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Sempre gostei de tomar meu Nescau de uma vez só.
Minha mãe ficava histérica. Minha avó só achava graça. A caneca cobria metade do meu rosto, só ficava de fora o bigode de chocolate e as duas bolotas dos olhos para lá e para cá se divertindo com o drama materno. “Pára pra respirar menina! Vai morrer asfixiada!” E eu ria sem parar de “gulp, gulp”.
Gosto de ler cada livro como se fosse uma caneca gigante de Nescau: De uma vez só, sem respirar. E isso está me dando insônia. Porque chego da livraria às sete, vou começar a ler às oito e só vou deitar às duas. Daí penso na história até as três, rolo até às três e quinze e dormir mesmo só às quatro. Tudo isso pra acordar três horas depois. Brabo.
Há ainda a questão óbvia de que nem assim consigo terminar um livro grande de uma tacada. Quando estou de folga ótimo, acordo e já emendo. Mas a vida é dura e ter que trabalhar no meio da história não é legal. Algumas soluções possíveis:
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Ler apenas contos e livros curtos.
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Ler um livro tão longo que a distância do final faça brotar resignação no meu coração.
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Ler livros chatos na cama para apagar no lugar certo.
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Parar de ler e gastar o tempo malhando.
Para esta noite, nenhuma das respostas anteriores.
Acabei relendo um HQ lindo e singelo que amo de paixão chamado “12 razões para amá-la”. É curtinho e faz você ter lindos sonhos. Para quem gostou do “500 dias com ela”, que ainda está em cartaz, a estrutura narrativa lembra bastante. E se você conseguir baixar as músicas indicadas em cada capítulo para ouvir junto… Bem, aí você não precisa de mais nada.
Bons sonhos e beijos insônes,
Rita
A incompreensão de raças é tão velha quanto “andar pra frente”. A cronologia da humilhação de negros e índios no Brasil remonta dos primórdios do descobrimento, quando a herança racista portuguesa, pra não dizer européia, chegou por aqui junto com Cabral, em 1500. No mesmo ano, Portugal iniciou o comércio de escravos negros para a América. O navegador português Bartolomeu Dias, célebre por ter sido o primeiro europeu a navegar além do sul da África, naufragou na mesma data, morrendo em frente ao Cabo da Boa Esperança. Ninguém sabe ao certo, mas é possível que sua carga era de negros escravos sendo levados aos mercados internacionais. A consciência branca naquela época era ganhar dinheiro com a inconsciência negra.
Cem anos depois (1600), negros foragidos dos engenhos de açúcar de Pernambuco fundaram o quilombo de Palmares, na serra da Barriga. Aquele oásis de liberdade foi se entulhando de escravos refugiados (chegaram quase a 30 mil), tornando-se uma “terra santa”, Terra da Promissão. Em 1605, a rebeldia dos escravos avança, enquanto na Europa Cervantes publica “D. Quixote” e Francis Bacon lança o seu “O Progresso do Conhecimento”. O mundo branco se intelectualiza, enquanto o mundo negro, ou fragmentos dele, se conscientiza, aos poucos, às escuras.
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Em 1630 os holandeses invadem o Nordeste, e quatorze anos depois, 1644, falham em expulsar os escravos e extinguir Palmares. Mas em 1654, os portugueses não falham em expulsar os holandeses. Um ano depois, nasce Zumbi, que mesmo antes da adolescência já é preso e dado ao padre António Melo, que o batiza com o nome de Francisco. Zumbi ajuda na missa, estuda português e se atrapalha no latim. A consciência negra gatinha, mas caminha. Em 1670, o filósofo holandês Espinosa publica a obra “Tratado Teológico-Político” e Pascal publica “Pensamentos”. Duas obras de grande envergadura, envergadura branca, claro. No mesmo ano Zumbi foge e regressa a Palmares, onde em 1675 mostra grande coragem na luta contra os soldados portugueses comandados pelo brutamonte Manuel Lopes.
Três anos depois, 1678, o governador da capitania de Pernambuco propõe ao chefe de Palmares, Ganga Zumba, a paz e a alforria para todos os quilombolas. A consciência branca sempre gostou de enganar a consciência negra. Zumba aceita, Zumbi não. Ele não admite que aja alforria para uns e não para todos. Na mesma época, na Europa, Van Leeuwenhock descobre os espermatozóides, Espinosa lança “Ética” e Racine publica “Fedra”. O pré-iluminismo vai tomando forma, forma branca, claro.
Em 1680, Zumbi comanda tudo e todos em Palmares, e enfrenta as tropas portuguesas de forma incessante. Mas a luta é desigual, mortal, selvagem e em 1694 ele recebe uma pesada artilharia, recebe as tropas de Domingos Jorge Velho e recebe também um ataque final, no principal mocambo de Palmares. Ferido, foge. Localizado em 20 de novembro de 1695, é degolado. Vira mito, vira lenda, vira único. Na mesma época, na Europa, o filósofo, cientista e matemático Leibniz publica “Novo Sistema da Natureza”.
No século XVIII, o iluminismo branco pressiona o imobilismo branquela e a consciência negra começa a ter alguma chance. Em 1761 a escravidão é abolida em Portugal. Em 1794 é abolida na França, e em 1823 o Chile a rasga de sua história. Em 1833 é a vez do Reino Unido, e em 1863, os EUA fazem o mesmo. Em 1886 a escravidão desaparece legalmente da Espanha e de suas colônias, e em 1888 o Brasil também decreta seu fim.
Em 2003, o dia 20 de novembro, data da morte de Zumbi, passa a ser oficialmente o Dia Nacional da Consciência Negra. Mais de cinco séculos se passaram, sendo que nesse período milhões de negros escravos foram dizimados pela humanidade branca. Ainda precisamos de “um dia” para refletir sobre a consciência negra porque mesmo depois de séculos de humilhação a consciência branca ainda não se libertou das correntes que arrastam seus pés pelos porões da ignorância.
