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Date: Tuesday, 20 Oct 2009 19:31

Quando eu era adolescente, gostava de ir a um shopping próximo da escola e ficar no café, onde normalmente eu pedia um café simples que vinha com um par de biscoitos amanteigados. Eu ficava lá, sentado, escrevendo e desenhando, observando as pessoas que vão ao shopping fazer o que quer que as pessoas façam no shopping - provavelmente as mesmas coisas que eu faço, hoje que não há mais o café nem os biscoitos amanteigados naquele canto onde, se eu fumasse naquela época em que eu não me lembro de ser proibido fumar no shopping, eu comporia uma imagem demasiado cliché, exceto pelos meus 16 anos, inaparentes na minha altura e barba da época. Fui bem alimentado durante a infância e tenho a barba de muito boa qualidade, sempre tive, desde que ela começou a nascer, já uniforme e progressivamente enchendo o rosto até atingir o seu apogeu, que se mantém até hoje. Mas enfim, eu ia ao shopping, bebia café e isso provavelmente tinha seu charme, ou pelo menos o momento e lugar seriam bem apropriados para eu fazer o famoso sucesso entre as mulheres, o que de fato eu fazia, pois era mais divertido que apenas sentar e beber café. Uma vez uma moça aparentemente 5 anos mais velha que eu parou em frente ao balcão, e ficou ali fingindo não saber o que queria, porque na verdade ela estava obviamente interessada em mim, o que os fatos posteriormente comprovaram - acompanha. Ela estava lá, toda cheia de dúvida, e eu disse "não sabe o quer? prova isso" e ela pegou a minha xícara sem hesitar, provou e pediu o mesmo que eu pra moça do balcão, esta feinha que doía e muito antipática. Era café, e quando veio café simples ela disse que não, que estava errado, porque o meu era completamente diferente, etc e eu disse para ela sentar na mesa, peguei os biscoitinhos que vinham junto com o café e joguei dentro da xicara e perguntei se ela estava com a mão limpa. Ela disse que sim, então eu esperei dois minutos e a fiz misturar tudo com o dedo, o que ela achou ainda mais nojento que jogar biscoitos no café, mas por algum motivo fez tão direitinho quanto um adolescente com bastante habilidade, e chupou o dedo melhor do que eu o teria feito, não fosse um cavaleiro e soubesse onde aquele dedo havia estado antes de totalmente cercado de café e biscoitinhos amanteigados derretidos. Acontece que biscoitos amanteigados = açúcar + gordura + amido, quero dizer, o efeito dos biscoitos no café era o mesmo de adicionar creme, adoçá-lo um pouco mais e tornar o conjunto todo mais espesso, por causa do amido; se duvidar, pegue uma embalagem destas de sopa instantânea, e está lá o amido, o ingrediente mágico que transforma um caldo de temperos vagos em um grosso e confortável creme. O amido é o melhor amigo do fabricante de comida. O fato é que o café dela ficou idêntico ao meu, porque é isso mesmo que eu fazia, jogar os biscoitos dentro e mexer com os dedos de uma moça bonita ou com uma colher, na falta de moça bonita. Ela ficou lá, sentada ao meu lado, bebendo o café cremoso mais estranho da vida dela até então e, na falta de pão de queijo, me comendo com os olhos. Depois de uns 10 minutos, pegou uma caneta na bolsa, anotou o telefone no meu caderno, levantou e foi embora.

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Date: Monday, 21 Sep 2009 20:46

Estou em Belo Horizonte, participando de uma exposição / congresso / feira da indústria de mineração. Os interesses dos participantes dividem-se de acordo com a lista abaixo:

a) Recepcionistas bonitas: 55%
b) Chopp de graça: 67%
c) Coffee breaks e cocktails: 94%
d) Brindes: 89%
e) Minério e extração: Pela minha amostragem, ainda 0%

ó, Minas Gerais, quem te conhece nansquece jamais

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Meu nome   New window
Date: Monday, 24 Aug 2009 12:07

O doido dos pés - uma pessoa, pra dizer o mínimo, heterodoxa - um provocador tolo - um provador de bolo: Já ouvi pessoas se referirem ao Alex Castro nestes termos ou em outros parecidos, e se estive com ele uma vez, num aeroporto, durante dez minutos - o tempo de receber uma encomenda que ele estava trazendo para mim, e de dar o lugar para ele ao lado do motorista, no carro da empresa, para levá-lo para casa com suas bagagens. Eu voltei pra casa de ônibus naquele dia (o carro era um daqueles em que só andam duas pessoas), e quase não pensei no Alex. Uma vez que eu pensei nele, tempos depois, tinha a ver com charutos, que é uma coisa que eu gosto e tem muito em Cuba, onde uma vez esteve o Alex Castro, que escreveu um livro. O livro se chama "Mulher de um homem só" e você pode comprar se procurar o link certo no site dele, do Alex Castro, o autor de "Mulher de um homem só". Eu li este romance pela primeira vez em 2004, antes de ler direito o LLL. Li de novo em algum momento entre 2004 e 2009, porque o tinha impresso e achei por acaso, e tinha que fazer uma viagem de 2 horas de ônibus e tinha que ler alguma coisa no caminho, então vai ser isso mesmo. E li de novo agora, porque ele mandou o romance pra gráfica e falou que, se eu ajudasse a pagar, ganhava uma cópia com meu nome escrito.

