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Date: Monday, 20 May 2013 09:00

RIO - O estudo de pinguins pode beneficiar maratonistas. As aves, ao contrário do homem, conseguem sobreviver em uma faixa de temperatura muito ampla, que abrange dos 30ºC aos -70ºC. Se a proteína ligada a essa variação térmica fosse identificada e inserida em um medicamento, poderia beneficiar, por exemplo, atletas de esportes de alto rendimento.

Pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) foram a Antártica coletar sangue de uma espécie da ave, a "Pygoscellis antartica", a mais abundante na região próxima à base brasileira no continente. Agora, estudarão no Brasil a composição dos tecidos desses pinguins, assim como a análise de 13 genes do DNA mitocondrial contidos nas células.

- A mitocôndria é o pulmão da célula, e muitos cientistas acreditam que ela é a responsável pelo controle da temperatura corporal - explica Beny Schmidt, chefe do Laboratório de Patologia Neuromuscular da Unifesp. - Se descobríssemos como funciona a variação deste sistema interno, traremos um grande progresso para a medicina esportiva.

Segundo Schmidt, esta área seria a maior beneficiada porque um dos grandes vilões dos esportes de alto rendimento é a hipertermia, ou seja, a elevação excessiva da temperatura do corpo. Como a oscilação da temperatura também é conduzida pela neurologia, esta seria outra especialidade favorecida pelo projeto.

Mais um fator motiva a equipe do patologista. A longevidade dos pinguins é muito maior do que a conhecida em muitas aves. Enquanto estas, especialmente quando criadas em ambiente livre, costumam viver menos de 20 anos, os pinguins podem chegar aos 40.

- Além desse grande tempo de vida, estas aves existem há pelo menos 60 milhões de anos - revela Schmidt. - Sua capacidade de sobrevivência, associada às grandes variações de temperatura que suporta ainda hoje, pode ser revelada pelo seu DNA mitocondrial.

O patologista pretende encerrar o sequenciamento genético dos pinguins - e, assim, identificar a proteína que explicaria a resistência - até o meio do ano. O composto poderia ser usado na produção de um medicamento que, segundo Schmidt, contribuiria para a reabilitação física do homem e lhe conferiria maior longevidade.

Membro do Comitê Brasileiro de Registro Ornitólogos, Fernando Pacheco concorda que o estudo do pinguim pode contribuir para a qualidade de vida do homem, desde que seja possível estabelecer uma aplicação direta daquilo que se conclui no laboratório.

- Em milhões de anos, a espécie foi submetida a uma série de adaptações. Acredita-se que ela já foi capaz de voar. Hoje ela vive entre a terra e a água - lembra Pacheco, que não está envolvido com a pesquisa de Schmidt. A mesma necessidade de transformação teria levado o pinguim a sobreviver a uma faixa de temperatura tão ampla, proporcionando sua estada em ambientes rigorosos.

O ornitólogo, porém, é cauteloso ao comentar a diferença de tempo de vida de pinguins e outras aves:

- Há diversos estudos, principalmente na Argentina, em que filhotes de pinguins são marcados com anilhas. A partir daí, a população é acompanhada por um bom tempo. Este procedimento, essencial para medir o tempo de vida de um animal, ainda é muito incipiente em diversas aves.

O estudo da Unifesp foi realizado com apoio do Programa Antártico Brasil (PRO-Antar).

Author: "Renato Grandelle"
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Date: Saturday, 18 May 2013 09:00

RIO - Escondida sob a densa floresta da região de Mosquitia, em Honduras, uma antiga cidade receberá seus primeiros visitantes em séculos até o fim do ano. Descoberta graças a um equipamento instalado em um avião e capaz de enxergar através da copa das árvores, sua localização exata permanece em segredo para protegê-la — ameaça bastante concreta diante do fato de que, na semana passada, uma empreiteira foi acusada de pôr abaixo uma pirâmide maia de cerca de 2.300 anos em Belize para extrair pedras. Talvez também maia, talvez de outra civilização mesoamericana ainda desconhecida, os cientistas ainda não sabem que tesouros e segredos vão encontrar na cidade perdida, mas de uma coisa estão certos: o achado vai mudar o que sabemos sobre a presença humana nas Américas, ampliando as fronteiras das áreas ocupadas por culturas sofisticadas há centenas ou milhares de anos atrás.

À frente da expedição — que deve partir para o local no fim do segundo semestre com arqueólogos, antropólogos e outros especialistas — estará o cineasta Steven Elkins. Ele conta que em 1994 trabalhava em uma produtora de TV em uma série de programas sobre exploradores quando, filmando em Mosquitia, ficou fascinado com a lenda da Ciudad Blanca, um rico complexo de construções que, protegido pela selva, teria escapado da sanha dos conquistadores espanhóis. Como muitos aventureiros antes dele, Elkins não encontrou a cidade, mas continuou obcecado pela ideia. Foi apenas em 2010, no entanto, que ele voltou à caçada. Leu, então, sobre como arqueólogos estavam usando o Lidar (sigla em inglês para “detecção e localização por luz”) para revelar a real extensão do sítio de Caracol, em Belize.

— Em 1994, depois de ficar andando pela selva durante cerca de um mês, percebi que era como procurar uma agulha em um palheiro, é muito difícil ver alguma coisa — lembra Elkins. — Mas continuei interessado na lenda e, ao longo dos anos, eu e outras pessoas encontramos artefatos e ruínas enigmáticos. Isto nos fez pensar que talvez realmente exista algo por lá, ainda que não saibamos se o que encontramos é mesmo a Ciudad Blanca. Percebi que o Lidar era a única maneira da fazer buscas em uma área desconhecida da selva, já que andar era simplesmente ridículo. E no fim funcionou muito melhor do que jamais imagináramos.

Revolução como a datação por carbono

Um dos principais arqueólogos envolvidos na expedição, Christopher Fisher, da Universidade do Estado do Colorado, também está animado com a descoberta. Durante anos, Fisher e o colega Stephen Leisz estudaram a antiga cidade de Angamuco, coração do império Purépecha, contemporâneo e rival dos astecas, no Oeste do México. Só em 2011, porém, eles contrataram uma empresa, a UTL Scientific, para fazer um levantamento da área com o Lidar. As imagens revelaram mais de 20 mil estruturas arquitetônicas antes desconhecidas, incluindo pirâmides, complexos cerimoniais e milhares de restos de casas e outras construções.

— Esta tecnologia representa uma mudança de paradigma na arqueologia, uma revolução como a introdução da datação por carbono há algumas décadas — diz. — O Lidar nos dá não só a habilidade de fazer levantamentos de grandes áreas em buscas de sítios arqueológicos como a capacidade de remover a copa das árvores e ver a engenharia sob elas, as cidades, pequenos assentamentos, estradas, canais.

Segundo Fisher, o projeto em Honduras demonstra como a arqueologia pode usar o Lidar para mudar nosso entendimento sobre o povoamento e a sofisticação das culturas da América pré-colombiana. Ele explica que há tempos vigora o conceito de que a floresta tropical não pode sustentar uma verdadeira civilização porque toda energia do sistema está na sua biomassa, isto é, uma vez removida a floresta, o sistema perde toda sua energia.

— Esta área da cidade perdida em Honduras, por exemplo, não está tecnicamente dentro da região ocupada pelos maias — destaca. — Assim, acredito que em muitos aspectos esta tecnologia vai nos ajudar a repovoar as Américas. E a próxima grande fronteira (para uso de Lidar) é a Amazônia.

Tanto Elkins quanto Fisher ainda não têm projetos de usar o Lidar na América do Sul, mas não descartam trabalhar no futuro na região e esperam que a descoberta em Honduras estimule pesquisadores brasileiros e de outros países a fazer o mesmo. Aqui, um dos focos seria encontrar a mítica cidade de ouro inca de El Dorado, objeto dos sonhos de aventureiros há séculos.

— Há muitas lendas de cidades perdidas em várias partes do mundo e certamente pretendo ir para o Brasil — diz Elkins. — Seria fascinante tentar ver se algo de fato está escondido na Amazônia, tudo que preciso é dinheiro.

Com o colega Bill Benenson, Elkins criou a UTL Productions, que está investindo mais de US$ 1,5 milhão no projeto. Além da descoberta arqueológica em si, o trabalho resultará em um documentário contando toda a história da caçada à cidade perdida com previsão de lançamento em 2014.

Centenas de milhares de pulsos de laser por segundo

Levantamentos aéreos não são exatamente uma novidade na arqueologia. Já em 1929, o famoso aviador americano Charles Lindbergh avistou do alto ruínas no Novo México e Arizona que passaram séculos desapercebidas por pessoas em terra. Ele chegou a tentar fazer o mesmo sobre as florestas do México e América Central, mas logo percebeu que a densa selva não revelava tão facilmente seus segredos.

Originalmente desenvolvido nos EUA nos anos 60, auge da Guerra Fria, para detectar submarinos soviéticos no oceano, o Lidar logo encontrou outros usos, como a confecção de mapas topográficos. Montado a bordo de um avião voando baixo e lento, o equipamento emite centenas de milhares de pulsos de laser por segundo, cujos reflexos são captados por um sensor. E embora grande parte seja refletida pelas folhas das árvores, alguns passam pelas pequenas frestas entre elas e atingem o solo. Com múltiplos sobrevoos de diferentes ângulos para aproveitar todas as frestas possíveis e a ajuda de modelos computacionais para filtrar o “ruído” da copa da floresta, surge então a imagem do que está escondido no terreno sob a selva.

— É como se tivéssemos nosso próprio pequeno Sol móvel para iluminar o solo embaixo da floresta — resume Juan Carlos Fernandez-Diaz, engenheiro da Universidade do Texas e pesquisador do Centro Nacional de Mapeamento Aéreo pro Laser (NCALM) dos EUA, responsável pelas operações com o Lidar em Honduras.

Author: "Cesar Baima"
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Date: Thursday, 16 May 2013 14:50

BRASÍLIA - Trabalhei cedo e isso moldou meu caráter. A frase é repetida à exaustão quando se critica o trabalho infantil no Brasil. Compreensível, uma vez que muita gente sente que sua experiência de superação é bonita o suficiente para ser copiada pelos filhos. Mas será que os defensores do trabalho infantil não percebem que ele não precisa ser hereditário?

Para fortalecer essa discussão foi lançado, na última semana em Brasília, o relatório “Brasil Livre de Trabalho Infantil: o debate sobre as estratégias para eliminar a exploração de crianças e adolescentes”. É um levantamento detalhado da ONG Repórter Brasil. O documento foi apresentado à Frente Parlamentar em Defesa dos Direitos Humanos.

Passado um primeiro momento de arrancada na prevenção e eliminação do trabalho infantil no Brasil, do início da década de 90 até meados dos anos 2000, o país enfrenta um novo desafio para manter o ritmo de queda. Enquanto a primeira fase foi marcada pela retirada de crianças e adolescentes das cadeias formais de trabalho, a questão atual são as piores formas de trabalho, que o poder público tem mais dificuldade de alcançar.

Ações como o Bolsa Família contribuem para manter a criança na escola. Mas não são suficientes. Muito menos garantem o interesse dos alunos na sua própria formação. Não raro eles fazem um cálculo que lhes parece racional, deixando uma escola que, a seu ver, não os levará a lugar nenhum porque não considera sua realidade, não foi pensada para suas necessidades, com professores desmotivados e despreparados a fim de tentar a sorte em um emprego incerto atrás do "sonho brasileiro". Buscam o curto prazo, pois é nele que está a sua sobrevivência e a de sua família, mas também porque o sistema educacional e, neste caso, o Estado não consegue lhe mostrar algo além do horizonte. Isso quando não optam pelos convites sedutores da criminalidade. Nesses casos, é viver a vida louca, porque sabem que não existirá longo prazo para eles.

De acordo com o Censo de 2010, 3,4 milhões de crianças e adolescentes de 10 a 17 anos estavam trabalhando. De 2000 a 2010, a redução foi de 13,4%, mas a ocorrência do problema chegou a aumentar 1,5% entre crianças de 10 a 13 anos, justamente na faixa etária mais vulnerável dessa população, para a qual todo tipo de trabalho é proibido.

Entre as atividades mais complicadas de se debelar estão o trabalho infantil doméstico, nos lixões, na agricultura familiar, no comércio informal urbano, na produção familiar dentro do próprio domicílio, na exploração sexual comercial de crianças e adolescentes, no narcotráfico. Nesses casos, muitas vezes há uma ambiguidade entre o trabalho infantil e o local de vivência das crianças ou há relação com atividades ilícitas, o que torna o enfrentamento mais complexo.

