, Lúcia Carvalho, Luiz Paulo Faccioli, Marcelino Freire, Marcelo Carneiro da Cunha, Marcelo Moutinho, Maria José Silveira, Mário Bortolotto, Nelson de Oliveira, Reinaldo Moraes, Rodrigo Lacerda, Rogério Augusto, Santiago Nazarian, Sérgio Fantini, Sheila Leirner e Xico Sá
Date: Wednesday, 16 May 2007 15:52

Em cada dia,

momento,

ocasião,

festividade,

segundo,
minuto, hora de tristeza, alegria, obrigação de trabalho, sentimento de impossibilidade e até mesmo em cada sensação enganadora de liberdade…
meu pensamento está em Marcinha Kawabe, Gugala, João, Francis, Luísa R., Boczon, Fernando Cals, Márcia Lustosa, Betão, Ana Lucia, Daniela Mann, Alma, Mônica A., Bruna, Andréa N., Annie no Japão, Elisa, César Brandão, Helôzinha, Gi, Joaninha Darc, Panis, Flavio Prada, Teresa em Paris, Lila, Monica sempre «Femme», Grazi minhoquinha, Ivan, Raquel, Santos Passos, Ivana Arruda Leite, Daniela Castilho, Djabal, Kuja, Rodrigo Gurgel, Sonja, Idelber, Cláudio Costa, Ruben Valle Santos, Ruvasa, Paulo, Lunna, Luma, Beto Lins, Zana, Aline, Odila, Pia, Julio, William, Sérgio Vieira, Teorias, Samantha, Xmu, Nelson, Ruy e em todos aqueles que, mesmo sem vir e ainda que eu não os visite, continuam morando no meu coração.
Até amanhã que agora é hoje e a amizade é eterna!
meu pensamento está em Marcinha Kawabe, Gugala, João, Francis, Luísa R., Boczon, Fernando Cals, Márcia Lustosa, Betão, Ana Lucia, Daniela Mann, Alma, Mônica A., Bruna, Andréa N., Annie no Japão, Elisa, César Brandão, Helôzinha, Gi, Joaninha Darc, Panis, Flavio Prada, Teresa em Paris, Lila, Monica sempre «Femme», Grazi minhoquinha, Ivan, Raquel, Santos Passos, Ivana Arruda Leite, Daniela Castilho, Djabal, Kuja, Rodrigo Gurgel, Sonja, Idelber, Cláudio Costa, Ruben Valle Santos, Ruvasa, Paulo, Lunna, Luma, Beto Lins, Zana, Aline, Odila, Pia, Julio, William, Sérgio Vieira, Teorias, Samantha, Xmu, Nelson, Ruy e em todos aqueles que, mesmo sem vir e ainda que eu não os visite, continuam morando no meu coração.
Até amanhã que agora é hoje e a amizade é eterna!
Date: Saturday, 28 Apr 2007 07:38

Campos do Jordão, 1978. Ele, Felícia, meu filho Paulo, Galina, eu. Dedicatória: "To Sheila with best wishes, Rostropovitch"*.
Se não dá para recapturar os momentos de harmonia (e de grande música) em nossas vidas, pelo menos dá para atribuir à morte a capacidade de nos ajudar a não esquecê-los.
Até amanhã, que agora é hoje e viva a Vida!
*Mstislav Leopoldovitch Rostropovitch (1927 - 2007), violoncelista e maestro que ficará na história como grande defensor da liberdade e um dos maiores virtuoses que marcaram a paisagem musical internacional na segunda metade do século 20.
Até amanhã, que agora é hoje e viva a Vida!
*Mstislav Leopoldovitch Rostropovitch (1927 - 2007), violoncelista e maestro que ficará na história como grande defensor da liberdade e um dos maiores virtuoses que marcaram a paisagem musical internacional na segunda metade do século 20.
Date: Saturday, 10 Mar 2007 06:35