► Para ir além:

Os fãs da banda já podem comemorar. Depois de cancelar uma série de apresentações em 2003, o Metallica finalmente vem ao país para dois shows em São Paulo e Porto Alegre, segundo informações publicadas em seu site oficial. As vendas começam em 1º de dezembro, no caso de São Paulo, e dia 3 do mesmo mês, no caso de Porto Alegre.
Os shows fazem parte da turnê de divulgação do álbum Death magnetic, 9º álbum de estúdio da banda.
(por James Scavone, via UoD)
E que tal esse spray com cheiro de livro para o Kindle? Não falta mais nada para a experiência da leitura digital ficar perfeita. Na verdade, só falta poder dobrar a orelha.
É literatura de identidade, com qualidade libertadora e a força da verdade. É sobre o prazer de ser, de ler, e um pouco da história disso tudo no Brasil.
Veja no vídeo o convite das organizadoras deste sarau, procure seu livro preferido - se não tiver, as meninas poderão indicar na hora - e participe.
Click here to view the embedded video.
Ontem a memória de Villa varreu os jornais, sites, TVs, rádios ou qualquer mídia que goste de ser minimamente respeitada. Durante o ano todo falou-se muito sobre a vida de Heitor Villa-Lobos, e muito de sua obra foi executada no Brasil e no mundo, celebrando os 50 anos de sua morte (17/11/59). Apesar disso tudo, desconfio que esse brilhante compositor carioca ainda seja um ilustre desconhecido para grande parte da nação, e no próximo ano, sem mais nada a comemorar, ele volte a ser um “estranho no ninho”. Compositor com viés erudito, mas sotaque popular, Villa-Lobos ainda não foi descoberto como devia, ainda não foi reconhecido com merecia e ainda não foi homenageado como não são grande parte daqueles que aqui nascem, crescem, mostram imenso talento, são aplaudidos nos fóruns internacionais, mas continuam ausentes das mentes e corações de seu povo. Isso sempre acontece em países que não privilegiam a memória. Por aqui, artistas precisam ter parte de sua obra queimada em incêndios caseiros para serem lembrados, cultuados e valorizados. Quando as chamas cedem, o poder público se apequena, o poder privado se esconde e a memória da nação vira cinza.
É sublime quando reconhecemos o talento de alguém que o tem. Assim como é magnífico quando alguém com igual talento reconhece o brilhantismo de outro. O pianista polonês Arthur Rubinstein (1887-1982) talvez tenha sido um dos mais consagrados e reverenciados virtuosos do século XX. Foi um mito do teclado, executando boa parte do repertório romântico, gravando uma enorme quantidade de obras, aclamado na Europa e EUA, sendo até hoje uma inspiração para um pianista como Nelson Freire, outra glória nacional da música clássica. Pois bem, em 1919 o gênio Rubinstein veio ao Brasil. Entre um passeio e outro pelo Rio de Janeiro, o pianista insiste em conhecer o compositor de quem Ernest Ansermet (maestro suíço) lhe falara com entusiasmo em Buenos Aires. Rubinstein, que já era consagrado internacionalmente, foi assisti-lo no cinema Odeon, onde Villa tocava musiquinhas banais sem maiores atrativos. Lá pelas tantas o compositor emplaca uma das Danças Africanas, e o pianista polonês impressionado, no intervalo, vai cumprimentar o autor. Villa (então com 32 anos), de forma até agressiva, lhe rechaça (”Vous êtes un virtuoso, vous ne pouvez pas comprendre ma musique!..”).
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Conta a professora moçambiquense Leonor Lains, que no dia seguinte, pelas oito da manhã no Palace Hotel, Villa, acompanhado de uma dúzia de músicos, chegou ao quarto de Rubinstein. Meio sem jeito, pede que este ouça algumas das suas obras, e como os colegas músicos trabalham à tarde e à noite, ele não tinha outro horário para lhe mostrar. O pianista ouve e fica novamente impressionado, nascendo daí uma relação de amizade que iria acompanhar Villa até o fim. Rubinstein torna-se seu protetor e passa a interpretar suas músicas em seus concertos, lançando na Europa a obra Prole do Bebé, de Villa. Em homenagem ao pianista, o compositor brasileiro escreveu em 1926 o seu Rudepoema. Muito do sucesso internacional de Villa Lobos deveu-se a Rubinstein ter reconhecido seu talento.
No dia 12 de julho de 59, em Nova York, no Empire State Music Festival, Villa dirige a Symphony of the Air, naquele que seria seu último concerto. Fazia parte do programa o “Choros Nº 6″, “Papagaio do Moleque”, “Uirapuru”, “Descobrimento do Brasil - 1ª Suíte” e, em primeira audição mundial, as quatro canções da “Floresta do Amazonas”, interpretadas pelo soprano Ellinor Ross. Foi aclamado mais uma vez, com grande reconhecimento de sua obra e talento. Quatro meses mais tarde, aos 72 anos, Villa estava sendo velado no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, sendo enterrado no Cemitério São João Batista. Na lápide de seu túmulo se lê: “Considero minhas obras como cartas que escrevi à posteridade sem esperar resposta”.
Villa-Lobos talvez tenha sido o mais brasileiro dos compositores brasileiros de música clássica. Pena que brasileiros não são muito bons em lembrar de brasileiros. A posteridade ainda está em dívida com o compositor.
Acompanhe abaixo Clélia Iruzun interpretando “Impressões Seresteiras”, de Villa-Lobos.
