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Date: Sunday, 15 Nov 2009 23:11

Excepção feita à excitação inicial com o primeiro artigo na Time Out e não voltei a maçar-vos com convites para programa de televisão x, estação de rádio y, ou jornal z. Mas desta vez é diferente. É uma coisa pequena, simples e discreta. E é precisamente por isso que, mais que me gabar, gostava de a partilhar com quem aqui passa. Este blogue tem, a partir de hoje e durante 2 meses, uma pequena exposição no Wind Club em Oeiras. E foi com um orgulho particular que vi alguém lembrar-se que, aquilo que aqui faço, valia a pena ser exposto.
Hoje almocei por lá e certifiquei-me que, caso cheguem à conclusão que nem as fotos nem os textos valem a visita, a degustação de pastas do Chef Paolo Pasquini justifica a viagem. Quanto aos posts emoldurados...não estão obviamente à venda. Estão sim, a partir desde mesmo momento, prometidos a cada um daqueles que lá aparecem. E a verdade é que, num dia feio como este, aquelas molduras (e o bonito prefácio que me escreveram) me asseguram um sorriso...um belo sorriso de Domingo
Hoje almocei por lá e certifiquei-me que, caso cheguem à conclusão que nem as fotos nem os textos valem a visita, a degustação de pastas do Chef Paolo Pasquini justifica a viagem. Quanto aos posts emoldurados...não estão obviamente à venda. Estão sim, a partir desde mesmo momento, prometidos a cada um daqueles que lá aparecem. E a verdade é que, num dia feio como este, aquelas molduras (e o bonito prefácio que me escreveram) me asseguram um sorriso...um belo sorriso de Domingo
Date: Friday, 13 Nov 2009 08:47

Nasci em 1980 por isso, nem que seja para salvaguardar qualquer piada fácil, sou daqueles que tende a defender a importância dos anos 80. Mas no que à aparência e à forma de vestir diz respeito tenho a impressão que passámos os 90 a gozar com os 80. Com as permanentes delas, com a laca deles, com os estampados e as cores berrantes de uns e a ostentação de outros. Mas suponho que em parte da década seguinte a o que quer que seja se perca sempre algum tempo a ridicularizar o que acabámos de fazer. Até porque a chacota sobre aquela década parece terminar quando alguém chama à baila a música e as 1001 colectâneas que se fizeram sobre esses anos. Eu era apenas um miúdo e é provável que as páginas centrais da revista do Correio da Manhã (onde por acaso não abundavam nem roupa nem bom gosto) que folheava discretamente no barbeiro me tenham impressionado mais que a queda do Muro de Berlim, os enchumaços volumosos ou leggings hiper-coloridas. Mas tenho sempre os 80 como uma década vincada. E agora…à boca do seu 30º aniversário, é bem provável que muita da coisa que foi então cool e passou a obsoleta vire moda outra vez. E foi isso que este sueco de boa aparência me fez recordar. Que aquilo que um dia foi tido como bom vai, muito provavelmente, voltar a sê-lo.
Eu acho que a questão que agora se coloca é:
- Quando é que o vocalista dos a-ha – aquele tipo que descobriu o elixir para a eterna juventude – se vai voltar a vestir assim?
Date: Tuesday, 10 Nov 2009 08:02


Conheci o Fábio aqui. E reconheci-o no seu trabalho, onde entrei, com uma lata que tenho vindo a aperfeiçoar, e lhe perguntei se o podia fotografar. Acho que mais do que pessoas que vestem bem ou mal há, no que ao trajar diz respeito, dois tipos de pessoas. Aquelas que vestem o que querem e aquelas que vestem aquilo que os outros lhes permitem vestir. Eu nunca passei do segundo grupo mas adoro quando encontro alguém do primeiro
Date: Monday, 09 Nov 2009 22:41

Ter reflexos ajuda. E eu não os tive em dose suficiente quando passaram por mim pela primeira vez. O Pedro ia agarrado ao telemóvel e o Lourenço já empurrava a porta de casa quando percebi que me tinha acabado de cruzar com os miúdos perfeitos para um primeiro post sobre crianças. Praguejei um bocado e lá subi o resto da rua inconformado por ter deixado escapar entre dedos uma fotografia assim. É que não deve ser tarefa fácil…afinal de contas não me imagino a acenar com a cabeça ao primeiro estranho que me aparecesse à frente a dizer que gostaria de fotografar os meus filhos (e provavelmente se o dito estranho insistisse muito ainda me disponibilizaria para lhe dar umas chapadas)
Por estas e por outras fiquei radiante quando ontem, precisamente duas semanas depois de nos termos cruzado à sua porta, voltei a encontrar o Pedro e o Lourenço no Rossio. Agora, para tudo ser perfeito, só falta mesmo receber um e-mail dos pais, não a ordenar-me que remova daqui a foto, mas a agradecer que enviasse as outras duas ou três que lhes tirei
Date: Sunday, 08 Nov 2009 14:59


Percorri metade do Príncipe Real num passo apressado. Apressado mesmo...não queria perder esta foto por nada. Acho que se o tivesse fotografado em Milão teria dado comigo a pensar que apenas ali poderia encontrar alguém tão elegante. Mas não, é Lisboa… E o mais interessante é que nada ali se assemelha ao que uso. O corte do fato, o colarinho da camisa, a largura da gravata ou o par de ténis (brancos) que nunca uso com casaco. Mas é isto que eu mais gosto – deixar-me impressionar por aquilo que costumo deixar de lado. Quanto ao modelo…disse-me que se chamava Hugo. Mas para mim…mais que a Hugo, soa-me a Hugo Boss. E para que conste, não é para o Hugo que o trocadilho é lisonjeiro…mas para a Boss