Jean Baudrillard (1929 - 2007)
Não sei porque sempre escrevi necrológios que as pessoas diziam ser bons. Se algum personagem conhecido no mundo das artes plásticas estivesse à beira da morte e mesmo se os editores do jornal já tivessem prontas em suas gavetas a reportagem e a biografia do futuro defunto, era de mim que eles esperariam o texto escrito sob a "emoção do momento".
Eu, justo eu que detesto coisas lúgubres, por certo era uma necrologista nata! Entendia perfeitamente que, entre outras coisas, o jornalismo tinha que ser preventivo: antecipar os fatos para poder melhor descrevê-los ao leitor. Eu não antecipava nada, mas quando fosse chegado o momento não apenas obedecia às ordens e desfiava a emoção, como exercia com todas as minhas forças um insuspeitado talento de orador paroquial em missa de 7° dia.
Hoje eu não tenho editor. E, desde que a notícia apareceu nas "atualidades" da barra Google à direita do meu micro, estou chorando. Ainda sem conseguir admitir – mesmo sob o choque de vê-lo naquele estado durante o lançamento da antologia de ensaios sobre a sua obra no Cahiers de l’Herne há dois anos - que um grande pensador, talvez um dos maiores de nossa era, estava de fato "à beira da morte". Para não fazer o seu necrológio com antecipação. Para não fazer o seu necrológio em geral.
Jean Baudrillard, isto não é um necrológio. Isto é um "post" escrito em computador, coisa que você detestava, dentro de um blog que talvez você não tivesse paciência de ler. Jean Baudrillard, vou sentir a sua falta. Vou lembrar de você por toda a vida que me resta. Vou lembrar que, convidado a vir ao Brasil pela primeira vez, você entrou em meu escritório da Bienal como um leão à contragosto talvez porque a arte, sobretudo a contemporânea, nunca foi a sua "taça de chá". E mesmo assim, Jean Baudrillard, ou talvez justamente por causa disto – você foi o seu profeta!
A contragosto ou não, leão você era. Personalidade de leão você tinha. Com a cabeça grande demais em proporção ao resto do seu corpo, a sua testa alta, os olhos claros, vivos e a vasta cabeleira, físico de leão você possuía! Altivo e sereno você foi.
Desde então, durante estes últimos 22 anos, longe das discussões intelectuais, você tornou-se o meu grande amigo. Você me fez rir e pensar. Você foi testemunha carinhosa das mudanças em minha vida e também, doce ironia, testemunha "burocrática" nos papéis do meu casamento. Justo você que via toda e qualquer artificialidade do sistema com tanta lucidez. No dia do meu casamento, você fotografou as torres gêmeas Mercuriales, da minha janela, como se já pressentisse o espírito do terrorismo, brilhante artigo que iría escrever 8 anos depois. Naquele mesmo dia você me trouxe de presente duas grandes fotos emolduradas, feitas por você, uma das quais eu tive a caradura de pedir para você trocar pois não quis aquela imagem tétrica na minha parede. Você riu muito...
Também eu fui testemunha do seu humor, brilho, inteligência, às vezes de sua ingenuidade e deslumbramento infantil, de suas certezas e incertezas. Estivemos juntos em outros países, em congressos, em várias esferas, na intimidade de nossas casas, na vida mundana parisiense, nas ruas em longas caminhadas, nos jantares da grande cidade, nas comemorações de cada aniversário e cada livro, nas homenagens, nos restaurantes de Montparnasse, no campo, infelizmente não em seu casamento no bar maluco do 20° arrondissement (eu estava no Brasil), no seu "moinho" ao norte, não longe de Paris, onde centenas de amigos vieram comemorar e assistir as atrações estranhas que coroaram os seus 70 anos, no barco à beira do Sena onde camelos de verdade recepcionavam os convidados e em todas as excentricidades de Marine, sua mulher, nas quais você parecia sempre ausente, como um espectador de sua própria vida.
Eu ouvi as suas histórias, os relatos de suas viagens, a narração dos seus retiros anuais na sua “garrigue do midi” sempre naquela casa sem eletricidade, onde você escrevia à luz do lampião e onde, um dia, acordou coberto de fuligem perdendo todos os seus manuscritos... Era daquela região que você trazia o delicioso Fitou, vinho que saboreávamos ora olhando a sua poltrona com o "jeté" vermelho que você imortalizou em uma foto, ora observando a bola de cristal que eu trouxera do Brasil e que você colocara com tanto carinho sobre a chaminé.
A palavra amor é pequena para conter os sentimentos que trocamos. E as palavras admiração e respeito, Jean Baudrillard, são totalmente insuficientes para descrever o que eu sinto por você. Até sempre, que agora é hoje. Descanse em paz!
***
Fiz quatro entrevistas com Jean Baudrillard (1991, 1995, 1997 e 1999). Por enquanto, deixo aqui apenas os links para duas delas:
O Estado de S. Paulo – Caderno 2 - 1997
O Estado de S. Paulo – Caderno 2 - 1999
Eu, justo eu que detesto coisas lúgubres, por certo era uma necrologista nata! Entendia perfeitamente que, entre outras coisas, o jornalismo tinha que ser preventivo: antecipar os fatos para poder melhor descrevê-los ao leitor. Eu não antecipava nada, mas quando fosse chegado o momento não apenas obedecia às ordens e desfiava a emoção, como exercia com todas as minhas forças um insuspeitado talento de orador paroquial em missa de 7° dia.
Hoje eu não tenho editor. E, desde que a notícia apareceu nas "atualidades" da barra Google à direita do meu micro, estou chorando. Ainda sem conseguir admitir – mesmo sob o choque de vê-lo naquele estado durante o lançamento da antologia de ensaios sobre a sua obra no Cahiers de l’Herne há dois anos - que um grande pensador, talvez um dos maiores de nossa era, estava de fato "à beira da morte". Para não fazer o seu necrológio com antecipação. Para não fazer o seu necrológio em geral.
Jean Baudrillard, isto não é um necrológio. Isto é um "post" escrito em computador, coisa que você detestava, dentro de um blog que talvez você não tivesse paciência de ler. Jean Baudrillard, vou sentir a sua falta. Vou lembrar de você por toda a vida que me resta. Vou lembrar que, convidado a vir ao Brasil pela primeira vez, você entrou em meu escritório da Bienal como um leão à contragosto talvez porque a arte, sobretudo a contemporânea, nunca foi a sua "taça de chá". E mesmo assim, Jean Baudrillard, ou talvez justamente por causa disto – você foi o seu profeta!
A contragosto ou não, leão você era. Personalidade de leão você tinha. Com a cabeça grande demais em proporção ao resto do seu corpo, a sua testa alta, os olhos claros, vivos e a vasta cabeleira, físico de leão você possuía! Altivo e sereno você foi.
Desde então, durante estes últimos 22 anos, longe das discussões intelectuais, você tornou-se o meu grande amigo. Você me fez rir e pensar. Você foi testemunha carinhosa das mudanças em minha vida e também, doce ironia, testemunha "burocrática" nos papéis do meu casamento. Justo você que via toda e qualquer artificialidade do sistema com tanta lucidez. No dia do meu casamento, você fotografou as torres gêmeas Mercuriales, da minha janela, como se já pressentisse o espírito do terrorismo, brilhante artigo que iría escrever 8 anos depois. Naquele mesmo dia você me trouxe de presente duas grandes fotos emolduradas, feitas por você, uma das quais eu tive a caradura de pedir para você trocar pois não quis aquela imagem tétrica na minha parede. Você riu muito...
Também eu fui testemunha do seu humor, brilho, inteligência, às vezes de sua ingenuidade e deslumbramento infantil, de suas certezas e incertezas. Estivemos juntos em outros países, em congressos, em várias esferas, na intimidade de nossas casas, na vida mundana parisiense, nas ruas em longas caminhadas, nos jantares da grande cidade, nas comemorações de cada aniversário e cada livro, nas homenagens, nos restaurantes de Montparnasse, no campo, infelizmente não em seu casamento no bar maluco do 20° arrondissement (eu estava no Brasil), no seu "moinho" ao norte, não longe de Paris, onde centenas de amigos vieram comemorar e assistir as atrações estranhas que coroaram os seus 70 anos, no barco à beira do Sena onde camelos de verdade recepcionavam os convidados e em todas as excentricidades de Marine, sua mulher, nas quais você parecia sempre ausente, como um espectador de sua própria vida.
Eu ouvi as suas histórias, os relatos de suas viagens, a narração dos seus retiros anuais na sua “garrigue do midi” sempre naquela casa sem eletricidade, onde você escrevia à luz do lampião e onde, um dia, acordou coberto de fuligem perdendo todos os seus manuscritos... Era daquela região que você trazia o delicioso Fitou, vinho que saboreávamos ora olhando a sua poltrona com o "jeté" vermelho que você imortalizou em uma foto, ora observando a bola de cristal que eu trouxera do Brasil e que você colocara com tanto carinho sobre a chaminé.
A palavra amor é pequena para conter os sentimentos que trocamos. E as palavras admiração e respeito, Jean Baudrillard, são totalmente insuficientes para descrever o que eu sinto por você. Até sempre, que agora é hoje. Descanse em paz!
***
Fiz quatro entrevistas com Jean Baudrillard (1991, 1995, 1997 e 1999). Por enquanto, deixo aqui apenas os links para duas delas:
O Estado de S. Paulo – Caderno 2 - 1997
O Estado de S. Paulo – Caderno 2 - 1999

