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Culpa burguesa é aquela coisa pastosa, quase sólida, que deixa os filmes made in Bananão mais crocantes e os livros mais cremosos. Só que faz mal à beça: consumida em excesso, pode transformar você na Regina Casé.
Vai por mim. Cinema brasileiro, só grelhado -e olhe lá.
Semana difícil e pouquíssimo inspirada, mas pelo menos na sexta-feira eu tinha de passar aqui para postar alguma coisa. Hoje, a música da jukebox é de Mark Lanegan, que surgiu como vocalista dos Screaming Trees, uma das primeiras bandas de Seattle a assinar com uma grande gravadora. Para o meu gosto, no entanto, o trabalho solo do Lanegan, em discos como "Whiskey for the Holy Ghost" (belo título), é mais interessante que o do seu antigo grupo. Ele tem também bons "projetos paralelos" -dois álbuns com a Isobel Campbell, ex-Belle and Sebastian, e um com Greg Dulli, ex-Afghan Whigs, sob o nome Gutter Twins- e participações em trabalhos de bandas como o Queens of the Stone Age ("Songs for the Deaf"). Clicando no player aí embaixo, vocês podem ouvir "Wheels", que está no terceiro álbum solo de Lanegan ("Scraps at Midnight", lançado em 1998). Bom fim de semana.
É dificílimo ler um texto sobre Jonathan Richman em inglês que não contenha palavras como "quirky", "eccentric" e similares. Não que isso esteja errado, pelo contrário -afinal, trata-se de um precursor do punk, cuja voz já foi classificada como "adenoidal", que grava músicas sobre a dificuldade de encontrar um jeans que sirva, outras com nomes do tipo "Sou um Aviãozinho" e às vezes álbuns inteiros em espanhol ("Te Vas a Emocionar!"). Talvez por isso mesmo, virou uma figura cult: não há ninguém parecido com Richman, que deve ser mais conhecido no Bananão por sua participação naquela bobagem que é "Quem Vai Ficar com Mary?".
A música da jukebox de hoje é da primeira formação do grupo de Jonathan Richman, os Modern Lovers, com o futuro talking head Jerry Harrison nos teclados. O primeiro álbum da banda, muito influenciado pelo Velvet Underground, foi gravado em 1973, mas saiu apenas em 1976; clicando abaixo, vocês podem escutar a faixa de abertura, "Roadrunner", que está no meu top five de músicas-para-ouvir-ao-volante. Bom fim de semana!
Post rápido só para avisar que há uma goiabice na "Playboy" deste mês, com aquela ex-bebebê bunduda na capa. Na seção "Happy Hour", na página 28, tento provar em um texto curto que João Gilberto (qüem-qüem) é um dos maiores playboys de todos os tempos. Não sei se consegui, mas espero que, entre uma foto e outra, vocês se divirtam.
O vídeo acima -dica do Estado Civil- integra a série "mil razões para gostar do YouTube". Já mencionei aqui, de passagem, o talk show do Charlie Rose, que é considerado um dos melhores da TV americana. Pois bem: o cineasta Andrew Filippone Jr. editou um dos episódios do programa e conseguiu transformá-lo... numa peça do Samuel Beckett (um "monólogo a dois", como vocês verão). O que me faz pensar que isso seria ainda mais fácil no Bananão, onde certos talk shows, sem edição nenhuma, já parecem extraídos de alguma peça do Ionesco; pena não termos tido a idéia antes.
Enfim, cliquem aí em cima, have fun.
Update: parece que a versão "embedded" do vídeo não está disponível devido a manutenção no YouTube, mas você pode vê-lo clicando aqui.
Atrasada hoje, mas ainda é sexta-feira, afinal. Deixo vocês com o bandoneón de Astor Piazzolla e o sax barítono de Gerry Mulligan em "Years of Solitude", composta pelo primeiro -talvez a faixa mais conhecida (e minha favorita) de "Summit", álbum que o argentino e o americano gravaram em 1974. Espero que os senhores apreciem. Bom fim de semana!