Date: Saturday, 07 Nov 2009 08:15


Estava cansado e deitei-me. Achei que acordaria fresco e com energia para escrever um texto que fizesse justiça às imagens e à cidade. Mas não, acho que não vai resultar. Acabei de trocar o nome próprio a alguém que me endereçou um convite particularmente interessante…e depois, (imediatamente a seguir a me ter desculpado e rectificado o engano) não contente o suficiente, encaminhei de novo o e-mail para a pessoa em causa, pensando que o fazia para minha irmã, a troçar da minha própria bacorada e ironizando “show de bola do Alfaiate”. Belo show Zé…belo show… Há alturas em que convém reconhecer que o melhor mesmo a fazer é ficar calado. Queria falar do Rio, do seu encanto, dos cariocas, da particularidade de aqui, antes do interesse pela forma como se aparece vestido, toda gente se parecer preocupar com a forma como se apresenta despido e de outras mil pequenas coisas que me tinham ocorrido antes. Mas não, melhor mesmo é ficar quietinho (e calado) e deixar o Léo e a… (não me lembro…e parece-me que não é o dia certo para tentar arriscar) falarem por si. Melhor assim…
Sancha - um vestido "bon chic bon genre", uma montra com um poema de Al Berto e uma vida com garra, dedicada à cidade 

Date: Friday, 06 Nov 2009 12:25


De ontem a Domingo os comerciantes do Príncipe Real vão estar abertos das 10h às 23h promovendo os seus espaços das mais variadas formas. O florista Em Nome da Rosa (estes gajos não são nada parvos…vou ao Google e o nome "deles" aparece antes do Umberto Eco) decidiu convidar a minha amiga Sancha Trindade (outra que não é nada parva) para estar na sua montra parte destes dias festivos.
Antes de mais importa dizer que tenho inveja da Sancha. Sempre que falo com ela tem um novo projecto em mãos (ou na cabeça) [ou na imaginação] e isto para um bancário é quase arma de arremesso. Aliás…gosto de pensar que o tempo que demorei a convencer a minha namorada a jantar comigo pela primeira vez está relacionado estritamente como a minha actividade profissional. Imagino o 007 a não sacar uma única gaja se dissesse às tipas que conhece que, nos tempos em que não estava a aquecer a Guerra Fria ao serviço de Sua Majestade, estivesse a tentar aprovar crédito a uma pequenas empresas e a espetar-lhes meia dúzia de produtos financeiros (a sério…queria vê-lo). Mas enfim…nem os simpáticos floristas da Dom Pedro V nem eu somos parvos e não é por acaso que a Sancha ali está e que eu estou aqui, ainda de pijama vestido, a (tentar) escrever uma crónica que lhe faça justiça.
A Sancha está ali porque uma montra pode ser um local privilegiado para alguém que escreve tão apaixonadamente por Lisboa, observe atentamente aqueles que cá vivem e aqueles que por cá passam. E é a isso que se tem dedicado a Sancha – a escrever sobre Lisboa. Seja, na revista Única do Expresso, na GQ ou no Lisbon Golden Guide (e noutros tantos sítios que agora não me lembro e que não tenho tempo para ir pesquisar). Mas vá…no fundo no fundo não é por nada disso que a Sancha está aqui. Nem sequer pelo bonito vestido com que a BCBG a vestiu. A Sancha está aqui porque, muito antes de me passar pela cabeça ter um blogue (quanto mais chamar-lhe Alfaiate), me motivou a fazer alguma coisa. Alguma coisa minha, feita por mim e para mim, fosse ela, gerar ou não, uma "margem financeira" entre o tempo que nela se despende e os dividendos que dela se tira. Hoje, essa coisa dá pelo nome deste blogue. E, algures lá num momento distante, estavam as palavras da Sancha, desta feita não sobre a cidade mas sobre aquilo que eu devia fazer da vida. E assim encerro uma semana dedicada (e só agora me dei conta) aos projectos de 3 mulheres. Uma filha, um livro e uma cidade. Encerro-a com Lisboa na ponta dos dedos
Date: Wednesday, 04 Nov 2009 22:27

Sim eu sei. Tem uma granda pinta. Mas a verdade é que a Maria não está aqui tanto pela sua pinta como por aquilo que se dispõe a fazer pela pinta alheia. A forma mais correcta de a apresentar seria provavelmente como fashion adviser ou personal stylist mas a quantidade de textos delico-doces que já escrevi por aqui já não me dão margem para termos amaricados. Ou seja, para mim a Maria é, em primeiro lugar, uma gaja porreira (a minha irmã disse-me que eu não devia escrever “gaja” mas eu não tenho culpa que os meus pais tenham aprimorado mais a educação dela que a minha). Segundo, é alguém com visível legitimidade para dar uns bitates sobre a aparência alheia e terceiro, alguém com uma enorme sensibilidade estética. A Maria aposto, é daquelas raparigas que sempre teve mais olho para os trapos que as amigas. A quem, naquelas duas ou três semanas de férias no Algarve, as amigas iam pedir não sei quantas dicas e uma resma de peças de roupa emprestada. Alguém que desde cedo, olhava os familiares de alto a baixo e formulava os seus próprios juízos sobre se, naquele dia, estavam mais ou menos “estilizados” do que aquilo que era costume. E imagino a Maria, muito objectiva, a passar por uma montra e a discernir com um breve olhar o que realmente importa daquilo que não lhe interessa – e de resto, já pensaram na quantidade de coisas importantes para o destino da humanidade que podemos fazer se nos despacharmos a escolher roupa?