Lançamento da antologia de ensaios sobre a obra de Baudrillard no Cahiers de l’Herne, 11 de fevereiro de 2005.

Torres Mercuriales sob a neve, fotografadas por mim alguns dias depois do lançamento do livro...

Torres Mercuriales ao crepúsculo, fotografadas por mim recentemente...
Date: Tuesday, 20 Feb 2007 11:04

Sombras 1

Sombras 2

Sombras 3
Aconteceu. Sumi. Nem eu mesma consegui me encontrar! Não deu para avisar e menos ainda para me desculpar. É que inventei uma nova licença: depois da "poética" a "bloguística" - liberdade que toma o blogueiro para transgredir as normas da blogagem e da boa conduta. Folga para fazer outras coisas. E não é que eu seja folgada. Eu, por exemplo, mesmo virando sombra, folgo com responsabilidade!!!
Até amanhã que agora é hoje e, enquanto não volto para contar as novas aventuras, por favor lembre-se sempre disto: adoro você!
Até amanhã que agora é hoje e, enquanto não volto para contar as novas aventuras, por favor lembre-se sempre disto: adoro você!
Date: Sunday, 24 Dec 2006 10:23


I

II

III

IV
Do meu celular debaixo de 0°C, direto para você leitor querido. Com os votos de uma noite mágica e um dia de deliciosa pachorra.
Haicai de Natal:
Sobre a mesa farta
O abacaxi arrepiado
Fita o peru estripado
Até amanhã que agora é hoje e, do jeito que vai o consumo por aqui, quem não tem carnaval... caça com Natal!
Haicai de Natal:
Sobre a mesa farta
O abacaxi arrepiado
Fita o peru estripado
Até amanhã que agora é hoje e, do jeito que vai o consumo por aqui, quem não tem carnaval... caça com Natal!
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