O livro é bom, mas o melhor é meu nome impresso. Gosto tanto de ler meu nome impresso que imprimo várias vezes meu nome, hoje com uma fonte e amanhã com outra, e fico lendo. E olha que meu nome nem é bonito, imagina se fosse. Tem uns outros nomes perto do meu dos quais eu gosto, e até um que eu pensei em roubar, mas ai lembrei que o dono atual tem prova impressa de que antes de ser meu, era dele, então continuo com o nome de sempre, que se não é o máximo, pelo menos é meu, e já tenho ele impresso em várias folhas em vários lugares. De vez em quando aparecem uns papéis na minha caixa de correio com meu nome, pedindo para eu pagar por isso. O nome às vezes vem caro, não acredito que custe tanto escrever um nome num papel e mandar por correio, mas como eles dão eletricidade e telefone de brinde, por exemplo, eu acabo pagando.

Enfim, eu gostei também muito de uma parte do livro que o Alex escreveu a mão, porque tem o meu nome lá e até que a letra do Alex é engraçada, e também é bom ler meu nome numa letra engraçada. Quando eu for mecenas do próximo livro do Alex, quero que ele escreva meu nome em Comic Sans. Outra parte do livro que eu gostei é quando ele diz que é flamenguista e tem um cachorro chamado Toby (ai q fofinhooooo).

Se o livro é bom? Sei lá, não sou mulher para saber. Mas eu gostei, ou não teria lido três vezes e dado de presente. Não vou falar nada sobre o enredo, os personagens, o texto, porque muita gente já fez isso e é fácil de achar por aí. Mas se quiser falo de novo: Gostei do livro; e se isso significar que o livro é bom, então é bom. Leia, e se não gostar dê para alguém ou jogue fora. Ou use para recortar as letrinhas e colar formando seu nome. Disso eu gosto também.

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Date: Wednesday, 05 Aug 2009 19:44

Religião a sério (tive que segurar uma mão com a outra para obrigá-la a escrever este "a sério")ou desculpa para gays andarem por aí de toga?

http://www.antinopolis.org/

DISSERTE PFV

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Date: Monday, 27 Jul 2009 13:33

Topei nem sei mais há quantos meses num sebo com dois livros que comprei porque não comprar seria idiota, cada um por 2 reais: "O Jovem José" e "José, o Provedor", metade da tetralogia sobre o patriarca José, de Thomas Mann. Faltam-me o primeiro e terceiro volumes da narrativa, e resisto a comprar a edição atualmente publicada, já que a minha é bem antiga e o tradutor diferente.

Há muito tempo eu não sentia o que senti lendo estes dois livros: Uma vontade aparentemente insaciável de ler mais, outros livros do mesmo autor, com o mesmo tema, a ponto de estar prestes a, seguindo uma sugestão do John Santos, comprar um livro chamado "The son of Laughter" sobre Yitzhak, avô de José. Isaque, aliás, ou Isaac, merece um parêntese: O filho da risada é o menos alegre, o menos orientalmente exuberante dos patriarcas clássicos. Neste livro, do Frederick Buechner, aparece este Isaac melancólico, calado, e quase suicida, e Deus por vezes é chamado de "The Fear" - designação bem apropriada para um Deus que andara quase sumido desde muitas gerações, desde séculos de paganismo e de culto a Baals, Istares e Adonais, e que voltava a aparecer, timidamente: Na boca de Enós, na companhia de Noé, na amizade de Abraão e no terror de Isaac.

Após a amizade de Abraão e o medo de Isaac, chegamos ao vencido de Jacó: Deus começa a se mostrar vencido, submetido, obrigado a uma bênção que não se pode apagar - e que não irá apagar: A descendência dos patriarcas, numerosa a não se poder contar, permanece abençoada eternamente. E o maior deles, segundo o instalador da nova e eterna aliança, viu o seu dia e alegrou-se.

Os filhos daquele que manteve Deus submetido por uma madrugada, e cobrou a bênção, atraindo o favor do Altíssimo sobre a humanidade, ou sobre uma fração que seria, por séculos, a quintessência da humanidade - a bênção que custou uma coxa, um coxear - seus filhos já seriam mostra do novo favor de Deus. E em José, temos a escrita máxima de Deus, a mão que escreve nas paredes do palácio do tempo o que quer, como quer e quando quer. A escolha humana, a direção óbvia, são coisas que para Deus podem ser alegremente desprezadas. E a primogenitura e sua bênção vai para onde decide o grande decididor.