Não se fazem mais cantores da estirpe de Waldick Soriano, em cujas músicas o grande dilema da condição humana -ser ou não ser corno- ganhava reverberações de tragédia grega. Até porque, como em toda tragédia digna do nome, a opção "não ser" não existia de fato; também os deuses corneavam e eram corneados naquela putaria que era o Olimpo.
Ainda temos Odair José, è vero; mas, mesmo assim, tiro meu chapelão preto e meus óculos escuros, mesmo metafóricos, para Waldick. RIP.
Em breve, no blogue de Caetano Veloso, sensacional embate de idéias entre o gênio da emepebê e o último velhinho positivista de Vitória de Santo Antão. Não percam! (Claro, é de presumir que o velhinho não saiba "mexer com a internet" e só se manifeste por cartas -ou melhor, missivas. O que não impedirá o compositor de lhe dedicar um post-réplica de 7.800 caracteres, sem espaços. Muito menos de dizer que, num país de Primeiro Mundo, já lhe teriam cortado a pensão da Rede Ferroviária Federal.)
Um fantasma ronda a velha Europa, França e Bahia -o fantasma da chatice. E todas as potências não fazem porra nenhuma para conjurá-lo: a chatice procria, prolifera, grassa, multiplica-se, move il sole e l'altre stelle, engloba tudo e nos engolfará em si mesma. Inclusive -ou sobretudo- porque reclamar dela já é receber a carteirinha de sócio do clube dos chatos e não reclamar é se expor aos serial killers do seu saco. Teria minha adesão imediata uma religião que advertisse seus fiéis de que o mundo não perecerá pelo fogo e pelo enxofre, mas pelo pé-nas-gônadas ("olhai e vede, irmãos -não é o dióxido de carbono que provoca o aquecimento global, e sim a produção desenfreada de chatice!"). Ou que trocasse slogans como "in hoc signo vinces" por algo como "cut the crap". Ou que elevasse a chatice ao status de 8º pecado capital -nem seria preciso rebaixar luxúria e gula para a Série B, embora fosse desejável. O catolicismo chegará a isso um dia? A julgar pela programação da Rede Vida, as chances são mínimas.
(This is the way the world ends/Not with a bang, but a bummer.)
Que tal um Miles Davis de boa safra? Aqui vai "It Never Entered My Mind", standard da dupla Rodgers & Hart, gravado em 1956 para o álbum "Workin'". Era a época do "primeiro quinteto clássico" do trompetista, mas o sax tenor de John Coltrane está ausente dessa gravação, em que Miles é acompanhado por Red Garland (piano), Paul Chambers (baixo) e Philly Joe Jones (bateria). Espero que apreciem -e bom fim de semana para vocês.
Sim, vocês estão vendo meu blogue todo torto (o que não acontece quando ele é lido com o Internet Explorer). E não, eu não sei como resolver -estamos trabalhando para estar descobrindo. Stay tuned, que o puragoiaba já volta, com mais cubismo involuntário e idéias fora do lugar.
Update: Aparentemente, resolvido. Foi só reduzir o número de posts na página. O problema parece ser com o player do MP3Tube no Firefox.
Tenho idade suficiente para me lembrar dos bons tempos pré-urna eletrônica. A tecnologia acabou com a coisa mais legal das eleições, talvez a única realmente bacana, que era poder desenhar pirocas na cédula na hora de votar. Ingenuamente, eu acreditava que, eliminada essa diversão, teríamos como contrapartida um upgrade na "festa da democracia" -mas nela, como já escrevi, não se pode beber e, pelo menos lá onde eu voto, só tem gente baranga. Parece a Grande Festa Chata planejada e nunca posta em prática no meu tempo de faculdade, sem o Cynar e a Malt 90 quente.
Brinque você também de expressionismo abstrato:
(A dica é do Thiago, a quem agradeço.)
Todos esses seres que estão "à frente do seu tempo" precisam ser uma espécie de Usain Bolt -melhor, algum recordista de corridas de fundo, de longuíssima distância. Porque, se parar de correr, o tempo chega por trás com tudo e enraba: crau. Prefiro, modestamente, ficar um pouco atrás do meu tempo, só observando. Com a bunda no muro, por via das dúvidas.