Dizer que não se importam com a forma como aparentam já não pega. Quem é que não se preocupa com o que veste, com o que parece e com a forma como é visto? Podia ir sacar à net excertos de 1001 tratados sociológicos, alguns mais maçudos, outros mais interessantes, de não sei quantos académicos com quocientes de inteligência impressionantes, que juram a pé juntos que o senso e a verdadeira percepção do Eu só aparecem em função daqueles que nos rodeiam e da forma como estes nos vêem. A forma como nos vestimos é apenas mais um exemplo disso mesmo e não adianta negar que todos sentimos uma disposição, um conforto e um bem-estar diferentes quando nos sentimos bem com aquilo que trazemos por cima do corpo. Até porque a sensação é boa, e como tudo o resto que é bom, depois de experimentar, ninguém quer prescindir de voltar a sentir. E a Maria, cheira-me, conseguirá experimentar essa sensação – e dá-la a experimentar – muitas mais vezes do que a esmagadora maioria de nós.
Não vou gastar muito tempo com o facto de a Maria ter estado numa escola de moda xpto, ter participado no New York Fashion Week e ter já um curriculum simpático a vestir gente exigente com aquilo que veste. Para quem estiver curioso sobre isso tudo fica aqui o link e mais uns valentes milhares de resultados em qualquer motor de busca. Eu prefiro concentrar-me nas empatias engraçadas que se estabelecem entre as fotografias que tiro e meia dúzia de factos concretos. Por ora, falo-vos no livro que a Maria lança oficialmente amanhã. Tanta Roupa e Nada para Vestir. Acho que com ou sem o “tanta roupa” já toda a gente se sentiu sem "nada para vestir" para ocasião x ou y (acho que vou começar a recorrer a incógnitas…quase que conferem um fundo científico às parvoíces que aqui escrevo). Podemos sempre dar uma de blazés e fingir que isto não é nada connosco mas acho que dá muito menos trabalho assumirmos que, grande parte de nós, aceitaria de bom grado uma dica ocasional. O Alfaiate não vai virar páginas amarelas mas, no que diz respeito à Maria, estou contente por a ter aqui. E para que não fique link por explorar, deixo-vos o mais óbvio mariaguedeslisboa.blogspot.com.
Dizer que não se importam com a forma como aparentam já não pega. Quem é que não se preocupa com o que veste, com o que parece e com a forma como é visto? Podia ir sacar à net excertos de 1001 tratados sociológicos, alguns mais maçudos, outros mais interessantes, de não sei quantos académicos com quocientes de inteligência impressionantes, que juram a pé juntos que o senso e a verdadeira percepção do Eu só aparecem em função daqueles que nos rodeiam e da forma como estes nos vêem. A forma como nos vestimos é apenas mais um exemplo disso mesmo e não adianta negar que todos sentimos uma disposição, um conforto e um bem-estar diferentes quando nos sentimos bem com aquilo que trazemos por cima do corpo. Até porque a sensação é boa, e como tudo o resto que é bom, depois de experimentar, ninguém quer prescindir de voltar a sentir. E a Maria, cheira-me, conseguirá experimentar essa sensação – e dá-la a experimentar – muitas mais vezes do que a esmagadora maioria de nós.
Não vou gastar muito tempo com o facto de a Maria ter estado numa escola de moda xpto, ter participado no New York Fashion Week e ter já um curriculum simpático a vestir gente exigente com aquilo que veste. Para quem estiver curioso sobre isso tudo fica aqui o link e mais uns valentes milhares de resultados em qualquer motor de busca. Eu prefiro concentrar-me nas empatias engraçadas que se estabelecem entre as fotografias que tiro e meia dúzia de factos concretos. Por ora, falo-vos no livro que a Maria lança oficialmente amanhã. Tanta Roupa e Nada para Vestir. Acho que com ou sem o “tanta roupa” já toda a gente se sentiu sem "nada para vestir" para ocasião x ou y (acho que vou começar a recorrer a incógnitas…quase que conferem um fundo científico às parvoíces que aqui escrevo). Podemos sempre dar uma de blazés e fingir que isto não é nada connosco mas acho que dá muito menos trabalho assumirmos que, grande parte de nós, aceitaria de bom grado uma dica ocasional. O Alfaiate não vai virar páginas amarelas mas, no que diz respeito à Maria, estou contente por a ter aqui. E para que não fique link por explorar, deixo-vos o mais óbvio mariaguedeslisboa.blogspot.com.