O Censo de 2010 mostrou um quadro diferente daquele que se observava nos anos 1990. Os dados apontam que quase 40% das pessoas com menos de 18 anos em situação de trabalho não estão em famílias que vivem abaixo da linha de pobreza.

Se antes a pobreza era um dos determinantes do trabalho infantil, hoje essa relação ficou menos direta. Há uma parcela de adolescentes que não trabalha para garantir a sobrevivência de suas famílias, mas para obter bens de consumo, como tênis e roupas de marca. São aspirações materiais que nem suas famílias nem os programas de transferência de renda podem satisfazer. Eles entram no mercado de trabalho, muitas vezes em empregos precários e informais, em busca de inclusão social, autonomia e independência econômica.

Entrar muito cedo e de forma precária no mercado de trabalho pode atrapalhar o desenvolvimento da criança e do adolescente. Há movimentações no Congresso Nacional para diminuir a idade mínima legal para se trabalhar no país como alternativa à “criminalidade”. Ao invés disso, deveríamos estar lutando por uma educação que prepare crianças e adolescentes para serem protagonistas de suas próprias histórias e não peças de reposição.

Author: "Fernanda Sucupira e Leonardo Sakamoto, coordenadores da ONG Repórter Brasil"
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Date: Tuesday, 14 May 2013 21:40

RIO - A palavra legado tem sido repetida à exaustão desde que o Rio de Janeiro foi confirmado como sede das Olimpíadas de 2016. Fala-se em melhorias no transporte, na infraestrutura e até na despoluição das lagoas. A Conservação Internacional, junto com o WWF-Brasil e outras organizações não governamentais voltadas a preocupações ambientais, está com o foco na alimentação sustentável. A ideia não é inédita. O objetivo é dar continuidade ao que começou a ser implantado nos Jogos pela primeira vez durante as competições de Londres, no ano passado. Agora, o biólogo Guilherme Dutra, diretor de Programas Marinhos da Conservação, assume a liderança da Secretaria Executiva do projeto Rio Food Vision, que busca convencer o Comitê Organizador dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos do Rio da necessidade de manter a mesma política adotada no Reino Unido. Para ele, é uma oportunidade única de conscientizar as pessoas sobre o que é, exatamente, a alimentação sustentável e tudo o que envolve o universo da cadeia produtiva de uma mercadoria. Na última semana, ele esteve no evento Green Rio, que reuniu na cidade especialistas, autoridades e ONGs para discutir sustentabilidade.

O que é exatamente o projeto Food Vision?

É uma iniciativa que começou nas Olimpíadas de Londres, em 2012, com o objetivo de dar uma base sustentável ao evento, ao menos em relação à alimentação. Naquele momento, algumas das maiores organizações voltadas à proteção do meio ambiente, como o Greenpeace e o WWF, uniram-se para coordenar o programa. Foi uma ideia de sucesso e que não podemos deixar de dar continuidade nas próximas edições. O objetivo é não retroceder nessa política.

Como o senhor define um alimento sustentável?

É algo muito complexo para dar um resumo simples. Cada tipo de alimento envolve padrões e questões diferentes. O que torna a carne sustentável, por exemplo, é diferente do que é exigido para o pescado. De uma maneira geral, é um produto que tem um impacto ecológico muito baixo. O menor possível. Isso em toda a sua cadeia de produção. Desde o início. Devem ser vistos fatores como o uso de elementos externos na fabricação, se há trabalho escravo, se há emissões de gases de efeito estufa. Tudo isso é levado em conta. A ideia é que a agressão ao meio ambiente seja mínima. Analisa-se também a compensação de carbono, os agrotóxicos. Enfim, depende muito do grupo de alimentos. Como base para identificarmos o que é ou não sustentável, temos o sistema de selos. Esse é um mercado muito desenvolvido.

No Brasil também?

Não tanto. É bem desenvolvido e avançado na Europa, o que facilitou o trabalho nas Olimpíadas de Londres. Lá, assumiu-se que era possível usar um conjunto de alimentos que já estava disponível no mercado. Não foi preciso ir muito longe. No Brasil a situação é mais complicada. Não há, por exemplo, um selo verde para os pescados marinhos, algo que todos os nossos vizinhos da América do Sul já têm. A carne, por outro lado, apresenta um panorama um pouco mais desenvolvido. Acho que é uma questão de se organizar para definir meios de produção e de distribuição de alimentos. Os estados vizinhos ao Rio de Janeiro podem ajudar.

Todas as instalações das Olimpíadas de Londres comercializaram apenas produtos com o selo verde?

O acordo vigorou nas Vilas Olímpicas. Atletas de mais de 200 países se alimentaram basicamente de produtos sustentáveis. É importante lembrar que essa foi a primeira vez que entenderam e aceitaram esta ideia de tornar o evento mais sustentável. Foi até algo bastante audacioso. Há uma forte questão de legado envolvida aí.

Que legado seria esse?

As Olimpíadas são mais uma alavanca para mostrar aos atletas e à população de forma geral a existência dos alimentos sustentáveis. Isso é capaz de fortalecer o comércio regional. Claro que não é apenas o negócio gastronômico. Há toda uma campanha de conscientização que vem junto. Com isso, podemos incentivar nas pessoas não apenas uma dieta equilibrada, como também uma que não afete a natureza. Esses valores precisam ser comunicados. Muita gente ainda não sabe o que é um alimento sustentável.

Você acredita mesmo nisso? Que boa parte da população não sabe o que é um alimento sustentável?

Sim, acredito, mas não conheço nenhuma pesquisa específica sobre o assunto. Sabe-se muito pouco sobre o que envolve este universo. É algo que precisamos informar à população e as Olimpíadas são um grande momento. É uma contradição, por exemplo, vender alimentos orgânicos dentro de um saco plástico ou de uma caixa de isopor. É importante pensar em alguma alternativa. Existe também a questão do lixo. Como reduzir o que é jogado fora. O Food Vision não quer lidar apenas com a alimentação. Outros assuntos entram no jogo e precisamos ter atenção com todos os segmentos envolvidos na alimentação que será oferecida nos Jogos.

Como alterar esse panorama de desconhecimento?

Fazendo campanhas e pensando na questão dos preços. Eles costumam ser mais caros. O acesso desse tipo de alimento a diferentes classes também precisa ser pensado. É uma questão de levar às pessoas o questionamento sobre se é válido investir um pouco mais para alimentar-se de forma diferente.

Em comparação com Londres, o que o Rio Food Vision quer implementar nas Olimpíadas da cidade?

Temos metas bem altas. O programa ainda não foi fechado e está em negociação. Esperamos concluir em breve todo o projeto junto com os organizadores dos Jogos Olímpicos. Em uma cidade que se propõe a ser líder mundial de sustentabilidade, e acreditamos que o projeto pode ser fundamental nesse caminho.

De que maneira a Conservação Internacional assumiu o papel de coordenar as negociações com o comitê?

Nós assumimos a Secretaria Executiva do projeto Food Vision junto com o WWF-Brasil. Como eles ficam mais em Brasília e o pessoal do comitê no Rio, acabamos ficando um pouco mais à frente das conversas.

Está otimista com as negociações?

Ainda estamos em uma fase inicial. É importante lembrar que o projeto do Food Vision não poderá ser uma repetição do que foi no Reino Unido. Há muitas diferenças de cultura e de produção entre os dois países. Principalmente em relação aos hábitos alimentares e o que está de fato disponível nas prateleiras. A ideia é fazer uma adaptação e construir um amplo diálogo com um grande número de atores. Seria ótimo todos construirmos juntos essa proposta. Tentamos ser os mais audaciosos que podemos. Esperamos também que algumas mercadorias tenham condições de serem produzidas em uma escala maior.

Author: "Felipe Sil"
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Date: Tuesday, 14 May 2013 14:15

RIO - Vista à distância, a cena é bonita: um domingo nos parques cariocas sob um sol aprazível e rodeado por natureza. Um lugar com espaço suficiente para andar de bicicleta ou patins, correr, descansar sob uma árvore, jogar conversa fora, ler, fazer piquenique com a família ou amigos. Cariocas costumam repetir esse ritual nos fins de semana. Só que muitos dos que procuram essa forma de lazer colaboram para sujar as áreas verdes da cidade.

No desleixo com o espaço público vale de tudo um pouco: um guardanapo jogado no chão, uma guimba de cigarro atirada a esmo, restos de comida espalhados no gramado ou garrafas PETs boiando nos lagos. Em um único dia, os funcionários da Comlurb chegam a recolher duas toneladas de lixo em apenas um dos 32 parques que a empresa pública limpa na cidade. É resíduo suficiente para encher pouco menos da metade da caçamba de um caminhão.

De algum modo, reproduz-se nos parques o que acontece nas ruas da cidade. É como se o espaço público não tivesse dono. E a sujeira fosse responsabilidade dos garis. Há cariocas que fogem à regra, mas aqueles que jogam lixo no chão — ou simplesmente o “deixa para lá” — se justificam transferindo a obrigação de cuidar do lixo para o poder público. O governo, por sua vez, joga a responsabilidade na falta de consciência da população. É um assunto que divide opiniões e, quando os dois lados não se entendem, acontece na prática o que diz a chamada máxima das janelas quebradas: num prédio mal conservado, mais vândalos atuam; num local sujo, mais lixo se acumula.

— Não há segredo, para manter um parque público limpo, é preciso haver um bom sistema de conservação e uma certa vigilância, além de um processo de orientação, como placas pedindo que as pessoas mantenham o parque limpo — destaca o engenheiro João Alberto Ferreira, consultor de resíduos sólidos e professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).

A receita foi testada no Parque Nacional da Tijuca, quando o especialista trabalhou na Comlurb, nos anos 90. Na época ele percebeu que, em apenas três horas, as áreas de lazer com churrasqueiras ficavam sujas. Um gari foi colocado de plantão no local. A ordem era recolher o lixo jogado no chão e colocá-lo imediatamente na lixeira:

— As pessoas se sentiram controladas, mesmo sem o gari falar nada.

Injustiça afirmar que todo carioca joga lixo no chão. O professor de biologia Ânderson Oliveira costuma recolher a sujeira alheia sempre que se depara com ela. Ao passear com a família na Quinta da Boa Vista, num domingo ensolarado, indignou-se com a falta de zelo com o parque:

— Muitos pais estão perdendo a oportunidade de ensinar a seus filhos que não se deve jogar lixo em locais inadequados.

Sua filha de três anos já sabe separar o lixo seco do orgânico.

— As pessoas mantêm nos parques um hábito das ruas. Não há qualquer preocupação em deixar o espaço público limpo, seja nas ruas da cidade ou nas áreas verdes — diagnostica Emílio Eigenheer, que, assim como Ferreira, é professor da Uerj. — Intelectuais tentam explicar a sujeira nos espaços públicos. Há quem diga que seja herança de uma tradição escravocrata. Outros falam em falta de fiscalização. Acho que é uma combinação de todas essas hipóteses.

Estudioso do tema, Eigenheer lista as causas da falta de civilidade nos espaços públicos. Três delas são de responsabilidade do poder público. Dessas, a primeira é a ineficiência da empresa responsável pela limpeza pública, a segunda é a escassez de campanhas de educação ambiental para conscientizar o cidadão e a terceira é a falta de punição dos infratores. O quarto e último pilar é pessoal e intransferível. Ou seja, cabe ao cidadão assumir a responsabilidade de cuidar do seu próprio lixo:

— Sem a ajuda de cada um, não há estrutura que consiga manter uma cidade limpa.

As críticas de Eigenheer à gestão pública do lixo incluem a falta de dados da Comlurb. A empresa desconhece o perfil do Sujismundo — personagem desenhado pelo publicitário Ruy Perotti e protagonista de uma campanha nacional de combate à sujeira e à falta de higiene nos anos 70. A própria Comlurb admite que é impossível fazer uma gestão eficiente dos resíduos sem um diagnóstico do problema. A empresa promete divulgar, em três meses, o resultado de uma pesquisa de campo.