Ouço na tevê esta música aqui, que é tema de abertura de uma das novelas da Grobo. Só consigo pensar que, na pouco provável hipótese de eu tropeçar numa lâmpada mágica com gênio dentro e o sujeito me conceder a realização de um único desejo, eu escolheria ressuscitar o Gonzaguinha -apenas para ter o prazer de matá-lo de porrada. Forgive me, oh Lord.
O Love é uma das minhas bandas de roque preferidas, apesar de ser, como o nome sugere, um bando de hippies californianos (na verdade, o líder e principal compositor, Arthur Lee, nascera em Memphis). De todas as bandas psicodélicas em evidência na segunda metade dos anos 60, deve ter sido a que menos fez sucesso -e é, hoje, a que ficou menos datada. O melhor do grupo está nos quatro primeiros álbuns, com faixas esparsas em alguns outros; seu terceiro disco, "Forever Changes", lançado no final de 1967, aparece com regularidade (e merecidamente) em listas de melhores do gênero. A música da jukebox de hoje não está nesse álbum, e sim no segundo, "Da Capo" -a pré-punk "Seven & Seven Is". Bom final de semana.
Pus de volta foto e frase principal daquela cena de "Sindicato de Ladrões", com o Marlon Brando e o Rod Steiger. Resume a coisa -e também este país.
Não há dúvida de que o meio-campo mais filosófico do futebol brasileiro era o do Corinthians no início da década de 80, com Sócrates, Zenon e o maior de todos os empiristas, Biro-Biro. Durou pouquíssimo. Enquanto Sócrates se dedicava a corromper a juventude com toquinhos de calcanhar e Biro comia a bola, Zenon, dito de Eléia, ficava parado no círculo central -afinal, o movimento era uma ilusão e, se a bola rolando na verdade estava em repouso, por que correr atrás dela, não é? De nada adiantavam os gritos dos colegas. Num dia em que a bola parada foi parar no fundo do gol corintiano, Zenon discutiu com o árbitro: ficou meia hora tentando provar que o 1 a 0 no placar era falso, mediante detalhadíssima explicação do argumento da flecha e do paradoxo de Aquiles e da tartaruga, até que o juiz o expulsou por chatice ("olha, meu filho, 'cê vai ser dialético lá no chuveiro, está bem?"). Foi o melancólico fim da carreira do eleata, que depois não conseguiu vaga nem em esquete do Monty Python.
Joseph Brodsky (1940-1996)
Também eu aguardei na colunata
da Bolsa, outrora, o fim da chuva fria.
Julgava-a dom de Deus. E era sensata
minha suposição. Pois algum dia
também eu fui feliz. Fui prisioneiro
dos anjos. Combatia monstro horrendo.
Feito Jacó, fitava sorrateiro
uma beldade -rápido- descendo
a escada principal.
Aonde tudo
se foi. Sumiu. Olho janela afora:
o "aonde" acima, eu o escrevi, contudo,
sem ponto de interrogação. Agora
é setembro. Um trovão distante invade
meu ouvido. Eis um horto. Pêras pensas,
cheias de seiva nas ramagens densas,
parecem signos de virilidade.
E o ouvido admite, como gente avara
parentes na cozinha, um som assíduo
de chuva que, na mente, sem chegar a
música ainda, é mais do que ruído.
("Quase uma Elegia", 1968. A tradução é de Boris Schnaiderman e Nelson Ascher.)
Dorival Caymmi, mestre do 12º dan em preguiça, RIP.
Quase postei uma música dele na sexta, cantada pelo João Gilberto; ficou para a edição extra de hoje. Clicando aí embaixo, vocês podem ouvir, com o próprio Caymmi, sua voz de baixo e seu violão, "Noite de Temporal", que fecha o álbum "Caymmi e Seu Violão", de 1959 (discão, podem ir atrás).
Bom domingo.