Date: Monday, 02 Nov 2009 19:46

Nunca dou grande crédito quando alguém me diz que houve determinado dia que mudou a sua vida porque A se cruzou com B enquanto C ia para cama com D que por sua vez se desiludiu profundamente com E. Mas a verdade é que não tenho grande legitimidade para me pôr com cepticismos extremos em relação a esoterismos alheios que eu também tenho a minha meia dúzia de momentos que, por um motivo ou por outro, marcaram o que estava para vir depois. Lembro-me, lá para meados de Abril do ano passado, a Time Out ter dedicado um número ao engate (hei-de pensar num sinónimo que não nos ponha logo a pensar em dois estranhos em cima um do outro), às 1001 formas de se poder conhecer pessoas interessantes e aos sítios que aquela redação achava mais indicados para que isso acontecesse. Lembro-me de achar que o editorial desse número parecia recear que o artigo não fosse levado a sério. Não era necessário. Eu levo a sério o momento em que meto conversa com alguém. Afinal de contas, não precisei que ninguém me apresentasse a minha namorada para lhe ir falar um dia. Momentos como esses, abordagens rápidas, às vezes meio suicidas, podem marcar uma vida ou, ao menos, parte dela. Estou-me a lembrar também que conheci a minha melhor amiga (aquela a quem atendo o telefone quando estou sentado na retrete) numa festa do caloiro da faculdade de um amigo meu. Quando um de nós meteu conversa com o outro pela primeira vez, não lhe ocorreu certamente que teria ali um amigo para a vida. O flirt, para além das primeiras ideias que nos atropelam desde logo o pensamento: da promiscuidade, da sedução, da tensão sexual e de meia dúzia de hormonas aos saltos; é às vezes a única forma possível de um rapaz e de uma rapariga iniciarem uma amizade
(conto-vos a história sobre como conheci a Ana porque acho que mudou para sempre a forma de me relacionar com as mulheres)
Era o último dia de aulas e tinha-me prometido que o dia não chegaria ao fim sem tentar fazer algo. Dificilmente sairia dali alguma coisa brilhante mas no que a raparigas diz respeito sempre achei que aquele adágio do “antes arrependeres-te do que fizeste que do que deixaste por fazer” ganhava toda a propriedade. Percebi que ela ia sair do liceu. Tal qual o dia anterior calculei o tempo que ela levaria a chegar à saída pelo caminho apenas acessível a professores e funcionários e tal qual o dia anterior cruzámo-nos junto ao portão. Segui-a a uns metros de distância e tentei perceber de imediato onde estava estacionado o carro, o mesmo cuja matrícula me continuo a lembrar dez anos depois. Já depois deste episódio, posso ter sentido algum entusiasmo ou agitação, mas não me recordo de ter voltado a sentir o coração bater a uma velocidade daquelas por causa de alguém que não conheço. Estava prestes a meter-me com uma professora do meu liceu e mesmo que dali em diante apenas me arriscasse a cruzar com ela num dos exames nacionais a que estava inscrito não deixava de me arriscar a fazer uma tremenda figura de parvo. Pouco antes de ela chegar ao carro abordei-a. Entre os disparates que balbuciei na altura só me lembro de atropelar palavras sobre palavras e de me sair qualquer coisa como “não podia deixar que o ano terminasse sem vir falar consigo”. A Ana já tinha a porta do carro aberta e perguntou-me, com um olhar que não deixava perceber o que estaria a achar de tudo aquilo:
- Mas então não tem nenhum assunto para tratar comigo?
Abri os braços e enquanto abanava a cabeça disse:
- Não professora. Bem que me dava jeito ter uma desculpa para falar consigo mas não tenho
Ainda hoje recordo este episódio com uma gabarolice descomunal. E ainda ontem disse à Ana (como digo quase sempre que a vejo) que aquele dia mudou a minha forma de me relacionar com o sexo oposto. Mas ela nunca me leva a sério. Acho que hoje, dez anos volvidos e a menos de dois meses de ser mãe, vai finalmente levar
Date: Sunday, 01 Nov 2009 04:43

Não há ninguém designado para o efeito. É como se, entre o meu grupo de amigos, a "mão invisível" do Adam Smith assegurasse que um de nós se lembra de avisar todos os outros quando há Chocolate City no Lux. Por entre a minha malta há uma certa queda pelo Hip-Hop e R&B e, em particular, por essas noites em que terminam comigo, quase sozinho na pista, virado para a Yen Sung e o seu convidado, a fazer figuras que fazem lembrar um bêbado a dançar o Roxanne na recta final duma festa de casamento. E só quando lhe perguntei o nome – porque gosto sempre de saber o nome de quem fotografo – percebi que me preparava para fotografar a minha D.J. favorita; a única mulher para quem posso passar a noite toda a olhar, a cantar e a esbracejar sem que a minha namorada faça caso disso.
O colorido do calçado da Yen lembra-me como, há uns bons 10 anos, me chegou a primeira descrição do Lux – a discoteca onde se podia entrar de ténis. Mas, apesar de contrastar radicalmente com os vela e as camisas aos quadrados com que rumávamos religiosamente à porta de um edifício branco na 24 onde, segundo a etiqueta local, se deveria passar a noite de copo na mão a dançar com os olhos, não foi pela indumentária que a revolução que o Lux protagonizou na noite lisboeta me tocou particularmente. Nesse campo parece-me que se limitou a adiantar uma tendência. Não foi também pelo espaço fantástico, pelas inovadoras projecções ou pela programação musical. Ou pelo menos – agora que me recordo do quão impressionado e saloio me senti da 1ª vez que lá entrei – não foi isso o mais relevante.
A noite é um mundo à parte. Parece-me uma regra basilar de qualquer negócio fazer-se por tratar bem aqueles que garantem a sua subsistência. Mas na noite, verifica-se uma inversão de lógicas que nos conduz a uma função, segundo a qual, quanto mais sucesso tem um espaço nocturno, mais legitimidade parece ser reconhecida ao seu staff para maltratar quem por lá passa. A simpatia e a afabilidade da Yen acabaram por me remeter para o imenso respeito que nutro pelo Lux. Eu gosto do Lux, de muita da música que por lá passa, do espaço amplo, do seu pé-direito, dos gajos giros e das gajas boas, da varanda, do terraço, das projecções nas paredes e de mais um sem número de coisas... Mas o que eu gosto mesmo do Lux é de algo que nunca encontrei numa outra discoteca portuguesa. É do respeito com que se trata quem lá entra. É perceber que os seguranças estão lá, como o próprio nome sugere, para assegurar a minha segurança. É saber que posso contar com uma casa de banho asseada num momento de aperto e, constatar, que a senhora que a limpa me parece mais simpática e educada que tantas supostas vedetas que promovem tantos outros espaços nocturnos. É saber que, ao dirigir-me a um bar, me vão servir uma bebida decentemente, apresentar um estojo de 1ºs socorros caso me aleije ou, simplesmente, saber que mesmo sem ter um decote generoso ou amigos lá dentro, haverá, algures, alguém disponível a quem me possa dirigir.