Os personagens de José e seus Irmãos, quase sempre, não são os mesmos da Bíblia. Mas são (here´s the commonplace) maravilhosamente bem construídos, e por vezes magníficos; como quando, recebendo as vestes de José manchadas de sangue e julgando que "certamente uma fera dos campos o despedaçou, um leão o matou: Chorando descerei à tumba, e me ajuntarei ao meu filho, pois José já não existe mais"; Jacó entra em luto. Deixo um trecho:

"
- Aí está o que é Deus! - repetiu com visível calafrio. - O Senhor não me perguntou, Eliezer, e não me ordenou como prova: "Traze-me cá o filho que mais amas!" Talvez eu fosse mais forte do que humildemente esperava e levasse o menino a Morija, não obstante a sua pergunta sobre o animal a ser imolado. Talvez eu pudesse ouvir tudo isso sem cair desfalecido, talvez pudesse erguer o cutelo sobre Isaac, fiado no carneiro. Seria uma prova. Mas não foi o que se deu, Eliezer. (...) Ora, deves saber que esta fera (leão) devora tudo e o devorou. Levou ainda para o covil um pouco de José para as suas crias. É concebível tudo isto? Pode-se aceitá-lo? Não, é impossível tragá-lo. Eu o cuspi para fora como os pássaros a penugem. E agora jaz aqui. Agora Deus faça disso o que quiser, que não é coisa para mim.

- Volta a ti, Israel!

- Não, não, eu perdi os sentidos, ó meu mordomo. Foi Deus que mos tirou, e agora escute ele as minhas palavras! Ele é meu criador, eu o sei. Mungiu-me como leite e fez-me coalhar como queijo, convenho. Mas que seria dele e onde estaria sem nós, sem meus pais e sem mim? Terá ele memória fraca? Esqueceu o tormento e a fadiga do homem por seu amor? Esqueceu como Abraão o descobriu e excogitou, tanto que ele pôde beijar os dedos e exclamar: "Finalmente me chamam de Senhor e Sumo"? Eu pergunto: Terá ele esquecido a aliança (..)? Onde está a minha transgressão, onde meu delito? Que mo mostre! Queimei incenso aos Baal da região (...)? (...) Eliezer, a aliança está violada! (...) Deus não andou a passo igual: entendes-me bem? Deus e o homem se escolheram reciprocamente e concluíram a aliança, a fim de que fossem retos um no outro e santos um no outro. Mas se o homem se tornou delicado e fino em Deus e de alma disciplinada e se Deus, ao contrário, lhe impõe uma coisa selvagemente horrível que ele não pode aceitar mas tem de cuspir fora e dizer: "Isto não é coisa para mim", então é claro, Eliezer, que Deus não andou a passo igual na santificação, mas ficou atrás e é ainda um bárbaro.
"

É claro que aqui o mordomo inicia uma defesa de Deus, e não lhe falta a lembrança de apelar ao Behemoth, como o próprio réu fará mais além, se não mais tarde, frente ao seu auto-proclamado juiz Jó. Esta defesa de Deus é cabível, e a justiça o pede, mas não a digito; primeiro porque já o faz a própria história de Jacó, que ainda haveria de encontrar José no Egito, primeiro abaixo do Faraó, e depois porque nada mais fizeram os anjos e santos que cantaram, e até hoje cantam "Santo, Santo, Santo, é o Senhor, Deus dos exércitos; os céus e a terra estão repletos de sua Glória".

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Queijo   New window
Date: Tuesday, 05 May 2009 15:46

por G.K. Chesterton, publicado em `Alarms and Discursions' (1910) - trad. Igor Barbosa

Minha próxima obra em cinco volumes, “O Desprezo do Queijo pela Literatura Européia”, é um trabalho tão imprecedente e laboriosamente detalhado que é de duvidar que eu consiga viver para concluí-lo. Podemos permitir, portanto, que algumas inundações de uma tal fonte de informação salpiquem estas páginas. Não posso ainda explicar completamente o desprezo a que me refiro. Poetas têm se calado misteriosamente sobre o tema do queijo. Virgílio, se bem me lembro, refere-se a ele várias vezes, mas com grande reprovação dos Romanos. Ele não se atira ao queijo. O único outro poeta, que eu me lembre agora, que parece ter tido alguma sensibilidade quanto a este tópico foi o autor anônimo dos versos que dizem “Se todas as árvores fossem pão com queijo” – o que é de fato uma visão rica e gigantesca da mais elevada glutonia. Se todas as árvores fossem pão com queijo haveria um considerável desmatamento em qualquer região da Inglaterra em que eu vivesse. Ferozes e fartas florestas escapariam de mim, tão rápido quanto outrora correram por causa de Orfeu. Exceto Virgílio e este poeta anônimo, não consigo me lembrar de nenhum outro poema sobre queijo. No entanto, tudo que se requer para a melhor poesia está lá. É uma palavra curta e forte; rima com “desejo” e “beijo” (um ponto essencial); e até as civilizações modernas concordam que tem uma sonoridade enfática. A própria substância é imaginativa. É antiga – às vezes no que se refere à unidade em questão, mas sempre quanto ao tipo e forma. É simples, sendo diretamente derivado do leite, que é uma das bebidas ancestrais, não facilmente corruptível com água gaseificada. Veja bem, eu espero que seja verdade (apesar de que foi só agora que pensei nisso) que os quatro rios do Éden eram leite, água, vinho e cerveja. Águas com gás somente vieram após a queda.