O programador e estudante de Filosofia (!!!) estadunidense Alexander Galloway esteve recentemente no Brasil para falar de redes digitais, controle e anonimato. Galloway nunca havia estado na América do Sul e, apesar de tímido, compartilhou generosamente sua sabedoria técnico-filosófica – a mesma utilizada no livro “Protocol - How Control Exists After Decentralization”.
Aqui no Brasil, o especialista em redes digitais falou sobre certas características essenciais - pré-condições - para a existência de uma rede: incongruência e assimetria. Talvez por isso o protocolo (de rede, como DNS e HTML) seja uma manifestação tão humana e socialmente rica - afinal, é imperfeição, é desequilíbrio, é abertura. Mais ainda: é distribuição de poder. O protocolo remete, de fato, à idéia mais fundamental de “etiqueta” – conjunto de regras aceitas formal ou tacitamente por uma coletividade. Pois não há como operar dentro do protocolo sem estar sujeito a todo ele e a suas limitações e regras. Deve-se entender que um protocolo é, em verdade, uma camada (de regras) sobre outra camada – a rede (web) em si, o substrato mais técnico que permite a comunicação à distância entre computadores. Quem aceita o protocolo, ou seja, quem usa a internet, deixa rastros, “pegadas na neve” que nem imagina. E é exatamente esse o maior ônus que quem usa a rede necessariamente paga: a concessão de dados, poder e controle sobre quem ele é, o que faz e quanto tempo passa em cada site.
Galloway adequadamente chama o protocolo de “a mais organizada mass media conhecida pelo homem”. De fato. Maciça, muito mais do que qualquer outra mídia; porém, com outras características muito distintivas, como agilidade, fluidez - e poder distribuído.
As possibilidades, mas, também, as vulnerabilidades dos comunicadores nunca foram tantas nem tão grandes como agora. Quando estiver passeando na rede, não se esqueça: queira ou não, saiba ou não, já aceitou o protocolo.
Uma feliz estudante brasileira, bem ou mal intencionada, doce, corajosa, retrato de uma geração deslumbrada com o exibicionismo, vai para Universidade com uma minissaia e recebe uma colossal manifestação de volúpia. Espanto, descontrole, medo, baixaria, polícia, jornais, capa de revista, “garota-mídia-2009”, debate sobre direitos da mulher, reitoria medieval, decisão desproposital, minissaia expulsa, ex-expulsa, mundo louco, repetitivo.
Para uma (ainda) elegante senhora de 75 anos, moradora de Surrey (sul da Inglaterra, perto de Londres), concentrada em escrever dois livros sobre sua vida, abrir os jornais da semana passada e ver o frisson brasileiro por conta de uma minissaia deve ter sido hilário. Jornal na mão, bebericando uma xícara de english tea, a dama deve ter sentido uma faísca de orgulho, e talvez até alguma emoção maior. A estilista Mary Quant, que na década de 60 inventou a minissaia, deve ter se jubilado quando 45 anos depois de sua invenção esta ainda provoca pequenas catarses mundos afora.
A inglesa Mary Quant, filha de um professor galês, ex-estudante de arte obcecada pela cor (estudou Belas-Artes no Goldsmith’s College), não foi só a responsável por subir alguns centímetros da saia. Mais do que isso, Quant “inventou” o joelho. Esse membro, localizado entre o fêmur e a tíbia, estava segredado, escondido, contido, esperando o seu momento de aparecer, de se despir e enlouquecer a tribo masculina.
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Não há novidade no fato. No final dos anos 50, Mary Quant passou a desenhar sua própria roupa e, anos depois, em julho de 1964, lançou sua mini skirt. A minissaia vinha ao mundo numa década cheia de conquistas femininas, cheia de lutas contra o preconceito e contra a tirania machista. Quando a moda da saia curta invadiu o planeta, invadiu também a mente libertária das mulheres, que mais do que exibicionismo queriam igualdade, respeito e reconhecimento. Ao lado do marido (Alexander Plunkett Greene, falecido em 1990), Quant abriu a loja Bazaar, na famosa King’s Road, em Londres, e seu saiote de 30 cm de comprimento, usado com botas altas, foi a consagração. O mundo da moda reverenciou o Swinging London (efervescência cultural modernista de Londres) e ficou entorpecido com a redescoberta de uma feminilidade que no pós-guerra estava adormecida. Quant expandiu sua rede de lojas (150 na Inglaterra, 320 nos EUA e milhares ao redor do mundo) e sua miniroupa tornou-se símbolo da vanguarda dos anos 60 e 70. O joelho feminino foi para os bares, festas, invadiu as ruas, as praças, abriu espaço no cinema e na mente da sociedade contemporânea.
Em 66, aos 32 anos, a estilista recebeu a Ordem do Império Britânico da rainha Elizabeth II (que devia morrer de inveja de não poder usar aquela invenção fashion). Quant, óbvio, usava na recepção uma vistosa minissaia. Sua carreira decola, e sua produção avança criando casacos e botas em PVC, acessórios, cosméticos, tudo descompromissado e jovem. Também lançou tops de crochê, roupas de malha canelada (aderentes ao corpo) e cintos largos jogados sobre os quadris.
Quant revolucionou a roupa feminina rompendo a secular barreira entre o vestuário formal e o informal. Vale registrar que em Paris, por volta de 1965, André Courrèges também estava reduzindo o comprimento dos vestidos, mas nunca se levou a sério a idéia de que alguém copiava alguém. O tempo foi soberano, e Quant ficou como autora da minissaia.
Como manda a via crucis da moda, ao final dos anos 70 a estilista já estava quase esquecida. Pressionada, vendeu seu negócio, ocupando-se depois apenas da parte cosmética e da criação para outras empresas. Em 1994, aos 60 anos, Quant lançou uma coleção de acessórios e uma nova linha de cosméticos. “É para que ninguém me esqueça”, disse a estilista à época. Continuou a ser uma mulher chique, nada conformista e adepta da vanguarda em sua produção. Em entrevista a France Presse, em 2004, afirmou que “o desejo pelo individualismo ficou hoje ainda mais forte, e as pessoas não querem mais regras para a moda, apenas querem idéias para seremr usadas de modo próprio”.