Ainda no final do Verão do ano passado jurei que nunca mais entrava num sítio que começasse com a letra K quando, à saída daquele bonito espaço ao ar livre junto ao rio, e depois de ser ameaçado por um segurança a quem tinha dito que devia ter cuidado para não empurrar quem por ele passasse, vi um outro esbofetear um cliente. Mas, (ainda) mais que a dita bofetada, impressionou-me a inexistência de qualquer censura perante aquilo. Como se todos aqueles que ali estavam – colegas e clientes – assumissem que ver um mono com hipertrofia muscular achar-se no direito de fazer justiça pela sua própria vontade fosse apenas uma vicissitude da “noite”. E pronto…no fundo é isso. Sinto que se um dia me acontecer algo de muito bom e for para o Lux festejar (e beber muito para além da minha conta) arrisco-me provavelmente a que me acompanhem à porta e que me digam o que disseram um dia a um amigo meu:
- Desculpe mas não vai ser possível. E amanhã quando cá voltar, vai-nos agradecer por não o termos voltado a deixar entrar.
Não vos posso assegurar que no Lux só trabalha gente educada e bem formada, nem faço ideia de quantos episódios desagradáveis lá ocorrem por noite. O que eu sinto, bem ou mal, é que há lá uma fundo. E que esse fundo, parece dizer a quem lá trabalha que os clientes são para ser estimados. Isto não devia ser motivo de elogio. Mas é. E foi já na pele deste blogue que acho que descobri o porquê de tudo isto. Cruzei-me um dia com o Manuel Reis. Não é uma figura fácil. Tem uma silhueta interessante mas o porte e o semblante carregado não convidam à abordagem. Mas falei-lhe...falei-lhe no Alfaiate e perguntei-lhe se o podia fotografar. De tão educada e elegante que foi a sua recusa, que fui para casa com a sensação que tinha acabado de tirar a mais bonita fotografia para o blogue. Como se, naqueles 30 segundos de diálogo, tivesse percebido o porquê de o Lux ser diferente. Nem tanto pelas doses industriais de gajas giras que lá vão, pelo som que por lá se passa ou por aquele magnífico Terraço que, neste Outono tépido, ainda se mantém convidativo. Por nada disto, apenas pela sua delicadeza e pelo seu trato.
O colorido do calçado da Yen lembra-me como, há uns bons 10 anos, me chegou a primeira descrição do Lux – a discoteca onde se podia entrar de ténis. Mas, apesar de contrastar radicalmente com os vela e as camisas aos quadrados com que rumávamos religiosamente à porta de um edifício branco na 24 onde, segundo a etiqueta local, se deveria passar a noite de copo na mão a dançar com os olhos, não foi pela indumentária que a revolução que o Lux protagonizou na noite lisboeta me tocou particularmente. Nesse campo parece-me que se limitou a adiantar uma tendência. Não foi também pelo espaço fantástico, pelas inovadoras projecções ou pela programação musical. Ou pelo menos – agora que me recordo do quão impressionado e saloio me senti da 1ª vez que lá entrei – não foi isso o mais relevante.
A noite é um mundo à parte. Parece-me uma regra basilar de qualquer negócio fazer-se por tratar bem aqueles que garantem a sua subsistência. Mas na noite, verifica-se uma inversão de lógicas que nos conduz a uma função, segundo a qual, quanto mais sucesso tem um espaço nocturno, mais legitimidade parece ser reconhecida ao seu staff para maltratar quem por lá passa. A simpatia e a afabilidade da Yen acabaram por me remeter para o imenso respeito que nutro pelo Lux. Eu gosto do Lux, de muita da música que por lá passa, do espaço amplo, do seu pé-direito, dos gajos giros e das gajas boas, da varanda, do terraço, das projecções nas paredes e de mais um sem número de coisas... Mas o que eu gosto mesmo do Lux é de algo que nunca encontrei numa outra discoteca portuguesa. É do respeito com que se trata quem lá entra. É perceber que os seguranças estão lá, como o próprio nome sugere, para assegurar a minha segurança. É saber que posso contar com uma casa de banho asseada num momento de aperto e, constatar, que a senhora que a limpa me parece mais simpática e educada que tantas supostas vedetas que promovem tantos outros espaços nocturnos. É saber que, ao dirigir-me a um bar, me vão servir uma bebida decentemente, apresentar um estojo de 1ºs socorros caso me aleije ou, simplesmente, saber que mesmo sem ter um decote generoso ou amigos lá dentro, haverá, algures, alguém disponível a quem me possa dirigir.