Mas o queijo tem outra qualidade, que é também a verdadeira alma do canto. Uma vez, batalhando para palestrar em vários lugares de uma vez, eu fiz uma excêntrica jornada através da Inglaterra, uma jornada de desenho tão irregular e mesmo ilógico que foi necessário que eu almoçasse por quatro dias seguidos em quatro tabernas de beira de estrada em quatro províncias diferentes. Em cada taberna só havia pão com queijo; e eu também não consigo imaginar porque alguém quereria mais que pão e queijo, se pudesse chegar a se fartar disso. Havia um nobre queijo wensleydale em Yorkshire, um queijo de Cheshire em Cheshire, e daí em diante. Ora, é exatamente neste ponto que a real e poética civilização difere desta civilização pobre e mecânica que nos escraviza. Maus hábitos são universais e rígidos, como o militarismo moderno. Bons costumes são universais e variados, como a cavalaria e a defesa de si mesmo. Tanto a boa quanto a má civilização nos cobrem como um teto, e nos protegem de tudo que está fora. Mas uma boa civilização se espalha sobre nós livre como uma árvore, variante e anárquica, porque vive. Uma civilização ruim se ergue e estica como um guarda-chuva – artificial, matemática no formato; uniforme, quando podia ser simplesmente universal. Assim é com o contraste entre as substâncias que variam e as que são as mesmas onde quer que se as encontre. Por um sábio imperativo celeste os homens foram levados a comer queijo, mas não o mesmo queijo. Por ser realmente universal, muda entre um vale e outro. Mas se compararmos, por exemplo, queijo com sabão (esta substância muitíssimo inferior), veremos que o sabão tende sempre a ser meramente sabão violeta ou sabão alfazema, remetidos logisticamente a todos os cantos do mundo. Se os peles-vermelhas usam sabão, é sabão violeta. Se o Dalai Lama usa sabão, é sabão alfazema. Não há nada sutilmente e misteriosamente budista, nada ternamente tibetano, no sabão dele. Eu suponho que o Dalai Lama não come queijo (ele não é digno de comê-lo), mas se comer é provavelmente um queijo local, com alguma relação real com sua vida e circunstâncias. Palitos de fósforo, comida enlatada, remédios pateteados são enviados ao mundo todo; mas não são produzidos no mundo todo. Portanto o que existe entre um tipo e outro destes produtos é uma mera identidade sem vida, nunca aquela quase invisível brincadeira das coisas que em todo canto são tiradas do solo, do leite no curral ou das frutas no pomar. Consegue-se um whisky com soda em todos os postos avançados do Império; por isso tantos imperialistas ficam loucos. Mas isso não é provar ou tocar um local, como na cidra de Devonshire ou nas uvas do Reno; isso não é se achegar a uma das nuances da miríade de cores que possui a Natureza, como no ato sagrado de comer queijo.

Quando eu fiz minha romaria pelas quatro tabernas de beira de estrada eu acabei indo a uma das grandes cidades do norte, e lá eu corri, veloz e inconsistentemente, para um restaurante grande e complicado, onde eu sabia que poderia comer muitas coisas além de pão com queijo. Eu podia comer isso também, aliás, ou pelo menos queria comer isso; mas fui secamente lembrado de que havia entrado em Babilônia, e deixado a Inglaterra para trás. O garçom me trouxe queijo, de fato, mas cortado em pedacinhos calculados; e o fato terrível é que em vez de um pão cristão, ele me trouxe biscoitos. Biscoitos – para quem tinha comido o queijo de quatro ótimas províncias! Biscoitos – para quem havia constatado novamente a santidade do antigo matrimônio entre o queijo e o pão! Eu me dirigi ao garçom em termos cálidos e sentimentais. Eu o perguntei quem ele era para separar o que o gênero humano uniu. Eu o perguntei se não sentia, como um artista, que uma substância firme mas maleável como o queijo combinava com uma substância firme e maleável, como o pão; comê-lo com biscoitos é como comê-lo com azulejos. Eu o perguntei se, ao rezar, ele era tão sardônico a ponto de pedir o biscoito nosso de cada dia. Ele me deu a entender, genericamente, que apenas obedecia um costume da Sociedade Moderna. Neste ponto eu decidi erguer a voz, não contra o garçom, mas contra a Sociedade Moderna, por este enorme e incomparável erro moderno.

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Date: Sunday, 19 Apr 2009 08:01

Será verdade, então, que a identidade cultural brasileira é a própria diversidade cultural? Parece ser. Suponhamos, para a saúde e durabilidade deste texto, que o extrato concentrado de cultura brasileira seja uma roda de capoeira com Margareth Menezes, e não tenho motivos para duvidar que seja, acidentalmente.

É por isso que escrevi um "parece ser" lá em cima. Isso, meus amigos, é redigir um texto.