Em janeiro de 2009, Quant estava presente no lançamento do selo comemorativo British Design Classics, uma celebração aos ícones da criatividade britânica, sendo ela uma das eleitas a ter seu busto impresso nos selos. Pouco depois da cerimônia, em entrevista ao jornal Daily Telegraph, Quant matou a charada: “Eu cresci sem querer crescer. Crescer parecia terrível! Eu fiz o meu melhor para evitar envelhecer, no sentido sombrio da idade. Eu sempre tive medo de não aproveitar a vida. Acho que estar vivo é tão maravilhoso!. Não tinha medo da nada a não ser de não poder desfrutar a vida. Não pare nunca! Nunca dá para perder o interesse pela vida, você não concorda?”, perguntou ela ao jornalista.
Respondo eu: você tem razão, Mary, nunca dá para perder o interesse pela vida. A liberdade de viver como desejamos, vestir o que quisermos e ir onde queremos é inegociável.
Na semana passada fui surpreendida com a notícia de que a Carris, empresa pública de transportes de Lisboa, e a editora Objectiva distribuirão capítulos de livros nos ônibus para fomentar leitores. Ora, pois, pensei eu, que interessante! Duas empresas têm convergência de interesses e se juntam. Uma circula pessoas, e precisa transportar cada vez mais convencendo as que utilizam seus carros a deixá-los em casa e usar os coletivos públicos. A outra circula conteúdo, literatura, e da mesma forma precisa estimular as pessoas à leitura. Que ideia brilhante juntar interesses e levar algo interessante aos usuários.
Na próxima quinta-feira (19/11) o esquema começa a funcionar com um capítulo do livro “Querido Gabriel” (Dear Gabriel), do escritor norueguês Halfdan Freihow. A obra é um emocionante testemunho de amor e de laços familiares, descrevendo os medos que um pai tem perante um filho autista (Gabriel), e de como essa incerteza e angústia pode gerar ainda mais amor, compreensão e respeito entre eles. A obra, que foi nomeada para o Brage Prize, o prêmio literário de maior prestígio na Noruega, foi publicada em mais de 12 países e será distribuída aos passageiros em formato de bolso (trechos).
A editora planeja distribuir mais de 25 mil livros e não tem vergonha de dizer que os capítulos distribuídos servirão como uma “isca” para impulsionar as pessoas a lerem mais e, obviamente, a comprarem mais livros. Portugal é o país com menor número de leitores da União Européia, e segundo estatísticas, 54% dos portugueses não leem livros. Não vou nem colocar os números do Brasil para não desestimular os empresários nacionais, com negócios similares, e que poderiam sentar numa mesa e usar essa sugestiva ideia também por aqui.
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A Carril transporta diariamente mais de 600 mil pessoas, e a distribuição dos capítulos será feita nas linhas de maior movimento, quando jovens estudantes, contratadas e uniformizadas, entrarão nos veículos e conversarão com os passageiros para ver se estão interessados em ler um livro. A editora investirá perto de 3 mil euros para cada título, e a próxima obra, com trechos a serem distribuídos em dezembro, será “A Estirpe”
(The Strain), ou, “Noturno” na versão brasileira, do cineasta mexicano Guillermo del Toro e do escritor Chuck Hogan. O brasileiro “Eu que amo tanto”, livro de estreia de Marília Gabriela, também está programado para o projeto.
Claro que no Brasil as coisas seriam mais difíceis. Em horários de pico os ônibus circulam lotados, com a maioria dos passageiros em pé, sem espaço sequer para abrir um livro, quanto mais para entrar estudantes convencendo as pessoas a ler. Por aqui o projeto teria que ser adaptado, talvez adotar o metrô, ou os ônibus intermunicipais, ou interestaduais, ou talvez através das cooperativas de táxi, sei lá, só sei que a ideia é boa e merece ser pensada com esmero.
Uma coisa é certa, o apelo de oferecer conteúdo literário em troca de estímulo a literatura é inequívoco, vide a internet. As pessoas querem ler, querem ter livros, precisam deles, sabem disso, enxergam esse valor adicionado em suas vidas. Grande parte do problema das pessoas não lerem vem de bloqueio, travamento, preguiça de começar, ausência de estímulo, ignorância televisiva. O custo do livro talvez seja um limitador, mas a prática de ler, ou a ausência dela, limita tanto quanto. Não conheço ninguém que tenha começado a ler um livro por mês e tenha deixado de fazê-lo ao longo do tempo.
Livro vicia, dopa e traz dependência. Adoraria entrar em um ônibus e ver aquela legião de “zumbis” entorpecidos, babando, olhos profundos, dopados… todos com seus livros nas mãos.
Essa semana li um livro que achei super de compartilhar com vocês! Pra começar achei o título um barato, além de falar de um ser ,que eu ainda não conhecia de fato sua história, Lilith. Para quem não a conhece , ela estava presente no Jardim do Éden antes mesmo de Eva aparecer.Mas o livro não é somente sobre ela , o autor Genilson fala de várias coisas que nos ajudam a entender melhor nossa procura pela felicidade por meio de nossas escolhas e principalmente sobre ter consciência de quem somos.Resumindo , eu gostei muito de ler e recomendo, sem falar que o texto não é chato e nem burocrático, nem lembra auto-ajuda!
Então , fica a dica!

Entre os destaques recentes do site oficial dos Beatles estão o lançamento da discografia remasterizada em estéreo na versão USB, com pendrive no formato da maçãzinha da Apple, e a estréia, no History Channel, do documentário The Beatles on Record, às 22hs do dia 25/11.