Ainda no final do Verão do ano passado jurei que nunca mais entrava num sítio que começasse com a letra K quando, à saída daquele bonito espaço ao ar livre junto ao rio, e depois de ser ameaçado por um segurança a quem tinha dito que devia ter cuidado para não empurrar quem por ele passasse, vi um outro esbofetear um cliente. Mas, (ainda) mais que a dita bofetada, impressionou-me a inexistência de qualquer censura perante aquilo. Como se todos aqueles que ali estavam – colegas e clientes – assumissem que ver um mono com hipertrofia muscular achar-se no direito de fazer justiça pela sua própria vontade fosse apenas uma vicissitude da “noite”. E pronto…no fundo é isso. Sinto que se um dia me acontecer algo de muito bom e for para o Lux festejar (e beber muito para além da minha conta) arrisco-me provavelmente a que me acompanhem à porta e que me digam o que disseram um dia a um amigo meu:
- Desculpe mas não vai ser possível. E amanhã quando cá voltar, vai-nos agradecer por não o termos voltado a deixar entrar.
Não vos posso assegurar que no Lux só trabalha gente educada e bem formada, nem faço ideia de quantos episódios desagradáveis lá ocorrem por noite. O que eu sinto, bem ou mal, é que há lá uma fundo. E que esse fundo, parece dizer a quem lá trabalha que os clientes são para ser estimados. Isto não devia ser motivo de elogio. Mas é. E foi já na pele deste blogue que acho que descobri o porquê de tudo isto. Cruzei-me um dia com o Manuel Reis. Não é uma figura fácil. Tem uma silhueta interessante mas o porte e o semblante carregado não convidam à abordagem. Mas falei-lhe...falei-lhe no Alfaiate e perguntei-lhe se o podia fotografar. De tão educada e elegante que foi a sua recusa, que fui para casa com a sensação que tinha acabado de tirar a mais bonita fotografia para o blogue. Como se, naqueles 30 segundos de diálogo, tivesse percebido o porquê de o Lux ser diferente. Nem tanto pelas doses industriais de gajas giras que lá vão, pelo som que por lá se passa ou por aquele magnífico Terraço que, neste Outono tépido, ainda se mantém convidativo. Por nada disto, apenas pela sua delicadeza e pelo seu trato.
Mas todos nós sabemos, que para fazer uma discoteca tão especial, tudo isto não chega. Falta a Yen. E cheira-me que não vou esperar até à próxima noite de Chocolate para a voltar a ouvir. Aliás, este post deixou-me a cantarolar uma certa música do Sérgio Godinho da qual tanto gosto, com vontade de lhe adulterar a letra e trocar 3ª por 6ª feira, e dizer que vou (lá para as 5 da madrugada) não à ladra mas ao piso de baixo do Lux. É lá que vai estar a Yen hoje. Eu vou. Do you?
Date: Thursday, 29 Oct 2009 08:31

Chiara. Foi assim que me disse que se chamava. Está em Lisboa há 10 anos e é cantora. De resto, a pose e o trato (até mais que a indumentária) induziram-me de imediato a pensar que estaria perante alguém com veia artística. Fiquei curioso por saber o que cantava ao certo mas, como já não havia tempo para descobrir, sugeri-lhe que me enviasse um e-mail a contar. E enviou. Mas escreveu-me que, à semelhança do que tinha descoberto neste blogue, preferia que fosse eu a contar a história desta fotografia que ela a contar a sua. Eu não tenho pretensões como promotor cultural. Sou apenas teimoso. O e-mail disse-me que a Chiara é Chiara Picotto e o Google tratou do resto. Entre os 14 600 resultados que achei este foi o que se me pareceu mais com a Chiara com que cruzei no Camões. Mesmo ali, junto àquele exaustor que faz qualquer mulher de saia ou vestido ter, quando menos espera e sem que ninguém a avise de antemão, aqueles 3 segundos de Marilyn Monroe no seu vestido branco. E agora sim Chiara, a história desta fotografia está contada
Date: Wednesday, 28 Oct 2009 06:12

O Stéphane é parisiense e, depois de se assegurar que não tinha que pagar nada – porque por melhor que me explique em inglês, francês, espanhol ou italiano não há turista que consiga confiar num tipo moreno de barba depois de lhe terem tentado impingir meia dúzia de vezes remisturas gitanas de haxixe e cocaína enquanto descia a Rua Augusta – lá acedeu amavelmente em ser fotografado. É um facto…do Hard Rock Café ao Terreiro do Paço parece haver uma espécie de zona franca onde é permitido vender aquela porcaria a todos os que por lá passem. Ali parece encontrar-se o paraíso do mais descerebrado dos traficantes porque, para experimentar qualquer problema com a autoridade, terá mesmo que tentar vender qualquer coisa... à própria autoridade [Não não...aparentemente não chega fazê-lo a 5 metros da autoridade (palavra que não). Quanto a oferecê-lo a um agente da autoridade, fica o desafio para um traficante mais audaz] Sou abordado em média por 5 anormais - o número triplica quando carrego a máquina - para comprar todo o tipo de porcaria que consiga passar por substância ilícita. E ainda não distribuí uma cabeçada num destes empecilhos que me abordam agressivamente (sim...agressivamente) porque: 1º, onde está um estão logo mais dois ou três; 2º, gosto de pensar que no dia seguinte posso lá passar descansado; 3º, gastei dinheiro de mais na minha máquina para a estragar por causa de uns trastes que andam a burlar turistas (aparentemente o termo burla não é familiar aos agentes de autoridade que já tentei sensibilizar porque todos me responderam que como “o que eles vendem não é mesmo droga não há nada que possamos fazer”)
Mas ó Stéphane desculpa lá que o que eu te disse foi que isto é um blog onde “je publie des photos des gens dont j´aime le style” e não de pretensa crítica social. E uma das coisas que mais gostei em ti meu caro… foi que não tinhas uma única peça de roupa que fosse parecida com o que quer que possa encontrar no meu guarda-roupa e, não obstante, te achei de uma elegância e bom gosto incríveis. Acredita...não uso camisas justas, calças de tons esbranquiçados, sapatos pontiagudos ou relógios rectangulares e, no entanto, essa tua pinta de mosqueteiro do século XXI caiu-me tão bem… Resta-me esperar que tenhas um amigo português em Paris (rezam as crónicas que não é difícil) porque de que me adianta estar aqui a dar-te chutos no ego se tu nunca vieres a saber dos mesmos, não é?