À frente do levantamento está o novo diretor de Serviços Especiais e Ambientais da Comlurb, Julio Cesar Santos, que assumiu o cargo há pouco mais de 20 dias. Ele antecipou que a Quinta da Boa Vista será o primeiro parque público a ser adaptado às novas regras da gestão do lixo:

— Não consigo planejar a limpeza pública sem conhecer o que ocorre nos parques. Nosso marco zero será o estudo de hábitos de consumo. Com ele, poderemos saber quais são os melhores equipamentos para o Parque do Flamengo, que podem não ser os mesmos da Quinta da Boa Vista e vice-versa. No inverno, o usuários costumam ter um comportamento diferente daquele que adotam no verão. Todo esse trabalho será feito para que os parques não fiquem com uma aparência ruim e com o lixo transbordando.

Nome sujo na praça

Outra frente de atuação da prefeitura será a punição. A partir de julho, quem sujar áreas públicas no Rio poderá ser multado. O Programa Lixo Zero quer fazer valer a Lei de Limpeza Urbana, que data de 2001. Quem for pego na infração jogando uma latinha no chão, por exemplo, poderá ser autuado em R$ 157. O valor da multa será dado segundo a gravidade da infração, podendo chegar a R$ 3 mil em caso de despejo de entulho. E mais: quem não pagar a multa ficará com o nome sujo na praça. E aqueles que se recusarem a apresentar carteira de identidade ou liberar o número do CPF poderão ser levados para uma delegacia.

— No caso do uso de cinto de segurança, a ameaça de multa funcionou, criando um novo modelo de comportamento. Quando ele se consolida, acaba provocando um efeito multiplicador — comenta a psicóloga Cleide Sousa, cujo doutorado feito no Laboratório de Psicologia Ambiental da Universidade de Brasília (UnB) enfocou o descarte inadequado em áreas públicas urbanas.

Sua pesquisa, que durou quatro anos para ser concluída, testou a eficiência da fiscalização e das campanhas de comunicação. Seu estudo de caso foi um shopping de Brasília, que lançou mão de uma campanha simples, porém eficiente. Cartazes para manter o ambiente limpo foram distribuídos na praça de alimentação. Em pouco tempo caiu a menos da metade o percentual de pessoas que deixavam lixo sobre a mesa, uma queda de 93% para 40%.

Os testes realizados durante as pesquisas permitiram que Cleide tirasse outras conclusões. Um dos resultados que ela considerou mais interessantes foi a diferença entre o que é dito e o que é feito de fato pelas pessoas. Em mais de mil casos, os que declararam conhecer as consequências socioambientais do descarte inadequado dos resíduos foram os mesmos que deixaram a própria bandeja suja sobre a mesa:

— As campanhas podem funcionar, basta dizer claramente para as pessoas o que se espera delas. E, na medida em que as primeiras pessoas atendem, há um bom exemplo a ser seguido pelas seguintes.

O trabalho da psicóloga no shopping de Brasília conseguiu reunir evidências de que os locais mantidos limpos tendem a ser mais bem tratados por seus frequentadores.

Bom exemplo

O mesmo comportamento vem se repetindo no Parque Madureira, cujo público recebeu rasgados elogios dos garis da Comlurb. Lá as pessoas não deixam os detritos espalhados e usam as lixeiras do parque. Em nota, a empresa informou que “as pessoas respeitam o espaço como se estivessem em casa”. Fora dos cartões-postais, o parque da Zona Norte, o terceiro maior e o mais novo da cidade, foi concebido para ser ecologicamente correto. Inaugurado em junho de 2012, já recebeu, por causa de suas boas práticas, o selo Alta Qualidade Ambiental (Aqua).

Este é o único local em que a Comlurb tem a capacidade de cravar com exatidão a quantidade de lixo recolhido: 23 toneladas de resíduos mensais, sendo que, em um único fim de semana, o peso varia de quatro a cinco toneladas. Outra exceção: uma caçamba especial para material reciclável recebe uma tonelada mensal de lixo.

Diminuir o volume de resíduos gerado nas áreas de lazer é um outro desafio. Na hora de planejar o passeio ao ar livre, materiais retornáveis e poucos produtos com embalagens descartáveis de plástico ou de papel reduzem o impacto ambiental da atividade. Exatamente como fez o grupo de amigos do professor de educação física Cláudio Coelho, que costuma se reunir com os amigos no Parque Lage, na Zona Sul do Rio, para piqueniques nos fins de semana.

A administração do local fica sob a responsabilidade da Escola de Artes Visuais, ligada à Secretaria Estadual de Cultura. Em vez da Comlurb, uma empresa privada foi contratada para fazer a coleta de lixo do parque.

— Piquenique requer planejamento. No nosso caso, fizemos questão de pensar no lixo. Trouxemos sacos plásticos, porque as lixeiras no Parque Lage costumam ficar distantes. E também copos reaproveitáveis, o que diminui o volume de lixo — disse Coelho.

Cruzada conta a sujeira

Cartão postal de São Paulo, o Parque do Ibirapuera já enfrentou problemas sérios com o acúmulo de lixo. Transformado em palco de megashows da MPB aos domingos nos fins dos anos 90 — Rita Lee chegou a reunir 100 mil pessoas numa única apresentação em 1999 — o Ibirapuera via seus gramados e vielas ficarem cobertos por garrafas PET e copos de plástico ao fim das apresentações. A sujeira explícita chegou a causar revolta nos que usam o local para correr e se exercitar de segunda a sexta. As grandes apresentações ao ar livre deram lugar a shows menores, em espaços apropriados, mas ainda assim o parque continua recebendo, em média, 350 mil de pessoas nos finais de semana.

Na última década, o paulistano aprendeu a respeitar o oásis verde de 1,5 milhão de metros quadrados dentro da Zona Sul da cidade. Hoje, praticamente não se vê lixo no chão. É quase como se um visitante fiscalizasse o outro: se alguém jogar algo no chão, com certeza será alvo de reprovação.

Para Carlos Silva Filho, diretor-executivo da Associação Brasileira das Empresas de Limpeza Pública e Resíduos, uma das medidas que impulsionou a mudança de comportamento do paulistano foi a disponibilização de estrutura nos parques, com a implantação de lixeiras em vários pontos:

— Isso faz com que o cidadão tenha como descartar, mais facilmente, estes resíduos de maneira adequada. A manutenção destas lixeiras, como esvaziar os recipientes e limpá-los, também é importante. Quando a pessoa vê a lixeira limpa e sem mau cheiro, ela vai jogar o lixo no lugar correto.

O comportamento observado no Ibirapuera se repete em outros parques da cidades, como o Villa Lobos e o Água Branca.

Além da melhora de infraestrutura nos parques, Silva Filho acredita num aumento de consciência das pessoas:

— Se ele joga o lixo no lugar errado, o prejudicado é o próprio usuário. Nos parques isso deu certo. Mas ainda sofremos com a questão de se jogar lixo nas ruas. Ainda não conseguimos sensibilizar as pessoas de que a rua também é um bem público que deve ser zelado. O parque que ele frequenta, o cidadão não quer ver sujo. Com a rua, ele ainda não enxerga da mesma maneira.

O Ibirapuera tem um esquema para manter o parque limpo: duas equipes com 32 funcionários cada. Por mês, são coletadas 120 toneladas de lixo, segundo dados da administração do parque. De tudo que é recolhido, 70% vão para aterro sanitário. O restante, material reciclável, é retirado do parque por uma cooperativa.

Frequentadora do parque durante os dias de semana, a empresária Ana Paula Barros, de 41 anos, diz que costuma se deparar sempre com um Ibirapuera limpo, mesmo depois de megaeventos. Ela se surpreendeu, por exemplo, com a limpeza do parque após o feriado do dia 1º de Maio.

Uma sujeira milenar que perpassa os séculos

Produzir resíduos faz parte da vida humana. “Com base em estudos arqueológicos, hoje é possível afirmar que na pré-História já se queimava lixo, supostamente para eliminar o mau cheiro”, escreve Emílio Eigenheer, professor da Uerj e autor do livro “A história do lixo — A limpeza urbana através dos tempos” (2009). O trabalho, baseado em sua tese de doutorado feito na Alemanha, mostra como o homem trata seus resíduos até os dias de hoje.

Destinar corretamente o lixo é uma questão decisiva para a vida das cidades, muito antes do interesse pelas questões ambientais. O problema se agravou por volta de 4 mil anos a.C., quando ocorreu a fixação dos nômades em aldeias.

— Durante a pesquisa percebi que a relação do homem com seus resíduos e dejetos sempre foi muito complicada. Além disso, os conceitos mudam dependendo do lugar e do tempo. Meu estudo se concentrou no Ocidente — explica Eigenheer.

Roma e Grécia, na Antiguidade, atingiram, ao lado de outras cidades, tamanho expressivo. E por isso foram obrigadas a lidar de maneira sistemática com o seu lixo. Havia o reaproveitamento do material orgânico na agricultura. Inclusive as fezes acumuladas nas estrebarias do rei Augias, como revela a mitologia grega, eram desviadas para os campos. O autor da solução, Hércules, foi considerado o patrono da limpeza urbana na Grécia antiga.

Extremamente complexa, Roma chegou a ter sete mil bombeiros. Seu sistema de limpeza pública foi se constituindo aos poucos, e chegou ao apogeu na época dos imperadores. Estimativas indicam que a população da cidade era de um milhão de habitantes: “Apesar de proibido, o ato de jogar, à noite, fezes e urina pela janela tornou-se para muitos um hábito que se perpetuou em muitas cidades até o século XIX, com repercussão inclusive no Brasil”. Em Paris, foi permitido “lançar água” pela janela até 1372. Bastava gritar três vezes, avisando. Esta prática, mesmo proibida, perdurou até 1780, e precisou ser coibida pela polícia.

Em 189 a.C., Roma começou a pavimentar intensamente suas ruas. Leis indicavam que caberiam aos proprietários das casas a limpeza da calçada até o meio da rua, no ano de 45 a.C.

— Estas normas de Roma foram criadas para evitar que o lixo da calçada fosse varrido para a sarjeta, que passa a ser símbolo de decadência. A linguagem do lixo é essa — ressalta o pesquisador. — E consta na Lei Orgânica do Rio em vigor: os moradores são responsáveis pelas suas calçadas.

A limpeza era uma função que esteve frequentemente subordinada ao carrasco da cidade. A ajuda de prisioneiros e prostitutas também era comum. Foi na Idade Média que surgiram as primeiras proibições da destinação inadequada de dejetos por carroceiros, assim como o lançamento de lixo e fezes nas ruas e o uso da água das chuvas como meio de se livrar de detritos.

A partir do final da Idade Média para a Modernidade, surgiram os serviços organizados de limpeza urbana. A cidade de Praga passou a usar carroças em 1340 para a coleta regular de lixo. Em Paris, o trabalho começou no final do século XIV. “É a partir de 1666, em Londres, que se conta com um serviço organizado de limpeza de ruas. Sorteavam-se entre os cidadãos aqueles que, mediante juramento, responsabilizavam-se pela conservação de áreas da cidade”, ressalta o livro.

Na Inglaterra e nos Estados Unidos, na primeira metade do século XX, havia canteiros com lixo medindo mais de dois metros de altura por sete metros de comprimento. Os americanos depositavam seus detritos em aterros sanitários, onde eram recobertos por terra. Assim, evitavam o aparecimento de moscas, fogo e odor. Atualmente, os aterros sanitários também requerem impermeabilização do solo, tratamento do chorume e dos gases, além de paisagismo.

Depois da Segunda Guerra Mundial, o volume de lixo passou a ser muito maior, em decorrência do desenvolvimento industrial. Nos anos 70, surgiu uma sofisticada gestão de resíduos sólidos na Alemanha. Em 1993, foram estabelecidos no país diferentes tipos de aterros sanitários. Sistemas de coleta seletiva, disseminados nacionalmente, facilitam a compostagem da matéria orgânica, a reciclagem de embalagens e a incineração de produtos perigosos.

Para contar a história do lixo no Brasil, o autor voltou ao tempo em que as primeiras comunidades ocuparam nosso litoral. Estes povos deixaram os sambaquis — verdadeiras montanhas de conchas e artefatos que podiam ter mais de 30 metros de altura. Nestes sítios arqueológicos, pesquisadores encontram ossos de animais, sementes, objetos de pedra e até restos mortais humanos. “A referência aos sambaquis serve também para acentuar que áreas de destino de lixo em diferentes locais e épocas são fontes importantes de estudos e podem ensejar uma reflexão sobre as estreitas relações que se dão entre lixo, morte e memória”, diz o livro.