Nem venham ler pulando palavras e falar besteira nos comentários, ok? Vou parecer racista daqui a pouco. Nonetheless, meu avô paterno conseguiu a imensa proeza de nascer em 1888 e mesmo assim ser escravo até a adolescência. Você poderia dizer, se pedisse licença, que sendo a escravidão ilegal desde o momento em que ele nasceu, e a de filhos de escravos desde a lei anterior do ventre livre, ele foi escravizado não por ser negro, filho de negros também escravos, mas por ser azarado. E eu, com toda a educação que o sistema de cotas um dia talvez me proporcione, te mandaria pastar.

Buena. Eu ia dizendo que uma coisa será tão ou mais brasileira quanto mais tiver rodas de capoeira e Margareth Menezes, e isso me soou algo tão legal quanto dizer que uma coisa fica suficientemente americana se tiver 50 cent e um tio preto com bicho de pé, conhecedor de mojos, mississipesco. Tão legal quanto, e tão falso quanto, uma vez que all things american costumavam, até pouco tempo atrás, incluir uma boa e grossa dose de racismo ou no mínimo tensão racial.

Eu disse all things american referindo-me a todos os países dos continentes assim chamados americanos, vespucianos ou colombianos, permitindo até que vossa senhoria os chame de cristoforonianos se assim vos agrada. Olhar o Brasil por três minutos e negar que este é um paizinho fedido de racismo é sacanagem, não dá nem para começar a responder isso.

E mesmo assim, rodas de capoeira com Margareth Menezes continuam sendo uma merda, e é uma merda que um brainstorm tendo o Brasil como mote sempre será shitstorm. Como merda é uma coisa que acontece, segundo o livro dos provérbios de camisa, esperemos pelo dia em que, nos EUA e em todos os países que têm um choque racial como um dos elementos constitutivos, acontecerá o mesmo.

Mas não me levem a sério, são cinco da manhã e eu devo estar pensando besteira por ter assistido isto e isto, um atrás do outro, ontem de noite.

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Date: Tuesday, 14 Apr 2009 19:01
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Date: Monday, 06 Apr 2009 11:46

Acordei hoje querendo defender uma coisa indefensável, isto é, algo que ninguém tem coragem de defender por receio de parecer boçal, mas que pode ser perfeitamente elogiado, como os pombos, cuja defesa seguirá de premissas mais discutíveis e uma argumentação mais sutil, elaborada e complexa e que portanto ficará para uma próxima ocasião.

A lista de coisas que pensei em defender é esta:

1 - Charlie Brown Jr
2 - Zorra Total
3 - Telemarketing
4 - Pizza doce
5 - Antimônio

O que é obviamente uma lista falha. Não dá para falar bem de pizza doce. Sábado eu vi uma de brownie - São Sebastião, rogai por nós, pizza de brownie? No way, José.

É tão mais fácil reclamar.

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Date: Thursday, 02 Apr 2009 02:08

Eu já disse aqui mesmo no blog que zeitgeist comigo é na pedrada, e continuaria sendo se eu não tivesse descoberto recentemente que pedrada agora tem conotação sexual. Não quero ser imaginado making sweet, sweet love to the zeitgeist. Agora chamo o exorcista.

Por outro lado, acho bom que a sexualidade empreste seus verbos dos quadros violentos da linguagem - prefiro termos como "pedrada" e "madeirada" a outros que correm mundo para descrever os naughty acts que o povo faz por aí. Lembro que, do único livro de Jorge Amado que li, a única coisa boa que me lembro era o verbo com que o velho comunista descrevia os atos físicos: Derrubar, as in "derrubar negrinhas na areia", coisa que, se eu fosse um pivete soteropolitano, acharia muito apropriado. Como não sou, não acho, e não apenas por ser casado como por não aprovar essas safadezas, não sairei derrubando branquinhas nem negrinhas na areia, até porque moro longe da praia.

Mas se, em algum momento, um ato sexual vai ser indicado verbalmente, que fiquemos assim: É uma luta. Tratemo-lo como tal. Isso me lembrou um trecho do Gustavo Corção, em que ele comparava o casamento a um duelo: Em ambos há padrinhos, que verificam a igualdade das armas e tentam uma última reconciliação. No casamento, as armas são muito desiguais, e as oportunidades de reconciliação serão muitíssimo abundantes, pois a duração da contenda entre os cônjuges é a mesma que a daquela entre os duelistas: até que a morte os separe.

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Date: Monday, 30 Mar 2009 15:07

É preciso às vezes aparecer, dar sinal de vida, já que a dona Mão Invisível resolveu brincar de peteca comigo e fica me atirando pra tudo quanto é lado, normalmente com uma internet móvel safadinha, safadinha, que não passa do conectando.

Então digo, para dizer algo, que acabei participando da tal hora lá de luz apagada - sem querer, porque fui ver pantera cor-de-rosa no dvd e como sói, apaguei a luz. Dando-me conta, já tinha ido, ido, ido, até que iu, modusque junto-me envergonhado às hordas que, para diminuir as emissões de CO, acendem uma vela no lugar da lâmpada 11 watts cuja energia vem de águas que caem.

No mais, escrevo pouco porque o tempo é curto e importa mais levar o filho a comprar brinquedos, comer comida de verdade, longe dos desertos em que meus criente me manda, e manter a Cintia tão, ahem, feliz quanto me seja possível. Nos intervalos, o próximo livro vai ganhando corpo. E quando digo aos mais próximos qual é o assunto dos poemas novos, há quem fique O_O (danke tiago), o que suponho ser bom sinal.