Este é um post grande. Inspire, expire e tome tudo num gole só.
Como vocês devem ter notado, eu não segui o conselho do Murakami de escrever um pouquinho todo dia e abandonei o blog por meses. Também não comecei a correr em maratonas e, na verdade, estou cogitando largar a academia. É, o cotidiano pode ser muito triste, não é verdade? E é por isso que lemos fantasia, histórias que nos transportam para um mundo diferente do nosso. Um lugar onde não somos apenas comuns e tolos, mas heróis que podem salvar a humanidade. Tolkien constrói universos como esse, assim como Stephanie Meyer e Charlaine Harris (sim seu nerd preconceituoso, elas também). Vamos ver se vocês adivinham qual meu favorito.
O mundo de Tolkien é feito de batalhas épicas, raças fantásticas, personagens masculinos excelentes e umas poucas personagens femininas legais. Não se iluda com a Arwen da versão cinematográfica de “Senhor dos Anéis”: No livro ela é apenas uma princesa élfica dondoca esperando seu maridinho. A única que vale a pena é a Éowin e todos nós sabemos que ela não fica com o mocinho que ela queria no final. Mas até aí tudo bem porque como eu estava dizendo, há tantos personagens masculinos legais na história que mesmo a segunda opção da moça, Faramir, é uma boa empreitada. Enfim, é uma literatura que funciona mais para meninos do que para meninas (com exceção de algumas meninas bélicas e perturbadas tipo eu, mas isso é um detalhe).
Stephanie Meyer entretanto foi na fatia do bolo que pertence às garotas. Crepúsculo não é uma história de vampiros: é uma história de amor. Você espreme e não sai sangue, sai romantismo adolescente. O fato do galã ser vampiro só torna o “remake” de Romeu e Julieta ainda mais interessante.
E a Dona Meyer sabe o que está fazendo. Ela passa o primeiro livro construindo a relação do casal central e deixando todas as leitoras desesperadas por uma relação como aquela, viciadas na possibilidade de que uma menina comum como elas possa encontrar o amor verdadeiro (que já é um fetiche por si só), nos braços de um poderoso e bondoso (olha só o combo) vampiro.
E além disso todos os personagens são modelos da Calvin Klein e tem carros inacreditáveis. Daí no segundo livro um lobisomem sarado e bronzeado se apaixona por ela. Qualquer menina prosaica como nós (sim, querida, você também) ia querer ser um ímã de gostosuras sobrenaturais. Mas se você é maior de idade e quer mais do que uns beijinhos com as criaturas bizarras, vamos para a terceira autora.
Charlaine Harris.
Ok, até o nome da mulher é brega. A “foto do autor” na contracapa também não ajuda. Você começa a ler o primeiro livro da série de Sookie Stackhouse e pensa “por que diabos eu estou lendo esse lixo?” Era melhor ter comprado um da série “Bianca” numa banca de jornal. Mas você vence o seu preconceito e vai até o fim. E lê o segundo. E o terceiro. E no quarto a culpa já deixou o seu coração e você consegue assumir seu vício. Sookie é uma personagem cativante. Ela é caipira e durona, sabe manejar uma shotgun com a mesma agilidade com que serve mesas no bar onde trabalha, e tem problemas de relacionamento. É a verdadeira heroína da mulher contemporânea!
Quantas vezes você não quis ter uma shotgun para estourar a cabeça do babaca que te cantou na rua? Porque se você é mulher você sabe o quão ofensiva uma cantada dessas pode ser e a Sookie também! Ela bate nos contraventores com uma corrente! É Fantástico! Ela passa aperto com o pouco dinheiro que ganha e faz todo tipo de bico para pagar as contas. E ainda por cima está nas trepadas sobrenaturais mais picantes da história da literatura. Com ou sem namorado amiga, essa série dá um “boost” na sua libido. E os personagens ouvem Kenny G. Tem alguma coisa mais brega do que isso? Absolutamente genial.
Quem vence nesta corrida pelo meu coração?
Quando eu tinha 13, Tolkien (os meninos amadurecem mais tarde). Aos 16, se houvesse Crepúsculo meu login no IRC teria sido Bella (oh meu Deus como estou velha). Mas, cá entre nós queridos, eu já tenho 27. And the winner is…
Sookie Stackhouse series!!!
Já tem nove livros (o décimo sai em maio de 2010), uma coletânea de contos (“A touch of dead”, encomendável pela Cultura), série de TV (um pouco diferente, mas legal) e trilha sonora (excelente!). Se você fuçar na internet deve ter até camiseta. Em português só saíram dois volumes e o primeiro esgotou. Em inglês temos a maioria para entrega imediata. Se você não tem vergonha de se divertir e acha que a Becky Bloom não passa de uma anti-heroína mala, junte-se a nós neste “guilty pleasure”! Os outros livros da Charlaine eu ainda não tive coragem de ler. Só pela capa eu vou precisar de mais uns 10 anos para vencer este novo preconceito. E olha que eu já li coisas bizarras tipo “Confessions of a Werewolf Supermodel” (Sim, o livro existe. Não, não vale a pena ler).
Eu encerro este post declarando abertamente na internet que eu leio best seller sim.
O Saramago que me desculpe mas há momentos da sua vida em que ler “Ensaio sobre a cegueira” ou cortar os pulsos significam a mesma coisa. Curta seu momento sem preconceitos e você será uma pessoa mais feliz. E não venha com essa de “eu tenho tão pouco tempo para ler que não vou gastar com essas porcarias”. O tempo que você gasta lendo Sookie é o tempo que você gastaria folheando a Marie Claire e não lendo Sartre. Momentos diferentes para literaturas diferentes. Nem pior nem melhor, apenas diferente.