Os padrões de higiene das cidades brasileiras são historicamente ruins, como revelam vários documentos citados no livro. A efetivação dos serviços de limpeza esbarrava em inúmeros entraves. Em 1876, a empresa de Aleixo Gary finalmente foi contratada no Rio de Janeiro. Daí veio a palavra gari. A firma atuou até 1891. Depois, a Inspetoria de Limpeza Pública iniciou, em 1895, a construção de um forno para a queima de lixo em Manguinhos. A incineração se fez presente até os anos 1960. A Companhia de Limpeza Urbana (Comlurb) surgiu em 1975, e permanece até hoje.

(Colaborou Jaqueline Falcão)

Author: "Cláudio Motta"
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Date: Tuesday, 14 May 2013 09:22

MOSCOU - A nave espacial Soyuz, com uma tripulação de três homens retornando de uma missão de cinco meses na Estação Espacial Internacional (ISS, na sigla em inglês) pousou em segurança nesta terça-feira nas estepes do Cazaquistão.

O astronauta canadense Chris Hadfield, o americano Thomas Marshburn e o russo Roman Romanenko aterrissaram como planejado na cidade de Dzhezkazgan às 8h31m (23h31m de segunda-feira no horário de Brasília).

Imagens da NASA TV mostraram a cápsula da Soyuz TMA-07M descendo lentamente de paraquedas sobre as estepes ensolaradas sob um céu claro. As equipes de resgate se moveram rapidamente para ajudar a tripulação em seus trajes espaciais volumosos a sair da cápsula, chamuscada pelo reentrada de fogo através da atmosfera. Eles foram, então, colocados em cadeiras reclináveis ​​para começar a ajustar a gravidade da Terra após 146 dias no espaço.

Os três astronautas sorriram enquanto conversavam com funcionários da agência espacial e os médicos que verificavam sua condição. Hadfield, que serviu como comandante da estação espacial, deu um sinal de polegar para cima. Eles deram telefonemas rápidos para os membros da família e amigos, antes de serem levados para um posto médico para um exame médico de rotina de check-up antes de irem para casa.

Hadfield, de 53 anos, engenheiro e ex-piloto de testes de Milton, em Ontário, foi o primeiro astronauta profissional do Canadá a viver a bordo da estação espacial. Ele deixou o comando da estação espacial no domingo.

- Foi uma experiência extremamente gratificante e surpreendente até o fim - disse Hadfield na segunda-feira.

Hadfield postou um vídeo no YouTube no domingo com uma versão da música "Space Oddity", de David Bowie. Acredita-se ser o primeiro vídeo da música feita no espaço, de acordo com a NASA.

"Com respeito ao gênio de David Bowie, aqui de Space Oddity, registrada na estação. Uma última visão do mundo", Hadfield disse via Twitter.

Hadfield cantou muitas vezes em órbita, usando uma guitarra a bordo do complexo e até participou de uma transmissão ao vivo, de um show canadense costa a costa, em fevereiro.

O vídeo de cinco minutos postado no domingo atraiu uma saudação de página do Facebook oficial de Bowie: "É possivelmente a versão mais pungente da canção alguma vez criada."

Uma equipe russo-americana de três homens na estação espacial será acompanhado em duas semanas pelo próximo trio de astronautas.

Author: "O Globo"
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Date: Tuesday, 14 May 2013 09:00

RIO - A uma distância média de 225 milhões de quilômetros da Terra, Marte é o atual objeto dos sonhos da conquista espacial humana. Mas o que era apenas uma fantasia a pouco tempo atrás agora está cada vez mais perto de se tornar uma realidade. Embora ainda restem muitos desafios tecnológicos a serem superados, governos e empresas já têm planos de enviar missões tripuladas ao planeta vermelho nas próximas décadas. Mais ou menos ousados, os projetos vão desde uma escalada gradativa que passaria antes por uma visita de astronautas a um asteroide, como o pretendido pela Nasa, a um reality show proposto por uma organização holandesa que acompanharia a vida dos primeiros colonos, que receberiam uma passagem só de ida a Marte, e já tem cerca de 80 mil interessados, entre eles 18 brasileiros.

A reboque das seguidas missões bem-sucedidas de veículos-robôs da Nasa para Marte (o último deles, Curiosity, do tamanho de um pequeno carro, pousou no planeta vermelho em agosto de 2012), especialistas, empresários e representantes de agências espaciais de todo mundo se reuniram na semana passada em uma conferência em Washington para discutir as necessidades e perigos de uma missão tripulada. De novos foguetes e cápsulas que consigam levar e proteger os astronautas na viagem ao desenvolvimento de estratégias para que sobrevivam na superfície do planeta por um longo período, os obstáculos são grandes, mas deverão ser superados, garantiu Charles Bolden, administrador-chefe da Nasa.

- Uma missão humana para Marte é hoje o destino final da Humanidade no nosso Sistema Solar e uma prioridade para a Nasa. Todo nosso programa de exploração está alinhado com este objetivo – disse Bolden em discurso durante a conferência.

Segundo Bolden, o caminho da Nasa para Marte passa antes por asteroides próximos da Terra. Apresentado no mês passado, o orçamento de US$ 17,7 bilhões da agência inclui um projeto de uma missão robótica para capturar e trazer uma pequena rocha espacial para uma órbita estável em torno da Lua, onde então seria visitada por astronautas. Mais à frente, a Nasa pretende lançar uma missão tripulada para um asteroide maior em 2025, para então enfim mandar pessoas ao planeta vermelho e trazê-las de volta nos anos 2030.

Isso tudo, no entanto, ainda depende de a agência recuperar sua capacidade de enviar seus astronautas para o espaço por conta própria. Desde a aposentadoria de seus ônibus espaciais em 2011, a Nasa tem dependido dos foguetes russos Soyuz para transportar tripulantes para a Estação Espacial Internacional (ISS) enquanto a iniciativa privada americana desenvolve sistemas capazes de voar para a baixa órbita da Terra como parte da nova política espacial do presidente Barack Obama. As viagens para o asteroide e Marte, porém, vão demandar equipamentos mais poderosos, o que nos planos da agência se traduzem como o foguete SLS e a cápsula multipropósito Órion. Com quase 120 metros de altura, o SLS deverá ser o maior foguete já construído, batendo os Saturno V que levaram o homem à Lua nos anos 60 e 70. Na sua versão maior, ele poderá levar mais de 140 toneladas de carga e tem voo inaugural previsto para 2017.

Mas a abordagem gradual da Nasa é alvo de críticas de alguns especialistas. Durante a mesma conferência, o ex-astronauta Edwin “Buzz” Aldrin, segundo homem a pisar na Lua, atacou o projeto da agência de capturar um asteroide e defendeu que as viagens para Marte devem ser só de ida, ecoando o mirabolante plano da organização holandesa “Mars One”. Para Aldrin, que acaba de lançar o livro “Mission to Mars: My vision for space exploration” (Missão a Marte: Minha visão para a exploração espacial, em uma tradução livre), ir até um asteroide só valeria a pena se ele servir de ponto de parada na missão ao planeta vermelho. O plano do ex-astronauta inclui usar a lua marciana Phobos como base e naves em trajetórias específicas que as manteriam circulando lentamente entre as órbitas da Terra e de Marte para um constante envio de novos colonos e suprimentos, formando um verdadeiro sistema de transporte interplanetário.

- Isso (a missão para um asteroide) se tornou um grande exercício de defesa planetária às custas da exploração – avaliou Aldrin. - Ir para Marte significa permanência, nos tornaríamos uma espécie de dois planetas. Em Marte, temos um par maravilhoso de luas que nos permitiria mandar um contínuo número de pessoas, cujo destino final seria serem enterradas seis palmos abaixo da superfície de Marte.

Bolden, por sua vez, respondeu às críticas afirmando que a missão ao asteroide não significa excluir Marte dos planos.

- O asteroide e Marte não são um ou outro – disse. - A experiência na exploração de um asteroide será crítica para as futuras viagens à Marte.

Mars One pretende chegar lá antes

Enquanto a Nasa adota uma postura mais cautelosa com relação a uma missão tripulada a Marte, empresas e organizações têm planos bem mais ousados para a exploração do planeta vermelho. Nas últimas semanas, a holandesa Mars One já conseguiu atrair cerca de 80 mil pessoas ao redor do mundo interessadas em viagens só de ida para estabelecer a primeira colônia humana em Marte. Todas pagaram entre US$ 5 e US$ 75 para se inscreverem no projeto, que espera levantar fundos suficientes para o empreendimento por meio, por exemplo, da venda de espaço publicitário e de um programa de TV nos moldes do “Big Brother” (outra criação holandesa) sobre estes primeiros colonos marcianos.

Segundo Bas Lansdorp, cofundador e presidente da Mars One, a meta é atingir a marca de meio milhão de candidatos até o fim das inscrições, em 31 de agosto. A partir de então teria início o processo de seleção, primeiro reduzindo o número para algo entre 50 a cem interessados de cada uma das 300 regiões geográficas definidas pela organização até chegar a 28 a 40 escolhidos em 2015, que iniciariam um programa de treinamento de sete anos em uma base simulada na Terra já sob os holofotes da TV, cabendo à audiência do programa selecionar os que farão a primeira viagem.

Enquanto isso, a Mars One também já teria começado a preparar o terreno marciano para receber os colonos. A ideia é enviar naves não tripuladas com equipamentos e suprimentos a partir de 2016 até que a base esteja pronta em 2022. No mesmo ano os colonos sairiam da Terra, chegando a Marte em 2023. Segundo a organização, a tecnologia necessária tanto para a construção da base quanto para a viagem já está disponível ou estará em breve, afirmação que muitos especialistas presentes na conferência da semana passada em Washington veem com ceticismo, já que estar disponível não significa estar pronto para voar e muito menos levando pessoas.

De acordo com a Mars One, tanto as missões de suprimento quanto a viagem a Marte devem ser feitos usando o sistema composto pelo foguete Falcon Heavy e a cápsula Dragon da empresa americana SpaceX. O foguete, no entanto, tem seu primeiro teste previsto apenas para este ano, enquanto a cápsula ainda não fez nenhum voo tripulado, embora já esteja sendo usada para abastecer a Estação Espacial Internacional.

E isso sem falar em outros desafios, como proteger os astronautas da radiação do Sol na nave e na superfície de Marte, que não conta com um campo magnético como a Terra, ou sobreviverem só com os recursos encontrados no planeta, já que não seria possível enviar tudo que eles necessitariam para se manter definitivamente por lá.

Além da Mars One, outras empresas estão de olho em realizar uma missão tripulada a Marte antes da Nasa. Dennis Tito, milionário que pagou US$ 20 milhões para ir para a Estação Espacial Internacional em 2001, tornando-se o primeiro “turista espacial”, recentemente anunciou planos de mandar dois astronautas a Marte num sobrevoo em 2018. Já Elon Musk, dono da mesma SpaceX cujo sistema a Mars One pretende usar, deverá anunciar seus próprios planos de exploração de Marte nos próximos meses.

Author: "Cesar Baima"
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Date: Sunday, 12 May 2013 17:38

OSLO - O habitat de muitas plantas e animais vai encolher dramaticamente neste século a menos que os governos ajam rapidamente para reduzir as emissões de gases do efeito estufa, alertaram neste domingo cientistas britânicos, australianos e colombianos depois de estudar 50 mil espécies em todo o mundo.

Plantas, anfíbios e répteis são os mais vulneráveis ao aumento da temperatura global e às mudanças dos padrões de chuva. Cerca de 57% das plantas e 34% das espécies animais devem perder mais da metade da área destinada a eles até o ano 2080 se nada for feito nas usinas, fábricas e com os carros, segundo estudo publicado na revista “Nature Climate Change”.

As mais atingidas seriam as espécies na África subsaariana, na Austrália, na Amazônia e na América Central.

- A mudança climática reduzirá em muito a biodiversidade, mesmo para animais e plantas comuns - explica Rachel Warren, da Universidade de East Anglia, na Inglaterra. Esta queda seria naturalmente sentida pelos seres humanos em serviços como purificação de água e polinização, segundo ela.

Os governos, no entanto, poderiam reduzir a perda de habitat em 60% se as emissões de gases do efeito estufa atingissem um pico em 2016 e então caíssem. Já um pico em 2030 reduziria as perdas em 40%.