Continuem andando na linha nesta semana da paixão, que a páscoa já vem.

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Date: Wednesday, 11 Mar 2009 00:25

Muitos, se não todos nós, gostamos das apostas, que para quem não lembra, são como uma coincidência pré-combinada: Num determinado dia, todo mundo escreve um texto sobre alguma coisa.

Desta vez, eu sugeri que escrevêssemos sobre macarrão. E os mano e as mina concordaram, modusque lhes conto agora minha pacata quarta-feira de cinzas.

Apenas acabada a terça-feira gorda
bateu-me uma tremenda fome, e às minhas mãos,
na hora do almoço, um belo macarrão
chegou num prato branco de dourada borda.

Ainda em minha testa estava o borrão
da cruz feita de cinza, misturada à cor da
minha testa suada. A entrada foi açorda
à alentejana. O queijo, claro, parmesão,

bastante, sobre muito molho de tomate.
Acompanhando o almoço, foi bebido mate
gelado, e a sobremesa foi manjar de côco...

Comi, neste almoço, mais que o normal, um pouco,
mas cumpri o jejum. À noite veio o soco
da fome, que não deixa louco – apenas bate.

Vejam aqui os outros textos sobre o mesmo assunto.

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Date: Saturday, 28 Feb 2009 14:48
mengo.jpg
nunca, Flamengo, eu nunca consegui entender como algumas pessoas conseguem não te amar, e não consigo entender também o contrário: por que aderimos literalmente - colando a pele nessa camisa listrada de vermelho e negro - a esse time que não ganha nada, não faz nada demais, nunca impressiona se o assunto é sério? sai pra lá com esse negócio de campeonato carioca, com esses ridículos torneios de basquete e de ginástica olimpica. isso não é de nada. também, até o futebol é nada, eu não assisto nenhum jogo, nem as finais, muito menos as finais. é fácil e clichê dizer que afinal resultados são coisa menor, e parabéns a quem os tem mesmo assim, desejo-lhes muitos gols ainda, de preferência sobre o atlético mineiro, o inter ou o coritiba, que para mim são coisa que não fede nem cheira tanto quanto qualquer outro time disputando o campeonato brasileiro deste e de todos os próximos anos. o que me importa é saber que essa camisa rubro-negra vagabunda, de camelô, que meu pai comprou nem sei quantos anos atrás, tem a cor do meu sangue e da pele do meu avô, como os saquinhos que recolhem as ofertas na Igreja, intercalados como as coisas que aprenderam a conviver bem, em pleno contato e sendo cada uma o que é, sem ferimentos, sem intercessões desnecessárias. eu e meu pai não tivemos muito tempo para ser flamenguistas juntos, e acho que não vou poder ser flamenguista com meu filho, já que o desgramado filho dum cão do meu sogro fez o favor de convencer a criança a ser botafoguense; o que talvez ainda se possa resolver. deixo na mão de Deus. enquanto isso, estou aqui escrevendo, com a camisa no colo, para meu pai, para mim, para meu filho, que veio me dizer que o vovô estava dentro da camisa, então vamos dar um beijo nela.
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Date: Monday, 23 Feb 2009 15:17

Há uma lição em porcarias acidentais, como Showgirls, e planejadas, como Sinhá Boça: Os poderosos, os bem inseridos, aquelas pessoas que poderiam te ajudar sem nenhum prejuízo pessoal são exatamente o tipo de gente que vai te ferrar por qualquer merreca.

O que personagens como Dona Máxima, Manoelzinho Araújo e Jacques Le Bleu têm a ver com Zack Carey e Cristal Connors é a picaretagem, uma capacidade imensa de construir fortuna, prestígio e poder em cima de migalhas tomadas dos mais fracos.

Guardadas as proporções, todo mundo é um desgraçado ou um idiota, e tanto mais quanto mais se deu bem na vida. E isso Hollywood e a Globo não confessarão, por motivos óbvios.

E isso prova suficientemente a superioridade do Flamengo.

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Date: Monday, 23 Feb 2009 15:17

Há uma lição em porcarias acidentais, como Showgirls, e intencionais, como Sinhá Boça: Os poderosos, os bem inseridos, aquelas pessoas que poderiam te ajudar sem nenhum prejuízo pessoal são exatamente o tipo de gente que vai te ferrar por qualquer merreca.

Personagens como Dona Máxima, Manoelzinho Araújo e Jacques Le Bleu têm a ver com Zack Carey e Cristal Connors é a picaretagem, uma capacidade imensa de construir fortuna, prestígio e poder em cima de migalhas tomadas dos mais fracos.

Guardadas as proporções, todo mundo é um desgraçado ou um idiota, e tanto mais quanto mais se deu bem na vida. E isso Hollywood e a Globo não confessarão, por motivos óbvios.

E isso prova suficientemente algo que não lembro agora.