Leiam, assistam, e depois me dêem um toque pra gente fofocar.
E P.S.
Para aqueles que já leram: O Eric não é muito mais legal?
Brega Beijos,
Rita

O ator Jeremy Bulloch, que interpretou o caçador de recompensas Boba Fett na Trilogia Clássica de Star Wars, esteve ontem na Cultura do Market Place para noite de autógrafos. Bulloch visita o Brasil para participar da 10ª Jedicon, convenção brasileira de fãs de Star Wars organizada pelo Conselho Jedi São Paulo, aguerrido grupo de fãs de cuja equipe de organização tive o orgulho de fazer parte. Para os menos versados na saga de George Lucas é difícil entender o carisma do personagem Boba Fett, que aparece durante não mais que 5 minutos nos filmes O Império Contra-Ataca e O Retorno de Jedi. Fett cativa os fãs pelo visual e a armadura, sem dúvida alguma, e Goerge Lucas se redimiu, na nova Trilogia de Star Wars, da pouca atenção que deu ao personagem na Trilogia Clássica. Boba e seu pai Jango são um pilar importante da saga depois da nova Trilogia, e o carinho dos fãs para com Bulloch e vice-versa conferimos ontem lá no Market Place. Foi muito bacana estar ao lado dele, principalmente para mim que sou grande admirador do personagem. Depois dos autógrafos Bulloch jantou conosco e bateu papo na praça de alimentação. A Jedicon acontece amanhã, 14/11, das 10hs às 18hs e os detalhes estão no link.
Fernanda Montenegro é uma unanimidade. Dos companheiros de palco aos de plateia, dos assíduos em novelas aos assíduos do cinema, ninguém foge dos elogios e da unanimidade que essa atriz impõe. Pessoas se juntam numa roda, e quando a conversa ilumina Fernanda todos são unânimes e generosos nas palavras, e mesmo aqueles que nunca a viram no palco, ou que nem lembram de quem se trata ficam cúmplices nos afetos que sua personalidade incita.
Agora temos mais fôlego para essa adorável tietagem. A recém-lançada biografia “Fernanda Montenegro - A Defesa do Mistério”, escrita por Neusa Barbosa, e que faz parte da coleção “Aplauso“, editada pela Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, é uma excelente oportunidade para conhecermos mais sobre essa estupenda “obrera dos palcos”.
Neusa, jornalista, crítica, pesquisadora, com passagens pelo Estadão, Folha de S. Paulo, revista Veja, Bravo e Wish Report é uma artesã da biografia, tendo escrito também “John Herbert – Um Gentleman no Palco e na Vida”, “Rodolfo Nanni – Um Realizador Persistente” e “Gente de Cinema – Woody Allen”. Tem também um olhar atento sobre a arte cinematográfica, com experiência na cobertura de grandes festivais (Cannes, Veneza, Brasília, Recife, Gramado, etc.) e uma forte personalidade crítica.
“Esta biografia tem um formato especial porque reproduz a fala da pessoa. Então, o mais difícil foi estruturar o que ela dizia, tentando ser fiel à sua linguagem, montando uma ordem cronológica do que ela contava”, explicou no Bate-Papo UOL esta semana.
Descrever a trajetória de uma atriz com quase 60 anos de teatro e TV, mais de 200 teleteatros, 56 peças, 20 novelas e 16 filmes não é uma tarefa simples. Neusa conta que conseguiu o telefone comercial de Fernanda, falou com seu secretário, explicou o que queria, ela topou, agendaram, conversaram, e conversaram, e conversaram e quatro anos depois o trabalho estava pronto. O titulo “A Defesa do Mistério”, segundo Neusa, “tem a ver com umas coisas poéticas de que ela fala no livro. E também com o fato dela ser reservada. Tem uma parte do que ela é que ela não revela, é só dela”.
Continue lendo:
Neusa gosta de ler a meticulosa Barbara Leaming (biografou Orson Welles, Marilyn Monroe e Katharine Hepburn), e cinema imperdível para ela tem assinatura de David Lynch, Stanley Kubrick, Federico Fellini, Walter Salles, Beto Brant e vários outros. É colaboradora do site Cineweb (www.cineweb.com.br/).
La Montenegro não é só uma grande atriz, mas também uma grande mulher. Autêntica, fiel as suas causas, intelectual e doce, muito doce, como percebi recentemente aqui em São Paulo, quando fui vê-la em “Viver sem tempos mortos”, um monólogo retratando a vida da escritora francesa Simone de Beauvoir. Fernanda nem precisava de tanta unanimidade (nem sei se gosta dela), mas precisava dessa biografia, precisava de Neusa, precisava de mais espaço na literatura biográfica de nossa cultura.
Achei genial o site Unurth, do americano Sebastian Buck, que reúne obras de arte-de-rua do mundo todo. Tem obras da Alemanha, Portugal, Brasil, China, de diferentes estilos e que agradam aos mais variados gostos. Dá uma olhada em algumas das fotos e confira todas aqui.

Os Gêmeos, Gigante, São Paulo

Adres, Lisbon

Escif + Fasim, Valencia

Armsrock, Light Works, Eindhoven
Eles estão de volta. A notícia, publicada esta semana nas principais mídias do mundo, anunciou que James Taylor e Carole King voltam a se apresentar juntos em 2010. Desde a década de 70 os dois não faziam uma tournée em conjunto, sendo que em 2007 realizaram três curtos shows para arrecadar fundos. As apresentações foram no 50º. Aniversário do The Troubadour Club (Los Angeles), clube que em julho de 1969, quando Taylor fazia sua estréia-solo, viu de repente King subir no palco vencendo um medo absurdo (e já patológico) de enfrentar o público lá de cima. Aquele dia ficou marcado e a carreira de ambos depois daquela apresentação deslanchou e nunca mais parou.