Author: "Reuters"
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Date: Saturday, 11 May 2013 09:00

BERLIM. Uruk, chamada hoje de Warka, a 260 km ao Sul de Bagdá, foi há cinco mil anos a primeira metrópole da Humanidade. Segundo uma exposição aberta na semana passada no Museu Pergamon de Berlim, a cidade da Mesopotâmia, que foi durante dois mil anos um centro da civilização, já dominava basicamente tudo o que é mais importante em uma metrópole: técnicas de construção para arranha-céus, administração de cobrança de impostos, elaboração de uma complexa rede de canais, e até o know-how para produção de cerveja. Além disso, ocupava uma área urbana de 5,5 quilômetros quadrados, onde viviam de 40 mil a 50 mil habitantes — algumas fontes falam em até 85 mil habitantes.

Com o título de “Uruk — Uma megacidade de 5 mil anos”, a exposição, que fica aberta em Berlim até 8 de setembro, mostra fragmentos de uma cidade que não apenas foi um berço da civilização como teve também um papel fundamental na urbanização do mundo. Segundo a arqueóloga Margarete van Ess, uma das curadoras da mostra, novos exames magnéticos (magnetograma) revelam que, além de construir casas, os habitantes da primeira metrópole do mundo sabiam tocar obras complexas, monumentais, como os prédios de doze metros de altura ou torres de 25 metros, que eram interligadas por uma plataforma.

— Uruk tinha não apenas casas e templos, mas também uma complexa rede de canais que atravessava toda a cidade — afirma a arqueóloga, que pesquisa as ruínas há 30 anos.

Para ressaltar o aspecto de metrópole de Uruk — com o seu famoso muro de Gilgamesh, de 11,5 km, que cercava a cidade e foi descrito no épico “Gilgamesh”, uma das obras literárias mais antigas já conhecidas — os organizadores da exposição mostram, junto às relíquias e reproduções da antiga Mesopotâmia, modernos arranha-céus de Hong Kong, revelando o desenrolar de uma história que começou há 5 mil anos entre os rios Tigre e Eufrates.

Mas, como conta Margarete van Ess, não foi apenas em termos de construção e urbanismo que os antigos sumérios, assírios e babilônios deixaram um importante legado. Para ordenar a vida em uma grande cidade, eles criaram um código de lei. Inventaram também a roda, o arado e um calendário de doze meses, com o qual começaram a refletir sobre História e até a filosofia.

Argila era o material que existia em abundância na cidade e que era usado na produção de estátuas e de placas onde eram gravados pequenos textos em escrita cuneiforme, como um placa contendo uma lista de preços de cereais feita há 5 mil anos e que pode ser vista no Pergamon. Mais de mil placas deste tipo foram escavadas nas últimas décadas. A escrita possibilitou o surgimento da literatura, inventada com o objetivo principal de acompanhar o desenvolvimento das transações comerciais — que, como ficavam cada vez mais complexas, exigiam alguma forma de registro dos bens, preços e vendas.

Seca fez cidade crescer

Segundo Margarete van Ess, a primeira metrópole do mundo acabou surgindo por conta de uma grave seca, que fez com que a população do campo migrasse para a cidade, fazendo “explodir” a sua população e as construções urbanas.

— Um dos motivos que levou à migração das pessoas das aldeias para a cidade foi uma mudança climática, uma grande seca. As pessoas pensaram que seria possível se organizar melhor para enfrentar as dificuldades na cidade. Com isso, foi criada a primeira administração urbana do mundo — diz a arqueóloga alemã.

Em Uruk surgiu também o comércio, a prestação de serviços, a arquitetura e parte importante da história da colonização da Mesopotâmia. Ainda assim, a trajetória dessa civilização continua sendo pouco conhecida. Segundo a arqueóloga, cem anos de pesquisas e escavações no Sul do Iraque revelaram apenas 5% da história de Uruk.

Sabe-se que o rei — que era visto como 66% homem e 34% deus — estava à frente de uma administração complexa. Na cidade, havia uma central que recebia todos os produtos agropecuários para distribuir mais tarde aos consumidores. Os processos de chegada e saída dos produtos eram registrados nas placas de argila. As classes já eram bem demarcadas. Junto dos reis e sacerdotes, foi formada uma elite administrativa, a classe rica, que estava acima da classe média, dos agricultores e produtores e da classe baixa, que contava com poucos recursos.

Segundo o catálogo da exposição, Uruk permaneceu a maior cidade do mundo até o século VI a.C., quando foi superada por Babilônia, o novo “centro do mundo”.

Author: "--"
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Date: Friday, 10 May 2013 18:55

RIO – Como esperado, a concentração de dióxido de carbono (CO2) na atmosfera no Hemisfério Norte chegou à marca símbolo de 400 partes por milhão (ppm), considerada por muitos cientistas o limite a partir do qual um aumento da temperatura média global em 2 graus Celsius será inevitável nas próximas décadas. Embora tal nível já tenha sido atingido no ano passado durante o verão no Ártico, desta vez a medição vem de uma estação de monitoramento no topo da montanha Mauna Loa, no Havaí, que funciona desde 1958. O índice coletado por esta estação, conhecido como “Curva de Keeling”, é o mais longo registro ininterrupto do nível do gás na atmosfera terrestre, sendo, por isso, visto como um padrão por cientistas climáticos de todo o mundo.

Considerado um dos principais gases-estufa causadores do aquecimento global, a última vez que a concentração CO2 chegou a esta marca foi na época do Plioceno, entre 3,2 milhões e 5 milhões de anos atrás, quando o clima na Terra era de 2 a 3 graus Celsius mais quente do que hoje e o nível do mar 25 metros mais alto. Estima-se que há 200 anos, no início da Revolução Industrial, esta concentração estava em cerca de 280 ppm.

Em entrevista a O GLOBO no fim de abril, Ralph Keeling - geofísico do Instituto Scripps de Oceanografia da Universidade da Califórnia em San Diego e filho de Charles David Keeling, pioneiro no estudo dos gases-estufa e seus efeitos no clima global e responsável pela implantação da estação de monitoramento do Havaí – afirmou esperar que a marca sirva de alerta para que governos e diplomatas destravem as negociações para redução das emissões globais de CO2. Segundo ele, devido às diferenças na industrialização e concentração urbana entre os hemisférios Norte e Sul e os padrões de circulação atmosférica, só no ano que vem a marca deverá ser registrada também por estações abaixo do a Linha do Equador.

Author: "Cesar Baima"
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Date: Friday, 10 May 2013 14:05

VALENÇA - No mês em que a Lei Áurea completa 125 anos e o Congresso Nacional discute a PEC do Trabalho Escravo, já aprovada pela Câmara dos Deputados, o fotógrafo Domingos Peixoto, de O GLOBO, traduziu em imagens uma das mais tradicionais festas dos quilombolas afro-brasileiros.

Em seu ensaio fotográfico, Peixoto mostra a força e as cores das celebrações no quilombo São José da Serra, em Valença, no interior do estado do Rio. A comunidade constituída por descendentes de escravos tem hoje 200 habitantes. É um dos 13 grupos de quilombolas espalhado pelo estado, enquanto no país são mais de mil.

O quilombo de Valença parece pertencer a outro tempo. No próximo dia 13 de maio, a comunidade de São José da Serra comemorará a Festa do Preto Velho, que faz parte do Mapa da Cultura do Rio de Janeiro. O jongo, a capoeira e a folia de reis marcam o ritmo da festa, que tem na bênção da fogueira, no meio do terreiro, o seu ponto alto. As Nações Unidas consideram a cultura popular um dos pilares da sustentabilidade.

O Quilombo São José existe há 150 anos e é o mais antigo do Estado do Rio de Janeiro. Cerca de 200 quilombolas vivem no local, em casas de adobe ou pau-a-pique e telhado de palha. O trabalho em conjunto na agricultura de subsistência, o catolicismo, a umbanda, o artesanato tradicional, o fogão à lenha, o jongo e o Terço de São Gonçalo fazem parte do cotidiano dos moradores da comunidade desde a chegada dos seus antepassados na fazenda, por volta de 1850.

— Visitar São José é fazer uma viagem ao passado com direito à hospitalidade de todos as pessoas, dos mais velhos às crianças. Eles nos recebem com alegria, simpatia e satisfação, sempre prontos a oferecer o sofá de suas casas, um café e passar a tarde conversando — conta o fotógrafo Domingos Peixoto, que frequenta anualmente a Festa da Cultura Negra, onde se reúnem mais de cinco mil pessoas vindas de várias partes do mundo, sempre no mês de maio.

— As fotos deste ensaio foram realizadas em 2010, quando eu e um amigo, o documentarista Guillermo Planel, organizamos uma viagem à Valença. Durante o caminho fomos aproveitando para filmar e fotografar o processo de uma festa que dura 24 horas. Além do ensaio, há um filme chamado “Imagens do Jongo”, que pode ser assistido no YouTube — diz Peixoto.

Em 20 de novembro de 2009, os moradores do quilombo ganharam o título das terras da fazenda, mas, devido à burocracia, a posse definitiva ainda não aconteceu. Em fevereiro deste ano, a comunidade comemorou uma conquista importante para a preservação de suas tradições, e enfim, assinou o termo de emissão provisória na posse do terreno que hoje ocupa. O processo já tem mais de 20 anos e tudo indica que, em breve, os moradores se tornarão os proprietários dos 476,3 hectares de terra.

— Através do jongo, uma dança típica africana, a comunidade tem sido importante na difusão e na afirmação da identidade afro-brasileira. Os moradores têm feito palestras em escolas e recebido visitas no quilombo como forma de reforçar a luta do povo negro pelos seus direitos à tradição — resume Peixoto.

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Date: Thursday, 09 May 2013 13:45

RIO - O modelo atual de negócios não pode mais continuar se as empresas desejam realmente se tornar sustentáveis. Quem diz é o presidente do Conselho Empresarial Mundial para o Desenvolvimento Sustentável (WBCSD, na sigla em inglês), Peter Bakker, que esteve no Brasil recentemente para conversar com representantes nacionais do grupo, no Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS). O órgão mundial é considerado o mais importante a lutar por questões ambientais na iniciativa privada. Conta com quase 60 conselhos nacionais e regionais em 36 países e de 22 setores industriais, além de 200 empresas multinacionais que atuam em todos os continentes e faturam anualmente US$ 7 trilhões, gerando 13 milhões de empregos diretos. Aos 50 anos, Bakker é embaixador do Programa Mundial de Alimentos das Nações Unidas, gerenciado pela Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO).

O senhor acredita que o mundo dos negócios está ciente da necessidade de investir em práticas de negócios sustentáveis?

O tempo de criar essa consciência já passou. Se você não está ciente hoje, então você não é um líder global no mundo dos negócios. Agora nos concentramos no dimensionamento das soluções. No passado, todos trabalharíamos duro para escrever um brilhante estudo e achávamos que o trabalho estava feito. Agora, ao concluirmos um, é apenas o momento que o projeto começa. Algumas das maiores referências dos últimos anos têm sido as empresas que estimulam outras corporações a adotarem melhores práticas e a inovarem. O Wal-Mart, por exemplo, abriu mais espaço nas prateleiras para produtos desenvolvidos de forma sustentável e cortou 20 milhões de toneladas métricas de emissões de gases de efeito estufa de sua cadeia de suprimentos. A Pepsi, por sua vez, exigiu uma melhor contabilização das emissões de gases de efeito estufa de seus produtores de laranja. A GE anunciou recentemente a maior compra de veículos elétricos da história. Foram 25 mil carros. As empresas que empurram outras empresas em direção às práticas sustentáveis geram resultados reais. A inovação cria novas oportunidades e fatalmente leva a um futuro ambientalmente correto.

A crise econômica fez com que os investimentos ficassem cada vez mais escassos. Neste contexto, negócios verdes também são afetados. Isso pode ser uma prova de que a sustentabilidade ainda não é mais do que uma intenção, e não uma estratégia de negócio?

A atual crise econômica começou com a crise financeira de 2008. Hoje, a pressão em todas as partes do mundo continua a ser elevada. Os governos têm implementado medidas de austeridade. Então os negócios apertam seus investimentos e a confiança dos consumidores permanece baixa. A maneira como o mercado funciona hoje não é uma opção para o futuro. Muitos modelos e estratégias de negócios são dependentes da noção de que os princípios econômicos atuais são estáticos. É uma ingenuidade. O modelo convencional para o capitalismo tem como base poucos benefícios para a maioria da sociedade e muito impacto sobre o planeta. O capitalismo requer um novo sistema operacional. Precisa ser reiniciado se quisermos evitar o colapso total.

Salvar o mundo é bom para a economia?