Mas ó Stéphane desculpa lá que o que eu te disse foi que isto é um blog onde “je publie des photos des gens dont j´aime le style” e não de pretensa crítica social. E uma das coisas que mais gostei em ti meu caro… foi que não tinhas uma única peça de roupa que fosse parecida com o que quer que possa encontrar no meu guarda-roupa e, não obstante, te achei de uma elegância e bom gosto incríveis. Acredita...não uso camisas justas, calças de tons esbranquiçados, sapatos pontiagudos ou relógios rectangulares e, no entanto, essa tua pinta de mosqueteiro do século XXI caiu-me tão bem… Resta-me esperar que tenhas um amigo português em Paris (rezam as crónicas que não é difícil) porque de que me adianta estar aqui a dar-te chutos no ego se tu nunca vieres a saber dos mesmos, não é?
Mas insisto…fico a fazer figas para que um dia o filho do António Costa tenha necessidade de fazer a rua Augusta de máquina na mão. Tenho a certeza que, tal triste é o cenário que ali se vislumbra, fosse por brio de chefe do executivo camarário ou amor de pai, as coisas por ali não voltariam a ser como são hoje. Porque o menos engraçado de tudo isto - sabes qual é Stéphane? - é que até parece que estou a exagerar. Mas não estou. Palavra que não estou
Date: Sunday, 25 Oct 2009 11:41
.O Diogo é a 1ª pessoa que aqui aparece (excepção feita a meia dúzia de amigos que fotografei) que já conhecia o blogue. É uma sensação gira. Por mais gente que aqui venha existe uma vida para além da blogosfera e é engraçado pensar que nesse mundo real feito de pessoas de carne e osso com quem me cruzo na rua, no cinema ou no supermercado haja também quem por aqui passe. O Diogo estuda Design de Moda e isso, cliché ou não, nota-se. É natural esperar-se de alguém que estude Moda que a veja – e sai outro cliché – para além do horizonte que os outros a avistam. Mas os clichés, note-se, existem por algum motivo. Existem porque fazem realmente sentido. Transformam-se em clichés no momento em que deixam simplesmente de dar estilo. Que é como quem diz, no momento em que deixam de levar miúdas giras para a cama. Resumindo…não estou à espera que toda a gente adore a riqueza que a mescla que o bigode à monarca da dinastia de Bragança, o casaco de malha que podia ter sido da sua avó, as calças que parecem compradas a um vendedor senegalês e os sapatos que eu gostaria de usar na casual Friday que não tenho no trabalho trouxeram a este blogue. Eu sei…eu sei…parece que estou a gozar. Mas não estou. O Diogo quanto mim, estude lá o que ele estudar, é um miúdo muita giro. E sem querer parecer antidemocrático, para mim...é ponto final parágrafo
Date: Saturday, 24 Oct 2009 08:40

- Seus documentos por favor.
“Já me lixei” pensei comigo (foi outra a expressão que me passou pela cabeça mas não vejo necessidade de inaugurar outro tipo de vocabulário por aqui). A Ana, uma argentina a viver no Rio há dois anos, tinha insistido para que não me ficasse pela zona mais turística e oferece-me uma boleia até ao Centro. Disse que não me preocupasse por não ter capacete pois "dava caronas" desde que ali vivia e isso nunca tinha sido problema antes. Quando viajo tenho por hábito pôr-me nas mãos, no bom senso e nas vivências daqueles que lá vivem – seja há 2 anos ou há uma vida inteira. A conversa tinha começado pelos motivos do costume. Não há um raio de sol, eu ando de shorts e alças mas percebo que os cariocas aproveitam o seu Inverno (aos meus olhos meramente teórico) para usar os casacos e as camisolas que têm lá por casa. A Ana teve um ataque súbito de felicidade quando viu, dentro da minha mochila, a Time Out que tinha levado para matar os tempos mortos que nunca chegaram a nascer. É fotógrafa freelancer e foi a convite de bater umas fotos para a Time Out Rio que deixou Buenos Aires. Desde aí que não se imagina a viver longe do Flamengo. A única coisa que lhe tenho a apontar é o seu mau juízo relativamente ao código da estrada. O PM mostra-nos as alíneas que desrespeitámos e confirma:
- Apreensão de licença e motorizada (e uma multa de três dígitos que mesmo falando em reais já assusta).
E depois, de 3 em 3 minutos aparece um policial diferente que pergunta o que se passa e remata com ar insolente:
- Apreensão!