O maior sucesso de Taylor é uma canção composta por King, “You’ve got a friend”, que permanece no imaginário de muita gente como um porto seguro para onde as pessoas voltam quando o “barco ameaça afundar”. No vídeo abaixo podemos ouvi-la, interpretada pelo próprio Taylor, tendo King ao piano, numa gravação de 1971. Sei que vocês e o resto da humanidade já o viram setenta vezes! Ele está até “gasto”. Mesmo assim essa é minha homenagem ao retorno da dupla em 2010. Voltam bem mais velhos, mais calejados, estradas e mais estradas de rodagem, músculos flácidos, pele enrugada, coração repleto de cicatrizes, boca e nariz secos de tantos vícios, cabelos raros e um olhar distante, perdido, perdido no tempo, perdido nos quase quarenta anos de amizade que nunca os separou, mesmo quando deixaram de dividir o palco.

Na manhã de 15 de Novembro de 1889, sexta-feira, um grupo de pessoas caminha em direção ao Campo de Santana, Rio de Janeiro. Dizem os historiadores republicanos que eram jovens ansiosos, apreensivos, determinados, sendo a maioria militar, de baixa patente, de instrução superior, também chamados de “mocidade militar”. Andavam com passos largos, altivos, tendo entre eles um chefe-maior, um Marechal, que se juntara ao grupo na véspera e que desejava a defesa da honra, da honra militar. Todos à frente, andar de comando, andar de luta, luta que não houve, mas não sabiam. Havia vontade e a liderança do mestre, do catequizador, do norte, do farol que iluminava suas esperanças: Benjamin Constant.
Quando o Marechal Deodoro, chefe militar da “operação”, passou pela Rua do Ouvidor, onde ficavam os principais jornais cariocas, como “O Paiz”, de Quintino Bocaiúva, ou o “Diário de Notícias”, de Rui Barbosa, sentiu firmeza e confiança, como descrevem os biógrafos republicanos. Quando entrou no Quartel-General do Exército, houve alguma hesitação nas fileiras opostas, e Deodoro, hábil, rápido, perguntou autoritariamente: “Então, não me prestam continência?“. Marinheiros, policiais e demais militares presentes, representantes do Império, em resposta apresentaram as armas. Na sequência, Deodoro exigiu a eminente demissão dos Ministros (Gabinete do Visconde do Ouro Preto) e relaxou. Como tinha sido fácil.
Mas o Marechal não pensava em proclamar nada, muito menos a República. Para ele era um golpe de Estado, uma retaliação, uma conspiração contra os Ministros que estavam incompatibilizados com as forças armadas. O levante contra o governo imperial, contra a Monarquia de D. Pedro II, não estava previsto para ser uma revolução com intuito de formar uma República. Para Deodoro, e outros, mas não todos, a intenção era só trocar o Ministério. O próprio Marechal, pouco antes de entrar no QG do Exército, olhou para seus comandados e bradou: “Viva Sua Majestade, o Imperador!”
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Todavia, para os jovens oficiais e para Benjamin Constant, a cena era mais do que um rompante de milicos. Mais do que depressa o grupo correu para o Marechal mostrando que aquela era a hora, e que precisavam aproveitar os acontecimentos para destruir os laços que restavam com a monarquia portuguesa. No meio das conversas, no centro da confusão, chega um mensageiro informando que o Imperador havia escolhido Gaspar Silveira Martins para ser o novo primeiro-ministro. “Quem?”, teria gritado o Marechal. Deodoro dobrou-se em fúria, já que Gaspar e ele haviam em tempos de juventude disputado a mesma mulher. Mais convencimento para derrubar o regime o Marechal não precisava, e por volta das três horas da tarde daquele 15 de Novembro, alguns republicanos, políticos e vereadores (José do Patrocínio, Olavo Bilac, Luís Murat, Pardal Mallet, etc.), no recinto da Câmara Municipal do Rio de Janeiro, lavraram solenemente o documento que proclamou a República no Brasil. Um espanto para a grande maioria.
Ninguém esperava que o reinado viesse abaixo, muito menos o velho Imperador, então com 63 anos. Na véspera, quinta-feira, ao final do dia, D. Pedro lI escrevia sonetos despreocupadamente em seu palácio de Petrópolis. Por outro lado, naquele mesmo momento, véspera da República, o marechal Manoel Deodoro da Fonseca, 62 anos, estava em Andaraí, na casa do irmão, tentando se recuperar de seus habituais ataques de palpitação e falta de ar. Quarenta e oito horas depois, D. Pedro lI estava detido no palácio imperial do Rio de Janeiro, onde escrevia uma carta acatando o exílio, partindo em seguida do Brasil e deixando para trás 250 anos da dinastia que exerceu total controle sobre o País. Quase na mesma hora, Deodoro, cansado e debilitado pelos “malditos problemas de respiração”, deitava-se em sua cama, não mais como um militar de carreira, mas como o chefe do governo provisório, o homem mais poderoso do País.
A história escrita pelos republicanos é fértil em tentar provar que a monarquia caiu de podre, e que a República era um arrebatador anseio popular. Mais que isso, são pródigos em dizer que tudo foi ardilosamente combinado, planejado e organizado nos mínimos detalhes. Mas será que foi assim?
D. Pedro II e a princesa Isabel eram super admirados pelas pessoas humildes, sendo que grande parte delas, pouco tempo antes, ainda era escrava. O golpe foi em Novembro, mas nas eleições de Agosto do mesmo ano o Partido Republicano não conseguira eleger mais do que dois deputados. O dia 15, e os atos que levaram a República, estão recheados de confusão e tem poucos indícios de organização. A exceção dos tiros que feriram o Ministro da Marinha, não houve sangue, não ocorreram retrocessos para restaurar a monarquia, não houve desordem nas ruas, passeatas, comercio fechado, euforia, bandas republicanas cantando hinos de independência, nada disso. O Brasil acordou imperial e dormiu republicano.