O comércio não pode ter sucesso numa sociedade que não alcança o mesmo. Para que ambos tenham êxito, as empresas devem se tornar mais sustentáveis. Precisamos ouvir o que os cientistas estão nos dizendo. Devemos incorporar as melhores provas que a ciência pode nos dar na definição de prioridades para soluções sustentáveis. Temos de encontrar ou criar um quadro que nos oriente para soluções que atendam às tensões sociais.

O senhor vê diferença entre os consumidores dos países do grupo em desenvolvimento (Brasil, Rússia, Índia e China) e dos países desenvolvidos? Historicamente, os consumidores europeus estão mais acostumados a lidar com as variáveis socioambientais no processo de consumo.

Em uma época de globalização, as empresas têm que trabalhar com os consumidores em todo o mundo para ajudá-los a compreender melhor os impactos das decisões que eles fazem no processo de compra. Os países em desenvolvimento têm, atualmente, uma maior proporção de sua população nas áreas rurais. Ao mesmo tempo, são extremamente ricos em recursos naturais. Portanto, pode-se argumentar que os consumidores desses países têm uma boa compreensão da ligação entre o meio ambiente e o consumo. Eles sabem como a comida acaba no supermercado, por exemplo. Mas educar os consumidores em todos os lugares sobre o panorama dos impactos socioambientais é desafio para todos nós. O Brasil tem sido especialmente ativo no desenvolvimento de melhores práticas para suas indústrias. Por exemplo, a Eletrobras é um membro da Iniciativa para a Governança em Eletricidade (GEI, na sigla em inglês), que apoia os esforços das concessionárias elétricas para combater as alterações climáticas e melhorar o acesso à energia para todos. Desde o seu lançamento, em 2011, o grupo reuniu informações de relatórios de sustentabilidade das 25 empresas, que, juntas, representam nada menos que 10% da produção de energia do mundo.

Um dos maiores problemas no Brasil é o desmatamento. O assunto chama a atenção do mundo de tal maneira que organizações, como o Greenpeace, por exemplo, lançaram uma campanha global para pressionar marcas internacionais.

O desmatamento é certamente um desafio significativo no Brasil, mas também para muitos outros países em desenvolvimento com ativos florestais tropicais que estão rapidamente sendo convertidos para a agricultura ou comprometidos pela evolução da infraestrutura. Embora os impactos sejam mais devastadores a nível local, especialmente em comunidades que dependem delas, o problema também tem implicações globais. A comunidade científica já confirmou que a perda da biodiversidade é, sem dúvida, um dos maiores desafios ambientais que o mundo enfrenta. É certamente difícil, mas é algo que precisa ser combatido com firmeza pelos governos e pelas empresas.

É um desafio para algumas empresas trabalhar em parceria com concorrentes?

Nós oferecemos acesso a práticas de sustentabilidade e recursos compartilhados, como ferramentas para ajudar as empresas a tomar decisões de negócios inteligentes. Por exemplo, temos uma ferramenta de análise de água que permite às empresas olhar para o seu uso de águas e os riscos, a fim de tomar decisões sobre os futuros ciclos de vida de produção, montagem e produto. Essas ferramentas são importantes porque nossas empresas associadas se comprometem a compartilhar informações agregadas sobre suas experiências e permitem que elas sejam aproveitadas por outros na forma de melhores práticas que, finalmente, conseguem melhorar os resultados de sustentabilidade.

Como é possível medir a sustentabilidade das empresas?

Na economia do futuro, o velho ditado “só o que é medido pode ser gerenciado” ainda soará muito verdadeiro. Além disso, muitas organizações não conseguem explicar bem por que elas relatam desempenhos de sustentabilidade. Poucas conseguem demonstrar como a sustentabilidade pode ser integrada em suas estratégias. Por cima de tudo isso, poucas organizações sabem quem realmente lê seus relatórios após o complicado processo de concluí-los. Não precisa ser sempre assim.

Tornou-se comum o uso do meio ambiente como uma arma de marketing. Como o público pode identificar uma real preocupação com a sustentabilidade?

Há amplas evidências que sugerem um entendimento da comunidade empresarial da gravidade da situação ambiental. Decisões para minimizar o impacto e criar negócios sustentáveis são feitas em salas de reuniões e vão muito além de medidas simples e quase virtuais. Pela minha experiência, vejo que o interesse comercial em sustentabilidade é genuíno, mesmo que seja para benefício próprio. Devemos continuar nossa missão de erradicar a pobreza e dar a todos o acesso a serviços básicos, reconhecendo que precisamos respeitar os limites do mundo. O consumidor começa a perceber mudanças de postura.

Author: "Felipe Sil"
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Date: Thursday, 09 May 2013 00:55

RIO. Especialistas em reprodução assistida concluem que há um avanço na nova resolução ao respaldar uma prática já em curso nos consultórios, no caso da permissão do uso da tecnologia para casais homossexuais e solteiros. Enquanto na resolução de 2010 não definia o tema, agora há uma postura mais afirmativa, mas com a ressalva de que médicos podem recusar o tratamento se acharem que estariam agindo contra sua consciência ou princípios religiosos.

Para Isaac Yadid, ginecologista especializado em reprodução humana, apesar da resolução, a legislação não vai deixar as coisas mais fáceis para casais de homens pois, além de dependerem de óvulo doado anonimamente, precisam de parentes, até o grau de primo, para gerarem o bebê:

— Nos casais mulheres é um pouco mais fácil, pois elas já têm o útero disponível e o óvulo. Mas concordo que não se deve ser tão flexível como em países onde se pode pagar para ter um útero de aluguel.

O ginecologista destaca que o limite de 50 anos para o tratamento de reprodução assistida em mulheres foi bem escolhido, pois os riscos de hipertensão, diabetes e de parto prematuro são altos em mulheres a partir desta idade.

— Há uma geração de mulheres que não pôde se beneficiar dos avanços da medicina e agora ficarão limitadas pela nova norma, mas acho que 50 anos é um bom limite para decidir sobre se quer ter filhos.

Mesmo nível da Europa

Marcello Valle, médico especialista em reprodução humana do hospital universitário da UFRJ, conta que são raras as mulheres acima dos 50 que procuram clínicas de reprodução assistida. O novo limite de idade, explica Valle, não causará portanto grande impacto na rotina médica. Em debates durante congressos médicos, chegou a se discutir se a idade limite ideal seria aos 55 anos, mas ele concorda com a prudência adotada pelo CFM.

— Há riscos que aumentam com o decorrer da idade que são difíceis de se calcular antes de a mulher engravidar. O Brasil está avançado em suas regras para reprodução assistida, no nível do que ocorre em alguns países europeus — avalia o especialista.

Consultora em direito médico e presidente da Comissão de Direito da Saúde da OAB de São José dos Campos, em São Paulo, Sandra Franco destaca como positivo o trecho da resolução que permite a reprodução assistida de casais homoafetivos e a solteiros. Mas ressalva que a nova resolução pode causar disputas nos tribunais quando estabelece o prazo mínimo de cinco anos para o descarte de embriões congelados.

Uma brecha na redação da Lei de Biossegurança não prevê o que fazer com os embriões saudáveis congelados depois da data da promulgação.

Author: "Duilo Victor"
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Date: Thursday, 09 May 2013 00:35

BRASÍLIA. O Conselho Federal de Medicina (CFM) aprovou uma resolução que garante aos casais homossexuais o direito de recorrer à reprodução assistida para ter filhos. A norma anterior previa que qualquer pessoa poderia ser submetida ao procedimento, mas era vaga e deixava margem para diferentes interpretações. A nova resolução, que será publicada na edição de hoje do Diário Oficial da União, explicita, pela primeira vez, o direito dos casais homoafetivos, um marco na luta pelos direitos civis dos homossexuais, embora faça uma ressalva ao estabelecer que será "respeitado o direito da objeção de consciência do médico".

Entre as novidades estão também a regulamentação do descarte de embriões congelados há mais cinco anos, o estabelecimento de uma idade limite para recorrer às técnicas de fertilização in vitro e a normatização da chamada doação compartilhada, quando os óvulos de uma mulher são usados por ela e por outra para engravidar. Esta é a terceira versão da resolução do conselho. A primeira é de 1992, e havia sido modificada apenas uma vez, em dezembro de 2010.

Nos casais formados por duas mulheres, uma delas poderá ter seu óvulo fecundado e ela mesma continuar a gravidez. Se preferir, o óvulo de uma pode ser introduzido no útero da parceira, para que as duas tenham participação no processo. Nos casais formados por dois homens, eles terão que procurar uma mulher na família para levar adiante a gestação.

A resolução do CFM estabelece que o "útero de substituição" deve vir de uma familiar separada por no máximo quatro graus de parentesco. Isso significa que, caso precisem, tanto um homem como uma mulher podem pedir para a irmã, a mãe, a avó, a tia ou a prima carregarem o bebê. O limite anterior era para parentes de primeiro ou segundo graus, o que excluía tias e primas. O pagamento por uma barriga de aluguel continua proibido.

Já a doação compartilhada permite que uma mulher que não pode produzir óvulos custeie o tratamento de outra que também quer engravidar. Em troca, a doadora cede metade de seus óvulos.

Com isso, duas mulheres que não podiam engravidar — uma por falta de condições financeiras e a outra por não conseguir produzir óvulos viáveis — poderão se tornar mães. Mas a receptora deve estar pronta para assumir o risco de não ser beneficiada, uma vez que a doadora deve ficar com pelo menos quatro óvulos.

Receptora não conhecerá doadora

A doação compartilhada já era praticado nas clínicas, mas ainda não tinha sido regulamentada. Pela resolução, as duas mulheres não se conhecerão. A receptora receberá apenas dados sobre a doadora, como características físicas e escolaridade, mas não saberá de quem se trata. Continua sendo proibido comercializar óvulos e esperma.

— Não é mercantilização, mas solidariedade, porque aqui não está havendo nenhum lucro. Ela não vai ter nenhuma vantagem pecuniária, financeira — afirmou o presidente em exercício do CFM, Carlos Vital Corrêa Lima.

Hoje, quem não tem condições de custear seu tratamento pode recorrer ao sistema público de saúde. Mas apenas seis cidades oferecem esse serviço: São Paulo, Brasília, Recife, Natal, Goiânia e Ribeirão Preto (SP). Segundo o presidente da Sociedade Brasileira de Reprodução Assisitida (SBRA), Adelino Amaral, o tratamento em clínicas particulares custa entre R$ 15 mil e R$ 20 mil, e as chances de dar certo ficam entre 35% e 40%. Amaral diz que de 10% a 15% dos casais brasileiros têm problemas de fertilidade.

A resolução também estabelece uma idade máxima para que a mulher possa se submeter ao tratamento: 50 anos. Segundo o CFM, essa idade foi definida a partir de critérios científicos. Também foi estabelecido em 50 anos a idade máxima para doar esperma e 35 anos para doar óvulos. Uma gravidez tardia e que seja resultado de células reprodutivas de pessoas mais velhas traz maiores riscos à segurança da gestante e da criança.

A resolução também regulamenta o descarte de embriões preservados há mais de cinco anos. Atingido esse prazo, os pais poderão descartá-los, doá-los para pesquisas de células-tronco ou doá-los para outros pacientes. Caso prefiram, podem mantê-los congelados também. No caso de pesquisas com células-tronco, a Lei de Biossegurança permitia o uso de embriões congelados por pelo menos três anos até a data em que foi sancionada, em março de 2005. Mas nada dizia a respeito dos embriões criados depois disso.

— É terreno que não há norma contraditando isso. Então entendemos que isso não é absolutamente antijurídico — disse Vital.

A resolução também deixa mais claro que o número de embriões transferidos ao útero de uma mulher vai depender da idade da doadora do óvulo, e não da receptora. Poderão ser introduzidos até dois embriões, caso eles sejam provenientes de doadoras com até 35 anos, três quando elas têm entre 35 e 40 anos, e quatro quando acima de 40.

— O médico que não cumprir a resolução estará em desvio ético e os conselhos regionais de medicina (CRMs) e o CFM atuarão nesse cidadão — ressaltou José Hiran Gallo, tesoureiro do CFM e coordenador da Câmara Técnica de Reprodução Assistida do CFM.