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Date: Wednesday, 04 Feb 2009 13:13

Voltei rapidamente para dizer que:

1 - Wagner & Beethoven e Coisas de Idiota já estão no portal, o que muito me alegra;

2 - Estou nisto



Falso Gago

e nisto;


Minha tolice

3 - A mão invisível do mercado continua me torcendo;

4 - Esse comercial de Red Bull, com o gato e Der Vogelfänger, é sensacional. Assim que alguém puser no youtube coloco aqui.

Até.

Author: "--" Tags: "Diversos"
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Date: Tuesday, 06 Jan 2009 10:40

Eu estava aí falando sobre crise na Igreja (doravante CNI) como quem fala do mau desempenho do Flamengo na Copa do Brasil, quero dizer, como quem fala sobre algo que todo mundo está acompanhando desde o começo, relacionando com a novela (e naquele dia que a Maria Angélica disse pro Murilinho que gostava dele só como amigo perdeu pra ponte preta por três a um, rapaz, e o juiz ainda anulou um gol que tava impedido) e com o jornal. E não é assim, vez que para quem está de fora o assunto aparece de uma maneira totalmente diferente da maneira como aparece para os insiders, e não apenas em profundidade, mas em essência.

Vajamos então ao busílis, conhecendo os contendores.

De um modo geral, católico é aquele que

a) Recebeu o sacramento do batismo de um cristão previamente batizado, com a intenção de apagar o pecado original, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo;
b) Crê em um só Deus, Pai onipotente, Criador do céu e da Terra, visibilium e invisibilium omnia, etc.
c) Cumpre os mandamentos da lei de Deus e os da Igreja (Missa dominical e nas festas de guarda, confissão e comunhão ao menos anual, dízimo conforme o costume, etc.)

Não há diferença de importância entre a), b) e c). Os três critérios são eliminatórios. Isto posto, vejamos os católicos envolvidos na CNI:

a) Modernista
b) Tradicionalista
c) Sedevacantista

As três facções são apenas isso: Facções, e por isso mesmo contrárias à vontade de Deus para a Igreja e obstáculos à Igreja em seu trabalho.

Os modernistas são aqueles que, depois do Concílio Vaticano II e a promulgação do Novo ordinário da Missa, em 1969, tentaram (e no Brasil tiveram enorme sucesso) criar uma nova igreja dentro das estruturas da Igreja de sempre, e hoje podemos falar de duas correntes que seriam antagônicas: A Teologia da Libertação, Marxista, materialista e socializante, e a Renovação Carismática, Misticista e individualizante até o ponto da nuclearização - a despeito dos bailes que promovem: por mais que os corpos estejam em contato, as mentes continuam isoladas, o que é um efeito da estupidificação que seu blá-blá-blá promove em seus membros.

De uma certa forma, a TL não tem mais força em seu discurso, que só convence ainda algumas pessoas em lugares muito pobres: Não o suficiente para levá-las a uma atividade política (ou ainda pior, uma atividade pastoral politizada), mas apenas para formar suas idéias, sua maneira de ver o mundo. O que já é bem ruim.

A RCC cresce hoje principalmente graças à Canção Nova, que é uma grande rede de comunicação: Contam com uma emissora de TV, publicam livros, CDs, possuem um santuário para retiros, etc. Seu estilo é o mesmo dos evangélicos pentecostais: Emocionalismo ridículo e histérico, ênfase na natureza servidora, quase servil, de Deus (ele existe para curar suas doenças, rechear seu bolso e encerar seu carro), frouxidão doutrinária disfarçada de sofisticação intelectual pega-trouxas.

A TL peca por promover excessivamente a união entre os fiéis sem que haja o princípio divino que motiva, dá eixo e fortalece a comunhão; a RCC por promover uma suposta presença massacrante de Deus na vida dos participantes, que se sentem aniquilados e estupefatos por esta onipresença. Se fosse verdade, seria como se todo recém chegado à Igreja através da RCC já se tornasse, ao passar pela porta, um místico com anos de oração, penitência e contemplação.

Na prática, ambos são materialistas: A TL por sua natureza e a RCC por suas ações, uma vez que o "espírito santo" que lá age é puramente hipnose, auto-sugestão e vontade chã de aparecer.

São estes dois elementos modernistas que se encontram misturados, em maior ou menor grau, na imensa maioria das paróquias do Brasil e da América Latina. O modernismo católico no resto do mundo assume algumas características semelhantes, mais adequadas às circunstâncias locais.

(Continua amanhã)

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Date: Monday, 05 Jan 2009 14:12

Hoje o Naïf Gendarme completa cinco anos incompletos, de idas e vindas, rants de postagens e semanas de abandono, chinelagem e boa vontade. No mesmo dia nascia o altovolta, cujo dono eu viria a conhecer alguns meses depois. Destes dois blogs e mais Márcio Guilherme e Farsantes (O mesmo Márcio com o Bruno Rabin) nasceu este portal, que de lá para cá ganhou muita coisa: Bons autores, temática interessante e variada, e vários etcs.