Ainda bem que foi assim. Ainda bem que ficou assim e que chegamos até aqui. Ainda bem que o País não tem histórias de sangue republicano para contar, como a Revolução Francesa. Ainda bem que somos livres e republicanos, embora, talvez, por termos tido uma história tão simples, também sejamos ainda um povo alienado, mal formado politicamente e crente nas ilusões do discurso fácil, ralo e débil.
Viva a República!
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falam, ali na hora (enquanto o apagão rolava lá fora), sobre o prêmio Portugal Telecom 2009. Nuno levou o primeiro lugar com Ó, veja o comentário dele sobre o livro. Edney foi o mestre de cerimônias e fez um excelente talk show com os dez indicados antes do resultado, aqui ele comenta a importância da premiação e o resultado da 7ª edição do evento. Click here to view the embedded video.
ganha prêmio Portugal Telecom de Literatura 2009. O artista plástico Nuno Ramos é também agora um escritor consagrado. Seu livro Ó recebeu ontem o primeiro lugar deste que é, há 7 anos, um dos mais prestigiosos troféus para autores de língua portuguesa. Na pequena entrevista feita pelo jornalista Edney Silvestre com cada um dos concorrentes, antes da revelação dos vencedores, o artista disse em tom confecional que desde sempre sonhou escrever como forma de expressão, mas o desafio das artes plásticas foi mais forte, apesar de incialmente ter tido certo repúdio pela ’sujeira’ das tintas. Nuno já namora as letras há tempos, em 1993 lançou Cujo; em 2001, O pão do corvo; e em 2007 Ensaio geral.
O segundo lugar foi para o livro Acenos e afagos, do veterano escritor gaúcho João Gilberto Noll. E o terceiro ficou com A arte de produzir efeito sem causa, do também mestre da HQ Lourenço Mutarelli.
Nuno Ramos e seu editor Samuel Leon, da Iluminuras, com o troféu Portugal Telecom 2009, merecidamente ganho pelo livro Ó.
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O maestro Ennio Morricone completa hoje 81 anos. É difícil decifrar a sensibilidade desse homem, considerado o maior compositor italiano de todos os tempos em trilhas sonoras para cinema. É uma daquelas personalidades a quem os deuses da música deram poderes ilimitados, tal a sua capacidade de juntar de forma brilhante e única a música e as imagens cinematográficas. Romance com Morricone ao fundo é êxtase. Ação ao som do maestro romano é imbatível. Orgulho, vaidade, tristeza, felicidade ou qualquer outra sensação que os filmes queiram transmitir é pura elegia quando Morricone assina a partitura. É tão embriagador que já não sei se o filme é bom porque é bom, ou se é bom porque é dele a música. Filme ruim com o maestro na regência é “aquele que… humm… não me lembro bem como é, mas a música é linda… maravilhosa!”.
Hoje é dia de festa na vida do maestro, que ainda tem uma carreira extremamente produtiva, rica em trabalho, gloriosa em prêmios (quase levou o Grammy Hall of Fame de 2009), e sempre acompanhada de grandes cineastas. Anote aí alguns com quem o maestro já trabalhou (inacreditável): Elio Petri, Gillo Pontecorvo, Henri Verneuil, Bernando Bertolucci (1900), Clint Eastwood, Sergio Leone (Era Uma Vez Na América), Terrence Malick (Cinzas no Paraíso), Marco Ferreri, Brian de Palma (Os Intocáveis), Giuseppe Tornatore (Cinema Paradiso), Roman Polanski, Barry Levinson, Roland Joffé (A Missão), John Boorman, Wolfgang Petersen (Na Linha de Fogo), Mike Nichols, Pier Paolo Pasolini, Alberto Lattuada, Don Siegel, Edward Dmytryck, John Carpenter, Samuel Fuller, Pedro Almodóvar (Atame!), Franco Zeffirelli, Warren Beatty (Segredos do Coração), Oliver Stone, etc., etc., etc…
Mais de 450 filmes, consagrado como Cavaleiro da Legião de Honra da França e premiado com o Oscar Honorável, Morricone ainda hoje trabalha como um “operário da arte musical” (autor da trilha da mais recente obra de Giuseppe Tornatore, “Baaria”, apresentada este ano em Cannes). Em pleno século XXI, com mais de 50 anos de composição e regência, o maestro ainda é um profundo influenciador das novas gerações de compositores, músicos e cineastas.
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Fã desvairado da obra de Marricone, Quentin Tarantino, atual enfant terrible das telas, o convidou para musicar seu ultimo trabalho, “Bastardos Inglórios”, mas dificuldades de calendário o impediram. Mesmo assim, Tarantino usou e abusou dos temas do maestro em seu filme (já os tinha usado em “Kill Bill”), fraseando passagens sublimes com fragmentos de trilhas anteriores do compositor.
Suas partituras são repletas de detalhes, com harmonias complexas, compassos carregados do melhor leitmotiv, andamentos assimétricos e melodias sublimes que encantam qualquer ouvido humano. Ao longo da carreira as gravações de Morricone receberam mais de 30 discos de Ouro, 7 de Platina e uma infinidade de outras premiações concedidas a alguém que atravessou o tempo e as malhas de Hollywood, fazendo sucesso sem deixar de lutar contra a mediocridade (“um compositor que não tem o conhecimento e capacidade de orquestrar suas próprias composições não pode ser chamado de compositor”).
Parabéns, maestro! Não esquecemos de você, nunca. Não se esqueça de nós, continue.
Abaixo: “Cinema Paradiso”, com regência do próprio Morricone.