Author: "André de Souza"
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Date: Wednesday, 08 May 2013 22:54

BRASÍLIA - O Conselho Federal de Medicina (CFM) aprovou uma resolução que garante aos casais formados por pessoas de mesmo sexo o direito de recorrer à reprodução assistida para ter filhos. A norma anterior já previa que qualquer pessoa poderia ser submetida ao procedimento, mas dentro dos "limites da resolução". Segundo o CFM, os casais homossexuais esbarravam em diferentes interpretações desse texto. A nova resolução, que será publicada na edição desta quinta-feira do Diário Oficial da União, explicita o direito dos casais homoafetivos, mas faz uma ressalva ao estabelecer que será "respeitado o direito da objeção de consciência do médico".

Esta é a terceira versão da resolução do CFM. A primeira é de 1992, e havia sido modificada apenas uma vez, em dezembro de 2010. Agora, a resolução sofreu mais uma atualização. Entre as mudanças está a regulamentação do descarte de embriões congelados há mais cinco anos, o estabelecimento de uma idade limite para recorrer às técnicas de fertilização in vitro, e a normatização da chamada doação compartilhada, ou seja, quando os óvulos de uma mulher são usados por ela e por outra.

Nos casais formados por duas mulheres, uma delas poderá ter seu óvulo fecundado e ela mesma continuar a gravidez. Se preferir, o óvulo de uma pode ser introduzido no útero da parceira, para que as duas tenham participação no processo. Nos casais formados por dois homens, eles terão que procurar uma mulher na família para levar adiante a gestação.

A resolução do CFM estabelece que o "útero de substituição" deve vir de uma familiar separada por no máximo quatro graus de parentesco. Isso significa que, caso precisem, tanto um homem como uma mulher podem pedir para a irmã, a mãe, a avó, a tia ou a prima carregarem o bebê. O limite anterior era para parentes de primeiro ou segundo graus, o que excluía tias e primas. O pagamento por uma barriga de aluguel continua proibida.

Doação compartilhada

Já a doação compartilhada permite que uma mulher que não pode produzir óvulos custeie o tratamento de outra que também quer engravidar. Em troca, a doadora cede metade de seus óvulos. Com isso duas mulheres que não podiam engravidar - uma por falta de condições financeiras e a outra por não conseguir produzir óvulos viáveis - poderão se tornar mães. Mas a receptora deve estar pronta para assumir o risco de não ser beneficiada, uma vez que a doadora deve ficar com pelo menos quatro de seus óvulos. Se, durante o tratamento, ela produzir poucos óvulos, ela ficará com todos eles e a receptora não terá nada em troca.

A doação compartilhada já era praticada nas clínicas, mas ainda não tinha sido regulamentada. Pela resolução, as duas mulheres não se conhecerão. A receptora receberá apenas dados sobre a doadora, como características físicas e escolaridade, mas não saberá de quem se trata. Continuará sendo proibido ao casal comercializar seus óvulos e esperma.

- Não é mercantilização, mas solidariedade, porque aqui não está havendo nenhum lucro. Ela não vai ter nenhuma vantagem pecuniária, financeira. Ele vai ter um desejo, um direito humano satisfendo o direito humano de outro - afirmou o presidente em exercício do CFM, Carlos Vital Corrêa Lima.

Hoje, quem não pode custear seu tratamento pode recorrer ao sistema público de saúde. Mas apenas seis cidades oferecem esse serviço hoje: São Paulo, Brasília, Recife, Natal, Goiânia e Ribeirão Preto (SP). Segundo presidente da Sociedade Brasileira de Reprodução Assisitda (SBRA) e membro da Câmara Técnica do CFM, Adelino Amaral, o tratamento em clínicas particulares custa entre R$ 15 mil e R$ 20 mil, e as chances de dar certo ficam entre 35% e 40%. Amaral diz que de 10% a 15% dos casais brasileiros têm problemas de fertilidade.

Idade

A resolução também estabelece uma idade máxima para que a mulher possa se submeter ao tratamento: 50 anos. Segundo o CFM, essa idade foi definida a partir de critérios científicos. Também foi estabelecido em 50 anos a idade máxima para doar esperma e 35 anos para doar óvulos. Uma gravidez tardia e que seja resultado de células reprodutivas de pessoas mais velhas traz maiores riscos à segurança da gestante e da criança.

Descarte de embriões

A resolução também regulamenta o descarte de embriões preservados há mais cinco anos. Atingido esse prazo, os pais poderão descartá-los, doá-los para pesquisas de células-tronco ou doá-los para outros pacientes. Caso prefiram, podem mantê-los congelados também. No caso de pesquisas com células-tronco, a Lei de Biossegurança permitia o uso de embriões congelados por pelo menos três anos até a data em que foi sancionada, em março de 2005. Mas nada dizia a respeito dos embriões criados depois disso. Questionado se isso poderia levar a questionamentos na justiça, Vital negou.

- É terreno que não há norma contraditando isso. Então entendemos que isso não é absolutamente antijurídico.

A resolução também deixa mais claro que o número de embriões transferidos ao útero de uma mulher vai depender da idade da doadora do óvulo, e não da receptora. Poderão ser introduzidos até dois embriões, caso eles sejam provenientes de doadoras com até 35 anos, três quando elas têm entre 35 e 40 anos, e quatro quando acima de 40. O objetivo da norma é evitar as chances de gravidezes múltiplas. Quanto mais velha a mulher, menores as chances de o embrião ser viável.

- O médico que não cumprir esta resolução estará tendo um desvio ético. Consequentemente os conselhos regionais de medicina (CRMs) e o CFM atuarão nesse cidadão - afirmou José Hiran Gallo, tesoureiro do CFM e coordenador da Câmara Técnica de Reprodução Assistida do CFM

Author: "André de Souza"
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Date: Wednesday, 08 May 2013 18:59

RIO – Astrônomos descobriram uma rede de combustível cósmica que pode explicar como as galáxias são capazes de manter o ritmo de formação de novas estrelas durante bilhões de anos. Unindo observações com telescópios e radiotelescópios, os cientistas conseguiram identificar nuvens e filamentos de hidrogênio no espaço conectados às galáxias de Andrômeda e do Triângulo, companheiras da nossa Via Láctea no chamado Grupo Local.

A formação e evolução das galáxias têm sido fonte de dúvidas e debate entre os astrônomos há quase cem anos. No início século XX, quando finalmente concluíram que alguns dos estranhos objetos nebulosos vistos no céu desde os primórdios da astronomia estavam na verdade extremamente distantes, não fazendo parte da Via Láctea, as galáxias foram consideradas como “Universos-ilha” que teriam se formado bilhões de anos no passado e evoluído de forma independente umas das outras.

Esta visão, no entanto, logo se mostrou equivocada e foi substituída por um modelo hierárquico em que galáxias maiores constantemente atraíram e absorveram menores ou se fundiram com outras, dando origem às grandes galáxias de diversos formatos espirais, elípticos e irregulares que vemos hoje. Este foco na interação galáctica para explicar sua evolução rapidamente ganhou a preferência dos cientistas, mas ao longo da última década novas observações indicaram que ele também não é totalmente adequado.

Segundo os astrônomos, o ritmo de formação de estrelas no Universo variou muito ao longo do tempo. Primeiro, ele atingiu um pico há cerca de 10 bilhões de anos, gradualmente caindo para uma taxa dez vezes menor nos dias de hoje. Ao mesmo tempo, porém, a quantidade total de hidrogênio atômico nelas, o combustível que alimenta esta formação de estrelas, declinou apenas pela metade. O mistério se aprofundou ainda mais quando cálculos mostraram que, dada a capacidade das galáxias de armazenar o gás e o ritmo com que elas o consumiram, a formação de estrelas nelas deveria ter parado após apenas alguns poucos bilhões de anos.

A resposta para esta questão, portanto, teria que estar fora das galáxias. Simulações sugeriram então que no atual tempo cósmico cerca de um terço de toda a matéria comum, chamada bariônica, já foi processada e condensada no que conhecemos como galáxias, com o restante guardado nas nuvens e filamentos de gás no espaço intergaláctico, constantemente alimentando-as. Esta teoria para a evolução e crescimento das galáxias, no entanto, mostrou-se difícil de ser confirmada pelas observações, o que aconteceu agora.

Segundo estudo liderado por Spencer Wolfe, astrônomo da Universidade de West Virginia, nos EUA, e publicado na edição desta semana da revista “Nature”, este hidrogênio estaria armazenado no espaço intergaláctico não na forma atômica, mas majoritariamente ionizado. Por isso, ele e sua equipe combinaram dados de telescópios e radiotelescópios para finalmente conseguir detectá-lo.

Author: "Cesar Baima"
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Date: Tuesday, 07 May 2013 21:29

WASHINGTON. “Você, me ouça! Dê o fogo a seu pai. Tire a lagarta da casca e passe-a para sua mãe. E não cuspa nas cinzas!”.

Este é um pequeno e estranho discurso. Mas, se você o dissesse 15 mil anos atrás para caçadores-coletores asiáticos, e com as mesmas palavras, há uma chance de que eles entendessem pelo menos uma parte do que você está dizendo.

Isso porque todos os substantivos, verbos, adjetivos e advérbios dessas quatro frases são palavras praticamente inalteradas de um idioma extinto no fim da Idade do Gelo. Estas poucas palavras significam a mesma coisa, e soam de forma praticamente idêntica, desde aquela época.

Há uma visão tradicional, segundo a qual as palavras não sobrevivem mais de 8 mil ou 9 mil anos. A evolução e a adoção de palavras de outros idiomas eventualmente extinguiriam palavras antigas, assim como os dinossauros da Era Jurássica.

Um novo estudo, no entanto, afirma que isso não seria verdade. Uma equipe de pesquisadores listou dezenas de palavras “ultraconservadas”, cujo sentido e sonoridade é o mesmo há 150 séculos. Entre elas “mãe”, “não”, “que” e “homem”. Há, também, algumas surpresas nesta compilação, como “cinzas” e “lagarta”.

Estas palavras tão antigas sugerem a existência de uma linguagem “proto-eurasiática”, uma ancestral comum de cerca de 700 idiomas atuais, falados por mais de metade da população mundial.

- Nunca ouvimos este idioma e ele não está escrito em lugar algum - afirmou Mark Pagel, líder do estudo, publicado esta segunda-feira pela revista “Proceedings of the National Academy of Sciences” e teórico da evolução da Universidade de Reading, da Inglaterra. - Mas esta língua ancestral foi dita e ouvida. Pessoas sentadas ao redor de fogueiras se comunicavam por ela.

No entanto, a ideia de um som carregando um significado específico por mais de 15 mil anos ainda é controversa para muitos linguistas.

- A visão geral é pessimista - ressaltou William Croft, professor de Linguística da Universidade do Novo México, que estuda a evolução da linguagem e não integra a equipe responsável pelo estudo. - Hoje a ciência pensa que há poucas evidências para até mesmo propor a existência de uma família como a eurasiática.

Croft, porém, acredita que a nova pesquisa mostra como é plausível que uma linguagem ancestral tenha preservado alguns sons que, ainda hoje, preservam seu significado.

Author: "David Brown, do Washington Post"
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Date: Tuesday, 07 May 2013 17:29

A Agência Espacial Europeia (ESA, na sigla em inglês) lançou com sucesso para o espaço o foguete Vega, que carrega o satélite Proba-V, de 140 quilos, cuja missão é rastrear a cobertura vegetal da superfície terrestre e auxiliar no diagnóstico de possíveis crises agrícolas e alimentares.

O módulo foi lançado às 23h06 (horário de Brasília) da base espacial de Kourou, na Guiana Francesa. Além do Proba-V, o Vega deu “carona” para um satélite de observação do Vietnã e um microsatélite construído por alunos da Estônia.

Esta é a segunda vez que Vega sobe ao espaço, com seus 30 metros de altura e 138 toneladas de peso no momento da decolagem. A primeira missão ocorreu em fevereiro do ano passado. Com este foguete, a base da Guiana Francesa - a proximidade com a Linha do Equador favorece tecnicamente os lançamentos espaciais - passa a operar três foguetes: o Vega; o Ariane-5, capaz de levantar cargas maiores; e o Soyuz, de fabricação russa.

Author: "O Globo"
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Date: Tuesday, 07 May 2013 13:40

Ainda na primeira metade do século XIX dois jovens, Karl Marx e Friedrich Engels, escreveram um livro do qual não gostaram e abandonaram na gaveta sem enviar para publicação. Os rascunhos foram descobertos e publicados em dois volumes sob o nome de “A ideologia alemã”. Logo no início há uma frase da qual Marx e Engels não gostaram e a qual riscaram. Os editores desconsideraram o desejo dos autores e o livro foi publicado com essa que é uma das sentenças mais geniais jamais escritas: “Só existe uma ciência, a ciência da História.”