Melhores coisas, relacionadas ou não ao blog, de lá pra cá:

- Meu casamento e meu filho
- www.apostos.com
- www.pensamentoscativos.com
- meu abandono do vegetarianismo
- meu primeiro livro
- grandes, médios e pequenos amigos
- minha conversão ao catolicismo
- posts que não me matam de vergonha

Tá funcionando. Que venham mais cinco.

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Date: Tuesday, 30 Dec 2008 12:57

Último dia do ano, na prática. Vou encerrá-lo com Bohemia Weiss & algo de bueno para comer, trabalhando no meu próximo livro.

A todos desejo que o próximo ano seja melhor.

Abraços,

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Date: Friday, 19 Dec 2008 14:04

Durante minha ausência do portal, entre os blogs que mais tenho lido houve sempre um bom número de blogs católicos, como o Deus lo Vult!; Fidei Depositum, Igreja Una, etc. Todos mais ou menos filo-tradicionalistas, mas longe do sede-vacantismo: E misteriosamente, de todos estes blogs, afastados da Canção Nova, é fácil traçar, através de leitores, comentadores e autores de outros blogs linkados e linkantes uma linha que os liga... à CN.

A CN faz muito bem o seu trabalho de atrair a todos no orbis catholicus. Tanto que até os tradicionalistas, para quem a CN não dá a-me-nor-pe-lo-ta, vez por outra estão lá, admirando gente como Dunga e Adriana Ribeiro. Eu, que não sou Tradicionalista (Deus me livre, sou Católico), freqüento uma Paróquia de Rito Extraordinário e o que vejo não é bonito.

A CN pega os tradicionalistas pelo pé: E o pé de quem "ama a liturgia" é seu aspecto externo, estético, que com bastante dinheiro dos sócios dá para imitar. Muito ouro e casulas bem bordadas fazem muita gente esquecer do et cum spiritu tuo.

De fato, a vulgaridade é gás que se expande. E pro católico bitolado, qualquer coisa levemente holier than TV, mesmo na TV, já conta como "ai meu deus o padre fábio de mello é um sacerdote do deus altissimo hihihi não é culpa dele se é bonito hihihi".

Primeiro: Ele não é bonito. Assim parece porque é vaidoso, coisa que nenhum Padre deveria ser. Mas vaidade, na CN, é mistura padrão do ar. E é nisso que o tradicionalista vaidoso se quebra: no AIAIAI QUE BUNITO ESSE ALTAR

que muitas vezes ele não consegue reprimir, pois é também vaidoso e esquece que o preciosíssimo Corpo e Sangue de Cristo são mais importantes que a beleza do sacrário - e, aparentemente, são pão e vinho, nada assim muito vistoso.

***

Outra postura comum é a do "nunca vi e já odeio". Este é o velho rad-trad, meio last week mas ainda na activa. Só que ele é burro e fácilmente será pego pela dialética erística chav:

"
Ali G: - West Side is the best!
ESMM:- East Side is the best!
Ali G: - West Side is the best!
ESMM:- East Side is the best!
Ali G: - West Side is the best!
ESMM:- West Side is the best!
Ali G: - East Side is the best!

(from Ali G Indahouse, Mark Mylod, 2002)
"

E daí? Daí que esse também dá força pra crise: Ao negar qualquer valor à CN, impede que seja combatido qualquer traço de heresia que possivelmente exista nesta comunidade. Isto porque toda heresia é feita de uma verossimilhança, obtida por um complicado esquema de manter boa parte das estruturas visíveis da ortodoxia e remover, discretamente, um ponto, substituindo-o por outro. Rejeitar a CN por inteiro é rejeitar boa parte do Catolicismo.

E a coisa mais difícil de se achar são pessoas mais preocupadas com coisas maiores do que consigo mesmas - por exemplo, a muito falada "maior glória de Deus", que implica um quase esquecimento das próprias preferências. Eu, por exemplo, prefiro ir para o céu, mas quando rezo o terço peço que Jesus socorra principalmente as almas que mais precisarem. Questão de prioridade, if you mind.

E não é nem porque eu sou bonzão, é porque o Anjo disse em Fátima e minha mãe e meu pai me ensinaram.

***

E eu vivo nesse meio, vendo tudo isso quase todo dia, entre tradicionalistas, carismáticos, teólogos da libertação, e principalmente gente desinformada e seguidora de batuque que acha que a tradição da Igreja tem cinco anos a mais que sua própria experiência na Igreja. A principal tentação de quem se vê no meio desse caos é a de somar ao seu desconforto uma crença numa vocação - a do Católico Melhor, que o sujeito acredita que deva ser (e deve sim, todo mundo deve tentar ser santo até a morte) e lá na frente acaba confundindo com o Catolicão, o Atanasium contra mundum que acha que a santidade de Atanásio estava em ele ser contra mundum, e não em ele ser... pro dominum! Não precisa ser santo: Como os Santos eram sempre diferentes, surpreendentes e até anti-sociais(!), basta ser exquisito. Basta fazer coisas que ninguém conseguiria entender. Como isto.

(Aqui o Pedro Sette Câmara deve estar querendo me explicar isso em termos Girardianos, duplo angélico e etc. A caixa de comentários é sua, Pedro).

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