Acho que percebi o filme antes da Ana. Ela estava ocupada demais a ver a sua vida andar para trás. Enquanto aqueles monos tentavam compreender se ela trabalhava para a embaixada brasileira na Argentina ou para a embaixada argentina no Brasil eu ainda ruminava se deveria avançar para o "polícia bom" ou se não passo afinal dum preconceituoso etnocêntrico que só consegue conceber civilização no continente europeu e começa a ver Cidades de Deus e Tropas de Elite onde eles não existem. Mas não, o filme era mesmo aquele. E é um filme triste ver dois polícias de metralhadora em punho representarem uma peça de teatro de valor artístico equiparável àquelas em que participei nos meus tempos de catequese. É triste e contrasta radicalmente com aquele lindo pano de fundo da Lagoa. Lembrei-me dos dois polícias búlgaros que, há 5 anos atrás, enquanto atravessava o seu país de comboio, me pediram um ou dois euros enquanto retinham o meu passaporte na sua mão. Esses não tinham metralhadoras. Mas o porte gigantesco e a entoação chantagista eram bem mais assustadores que o tom falsete do matulão a quem hoje calhava o papel de "polícia mau". Dou o toque à Ana e deixo-os a negociar mas pelo que o vento me traz da conversa os 28 reais que traz com ela não são o suficiente. Quando ficamos sozinhos de novo lembro-lhe, num tom calmo, que tenho 50 reais em cada bolso e que – deixemo-nos de tangas e falsos moralismos – a verdade é que cometemos uma infracção e que, por mais que nos entretenhamos a cascar naqueles gajos, a possibilidade que eles nos estão a dar é uma óptima oportunidade de sairmos dali respectivamente, com uma boa história para contar e um post original para publicar. Ela sorri, concorda e aceita 30 reais.
Já passou…encontramo-nos mais à frente. A Ana ainda está a recuperar do susto de se ver impossibilitada de "dirigir" durante não sei quanto tempo. Não resisto, olho para aquela figura simpática e despeço-me com um abraço e um beijo na testa. Ela insiste que está em dívida e que me leva a almoçar ou jantar. Logo se vê…esta despedida parece-me muito bem assim. Vou passear para a Lagoa e dou comigo a tentar cantarolar um excerto duma música do Gabriel o Pensador que sabia de cor há 14 anos atrás…
“Já me lixei” pensei comigo (foi outra a expressão que me passou pela cabeça mas não vejo necessidade de inaugurar outro tipo de vocabulário por aqui). A Ana, uma argentina a viver no Rio há dois anos, tinha insistido para que não me ficasse pela zona mais turística e oferece-me uma boleia até ao Centro. Disse que não me preocupasse por não ter capacete pois "dava caronas" desde que ali vivia e isso nunca tinha sido problema antes. Quando viajo tenho por hábito pôr-me nas mãos, no bom senso e nas vivências daqueles que lá vivem – seja há 2 anos ou há uma vida inteira. A conversa tinha começado pelos motivos do costume. Não há um raio de sol, eu ando de shorts e alças mas percebo que os cariocas aproveitam o seu Inverno (aos meus olhos meramente teórico) para usar os casacos e as camisolas que têm lá por casa. A Ana teve um ataque súbito de felicidade quando viu, dentro da minha mochila, a Time Out que tinha levado para matar os tempos mortos que nunca chegaram a nascer. É fotógrafa freelancer e foi a convite de bater umas fotos para a Time Out Rio que deixou Buenos Aires. Desde aí que não se imagina a viver longe do Flamengo. A única coisa que lhe tenho a apontar é o seu mau juízo relativamente ao código da estrada. O PM mostra-nos as alíneas que desrespeitámos e confirma:
- Apreensão de licença e motorizada (e uma multa de três dígitos que mesmo falando em reais já assusta).
E depois, de 3 em 3 minutos aparece um policial diferente que pergunta o que se passa e remata com ar insolente:
- Apreensão!
Acho que percebi o filme antes da Ana. Ela estava ocupada demais a ver a sua vida andar para trás. Enquanto aqueles monos tentavam compreender se ela trabalhava para a embaixada brasileira na Argentina ou para a embaixada argentina no Brasil eu ainda ruminava se deveria avançar para o "polícia bom" ou se não passo afinal dum preconceituoso etnocêntrico que só consegue conceber civilização no continente europeu e começa a ver Cidades de Deus e Tropas de Elite onde eles não existem. Mas não, o filme era mesmo aquele. E é um filme triste ver dois polícias de metralhadora em punho representarem uma peça de teatro de valor artístico equiparável àquelas em que participei nos meus tempos de catequese. É triste e contrasta radicalmente com aquele lindo pano de fundo da Lagoa. Lembrei-me dos dois polícias búlgaros que, há 5 anos atrás, enquanto atravessava o seu país de comboio, me pediram um ou dois euros enquanto retinham o meu passaporte na sua mão. Esses não tinham metralhadoras. Mas o porte gigantesco e a entoação chantagista eram bem mais assustadores que o tom falsete do matulão a quem hoje calhava o papel de "polícia mau". Dou o toque à Ana e deixo-os a negociar mas pelo que o vento me traz da conversa os 28 reais que traz com ela não são o suficiente. Quando ficamos sozinhos de novo lembro-lhe, num tom calmo, que tenho 50 reais em cada bolso e que – deixemo-nos de tangas e falsos moralismos – a verdade é que cometemos uma infracção e que, por mais que nos entretenhamos a cascar naqueles gajos, a possibilidade que eles nos estão a dar é uma óptima oportunidade de sairmos dali respectivamente, com uma boa história para contar e um post original para publicar. Ela sorri, concorda e aceita 30 reais.
Já passou…encontramo-nos mais à frente. A Ana ainda está a recuperar do susto de se ver impossibilitada de "dirigir" durante não sei quanto tempo. Não resisto, olho para aquela figura simpática e despeço-me com um abraço e um beijo na testa. Ela insiste que está em dívida e que me leva a almoçar ou jantar. Logo se vê…esta despedida parece-me muito bem assim. Vou passear para a Lagoa e dou comigo a tentar cantarolar um excerto duma música do Gabriel o Pensador que sabia de cor há 14 anos atrás…
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