Quando a escreveram, Marx e Engels pensavam no que hoje chamamos de “humanidades” e se referiam ao fato de que a realidade e o processo histórico são um só e que disciplinas como economia, sociologia, história, antropologia e ciência política são janelas parciais e deformadas para a realidade, inevitáveis em decorrência das limitações e fragilidades do pensamento humano.

O grande Charles Darwin ainda não havia publicado “A origem das espécies” e os dois jovens não teriam como saber que a frase também é genial para as ciências da vida. Como disse o biólogo Theodosius Dobzhansky (1900-1975): “nada em biologia faz sentido exceto à luz da evolução”. Também para compreender a vida só existe uma ciência, a ciência da história.

Surpreendente e maravilhosamente incrível é a ideia de que as leis físicas imutáveis de nosso universo foram forjadas pela sua história e que não vivemos apenas em um ponto entre trilhões em um universo, mas em um universo entre tantos, cada um com suas próprias leis físicas decorrentes de suas únicas e singulares histórias. Até mesmo na realidade física só existe uma ciência, a ciência da História.

É claro que a sentença embute uma torção. Não se trata exatamente de só existir uma ciência. Existem várias porque o conhecimento humano é cheio de falibilidades e fragilidades, necessitando de muitas janelas, muitas peças de quebra-cabeça para com grande esforço montar um quadro mais completo ou, ao menos, mais abrangente.

Os mais impactados pelas agressões ambientais são sempre os mais pobres, que estão em posição mais vulnerável e têm menos recursos para se defender. Quem mais sofrerá com as mudanças climáticas são as populações pobres, contadas às centenas de milhões em todo o planeta. Os países ricos e mesmo os de renda média, como o Brasil, receberão bem mais de duzentas milhões de pessoas como refugiadas ambientais. Que distinção pode haver entre políticas sociais e ambientais?

Mais complexa é a relação entre as crises ambiental e econômica. À primeira vista assumir que os bens e serviços ambientais são limitados e têm um custo é algo mais difícil de ser feito em meio à recessão iniciada em 2008. Entretanto, as grandes crises anteriores, em 1873 e 1929, levaram mais de duas décadas para serem superadas. Não existe motivos para imaginar que agora seja diferente.

Por uma coincidência, são as mesmas duas décadas que constituem a janela de oportunidade para evitar os piores cenários da crise ecológica. Não há sentido em imaginar uma recuperação dos investimentos globais em meio à total incerteza sobre a internalização dos custos ambientais (especialmente a emissão de gases de efeito estufa e a destruição de ecossistemas ricos em biodiversidade) nos preços da economia de mercado global. O cálculo da taxa de retorno e do ritmo de depreciação dos ativos para projetos mais longos se torna impossível e o investimento se retrai.

Não há saída para a crise econômica sem superar a incerteza sobre a disposição da Humanidade em enfrentar a crise ecológica, assim como não será possível vencer a pobreza global sem evitar os piores cenários da crise ecológica.

Não existe distinção entre o econômico, o social e o ambiental. Não faz sentido sequer a linguagem diplomática que menciona esses “três pilares”. É uma única história, e com desafios inéditos para a Humanidade, como pensar e decidir globalmente e sobre um tempo muito mais longo do que estamos habituados a considerar.

Author: "Sérgio Besserman, professor de economia da PUC-RJ"
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Date: Tuesday, 07 May 2013 13:30

RIO - Pressionado pelo tempo escasso, espremido em calçadas estreitas e esburacadas, vulnerável a um trânsito feroz em que ônibus que avançam sinais parecem mais regra do que exceção, o pedestre carioca luta para não se tornar uma espécie em extinção. Ninguém é mais sustentável do que ele. Emissão zero de gases-estufa, participação nula em engarrafamentos, o pedestre cruza bairros, descobre caminhos, conhece a cidade melhor do que ninguém. É imune a panes no metrô e a barbeiragens de ônibus. Esnoba os carros. E caminhar ainda faz bem à saúde. Mas o pedestre carioca sofre com a falta de estrutura das vias públicas (calçadas, segurança e sinalização) para uma das mais humanas de nossas características: andar.

O cidadão que opta em ir a pé é aquele que não tolera mais o desperdício de seu tempo. Hoje, o tempo da viagem casa-trabalho em São Paulo e Rio de Janeiro supera a média mundial das regiões metropolitanas com mais de dois milhões de habitantes em países como EUA, França e Japão. Essa viagem rotineira só não é mais longa do que em Xangai, a maior cidade da China. Paulistanos e cariocas perdem, em média, uma hora e meia no trânsito, num percurso que, segundo cálculos do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), poderia ser percorrido em bem menos tempo. A média de Porto Alegre, por exemplo, é de 27,7 minutos. Em Barcelona, Milão ou Seattle não se gasta mais de 20 minutos.

Cansada do trânsito, Magda Andrade, de 49 anos, já contabilizou 7.367 quilômetros desde que trocou carro e ônibus pela caminhada ao trabalho. O percurso, saindo da sua casa, na Barra da Tijuca, para o Centro, equivale a oito idas e vindas a São Paulo. A opção foi tomada há nove anos, após Magda perder horas num ônibus ao sair do trabalho:

— Eu ponho uma roupa mais leve e deixo os documentos no trabalho. O problema são os obstáculos nas ruas, como a má iluminação e a falta de lugar para pedestres na Avenida Niemeyer.

O professor de antropologia do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj) Carlos Abraão diz que, quando uma pessoa decide começar a andar, ela abandona a lógica do automóvel.

— Lógica essa que tem se mostrado, no mínimo, complicada. A intensidade do crescimento de carros na rua é incompatível com o poder de reação do governo a isso — diz Abraão, que no momento produz um estudo sobre as dificuldades que os cariocas enfrentam no dia a dia quando vão ao trabalho usando diferentes meios como ônibus, metrô, trem e carro.

Há quem, como Magda Andrade, já tenha descoberto a alternativa. O analista de mídias sociais Paulo Cardoso, de 37 anos, entendeu isso enquanto passava férias na Europa com a esposa em março. Para conhecer melhor Amsterdã, evitavam ao máximo usar o transporte público. Os dois andavam o dia inteiro. Logo perceberam que não eram os únicos. Os holandeses possuem o saudável hábito de caminhar pela capital. Então o morador da Tijuca pensou:

— Trabalho em Botafogo. Não é tão distante de casa. Se caminho tanto na Europa, por que não posso andar no Rio também?

Cardoso se reinventou ao voltar ao Rio. Passou a andar diariamente sete quilômetros no retorno para casa. O equivalente a quase uma volta inteira na Lagoa. Chegava em uma hora e 40 minutos. A novidade durou pouco tempo. A sede de sua empresa, a Consumoteca, que lida com pesquisa de mercado, mudou-se para o Centro, na Rua Nilo Peçanha. O caminho diminuiu. Passou a ser de 4,2 quilômetros. Distância percorrida em 45 minutos, passando pela Avenida Presidente Vargas.

Segundo Maria Ermelina Malatesta, arquiteta com mestrado em transporte a pé pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (USP), esse tipo de deslocamento é um dos mais importantes, e o melhor para curtas distâncias.

— O início foi difícil. Muitas vezes pegava um ônibus no meio da caminhada. Mas acabei percebendo que, do Centro para a Tijuca, o trajeto não é longo — continua Cardoso.

O percurso do analista é feito sempre com uma mochila nas costas, contendo a roupa do trabalho e até um laptop. Há ocasiões, no entanto, que acaba indo à empresa já de camisa social e paletó, para poupar tempo.

O professor de educação física Ricardo Sartorato, um dos fundadores da equipe da assessoria esportiva Filhos do Vento, explica que o motivo para as pessoas terem dificuldades no início é apenas a falta de prática.

— É complicado andar grandes distâncias de primeira. O certo é ir adicionando alguns quilômetros a cada semana.

Sartorato também sugere que o ritmo inicial seja de 4 km/h, o normal de qualquer pessoa. A velocidade pode aumentar depois:

— Para que a caminhada tenha efeito como exercício também é preciso uma frequência maior. Pelo menos três vezes por semana.

É o que faz o professor de educação física Mauro Chasilew. Ele parte do Humaitá, bairro em que mora, e caminha até a Barra, onde gerencia sua loja de artigos esportivos.

— Já vivi momentos de puro estresse no trânsito caótico da Avenida das Américas. Mais de uma vez, saí do ônibus e fui andando até em casa. O trânsito do Rio só piora a cada dia — diz Chasilew.

A rotina de pedestre é só uma das atividades de Mauro, que também é ultramaratonista aos 44 anos. A fim de reforçar ainda mais o vínculo com sua origem judaica, ele participou da prova Mountain too Valley, que aconteceu em maio de 2011, em Israel.

— Transitar pela cidade a pé me dá condicionamento físico para conquistar títulos. Sendo que o maior desafio está realmente na falta de estrutura da cidade para o pedestre. Não há estímulo aos que desejam usar somente os pés na locomoção. Mas insisto que esta é uma ousadia necessária — brinca.

Desafio que pode custar caro. Ao contrário de outras cidades globais, o Rio parece não estar preparado para quem escolhe caminhar. As calçadas não têm padrões, com desníveis diversos, muitas falhas e buracos. Qualquer distração pode ter um preço alto.

— Quebrei meu pé esquerdo andando no Largo do Machado. Aconteceu há dois meses, mas ainda estou pagando por isso — conta a atriz carioca Joice Marino.

Um estudo feito no Instituto de Ortopedia e Traumatologia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP mostra que 18% das vítimas de quedas atendidas caíram em calçadas. Apesar de 77% serem do sexo feminino, o salto alto só era usado em 8,5% das quedas. O tênis foi o calçado mais usado pelos entrevistados (45%).

Marcos de Souza, editor do portal Mobilize Brasil, destaca que as falhas nas calçadas são um problema recorrente do Brasil.

— Nos acostumamos, nas últimas décadas, com a esculhambação da conservação das calçadas. Cada um faz o que deseja com elas. E aparecem uma série de desnivelamentos, que cruzam a trajetória dos pedestres. Transitar com cadeira de rodas ou carrinho de bebê é outro drama. As pessoas acabam indo para a rua — critica Souza.

A Prefeitura do Rio, em nota, afirma estar atenta ao problema. Segundo a Prefeitura, o programa “Calçada Lisa”, que teve um investimento de R$ 89,6 milhões, vai revitalizar cerca de 700 mil metros quadrados de calçadas e construir 5 mil rampas de acesso, a partir deste ano.

Caso a promessa se cumpra, bom para os pedestres, como o frei Heliodoro Fernández, de 75 anos, que não faz nada usando o transporte público. Vice-diretor do Colégio Santo Agostinho, no Leblon, há 49 anos, é literalmente um apaixonado por caminhadas. Não há um lugar que ele vá na Zona Sul que o faça pegar algum tipo de veículo sobre rodas.

— Para onde eu precisar ir, vou a pé. É uma maneira sustentável de me locomover e me dá mais longevidade — ressalta Fernández.

As caminhadas que ele faz não se resumem a deslocamentos com destinos definidos. Andar a pé é mesmo uma paixão para o frei. Todas as semanas o religioso faz pelo menos duas trilhas no Rio. O local pode ser o Parque Nacional da Tijuca, a Estrada das Canoas, a Pedra da Gávea e até a Espanha, onde andou 750 quilômetros, durante 25 dias, no famoso Caminho de Santiago. O trajeto preferido, porém, é a volta na Lagoa, com seus 7,6 quilômetros.

— Pelo menos duas vezes por semana faço uma longa jornada. Sou capaz de andar mais de 20 quilômetros. Fico quase três horas nesse exercício — conta o frei.

Numa sociedade onde tempo é dinheiro, a meta é sempre alcançar um destino buscando instintivamente o melhor caminho, que, para Wallace Monteiro, professor de Educação Física da Universidade do Estado do Rio (Uerj), é o da saúde do corpo e da mente.

— Andar utilizando somente os pés foi uma das primeiras conquistas do ser humano e contribuiu para diferenciá-los das demais espécies, liberando seus braços e mãos para outras funções essenciais — argumenta Monteiro. — A caminhada atua na direção do controle de riscos de doenças cardiovasculares. Nada melhor que uma prática que faz bem ao organismo e proporciona intensa troca social.

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